Criação de Personagens: Uma Proposta Não-Binária

Arte por carpenoctem.

Hoje ume seguidore da página do Facebook apareceu para fazer umas indagações interessantes sobre como melhor incluir pessoas transgêneras em jogos de videogame.

Mas não em relação a NPCs ou personagens com histórias fechadas, mas sim em avatares.

E eu devo admitir que fiquei surpreendida com o quão simples foi a minha resposta.

Há um mito em relação a pessoas trans: De que nós somos complicadas. Que uma aura de mistério nos cerca e nossa complexidade é algo alienígena para “humanos normais”.

Só que, gente, nós não somos x-men. Bem que eu queria ser uma mutante e lutar do lado do Magneto, mas nós estamos falando do mundo real aqui. E no mundo real só existem duas coisas dentro da sociedade humana: Humanos e bichinhos de criação.

E da última vez que eu olhei, eu e todas as outras pessoas trans somos simples seres humanos.

Então, eu pergunto: Porque a concepção de uma pessoa trans parece algo tão alien? Até algumas pessoas trans compram essa história e acabam se isolando de toda a comunidade não-trans ou fazendo de tudo pra se passar por cis, pra que a tal da “aura de mistério” não lhe cause frustrações.

Mas nós não somos alienígenas. Nós somos seres humanos, quer gostemos disso ou não. E nossas identidades de gênero são tão humanas e fáceis de conceber quanto as ideias de homem cis e mulher cis.

A confusão dá-se simplesmente como produto de opressão social, e com o fato de que só recentemente nós resolvemos dar nomes para as nossas identidades.

Gênero é um espectro. E pessoas tem flutuado de formas diferentes por esse espectro por séculos. Jeanne D’Arc, Ed Wood, Duas-Almas. Esses são apenas alguns exemplos pra mostrar que a não-binaridade de gênero não é novidade para a humanidade.

Pensando nisso, perceba que incluir a possibilidade de personagens não-binárias em seus RPGs e outros jogos com personagens customizáveis não deveria ser tão difícil.

Seria possível argumentar que por mais que gênero seja um espectro, sexo só existem dois. Mas isso seria uma falácia científica sem tamanho. Sexo, assim como gênero, também é um espectro.

A única coisa que nos impede de compreender a simplicidade da diversidade de gênero são nossas mentes fechadas em um sistema binário que não existe e nos foi forçado.

Então vamos abrir nossas mentes e tentar perceber a natureza do gênero, e o quão fácil isso é de compreender e até transformar em sistemas de informação.

Indaguemos: Como poderia uma pessoa que desenvolva videogames, então, criar uma ferramenta de criação de personagens que respeite todas essas espectrometrias não-binárias?

Eu tenho algumas propostas bastante simples que qualquer pessoa com experiência em programação seria capaz de implementar:

Não pergunte pelo gênero da personagem

Se o seu jogo depende de animações em modelos de corpo mais ou menos fixos, e a customização da personagem se baseia no rosto, está tudo bem perguntar se ela terá um corpo masculino ou um corpo feminino, mas não deixe essa escolha determinar diferenças de diálogo.

Faça o criador de personagens do mesmo jeito que faria normalmente, e adicione uma simples pergunta no final: “Quais pronomes a sua personagem prefere?” e dê as opções “ele/ela”. Pronto, você acabou de deixar seu jogo 50% mais inclusivo (sem falar em ter deixado a vida de quem vai estruturar os diálogos muito mais fácil).

Gênero é uma construção social, e não um corpo e nem um pronome.

Não separe itens de customização por gênero

Não seja um The Sims. Se você fez um vestido florido pras personagens de modelo feminino, deixe ele disponível pras personagens de modelo masculino também! Se você fez uma barba épica pra personagem de modelo masculino, disponibilize ela pra personagem de modelo feminino.

Se você souber programar bem, perceberá que o seu trabalho vai ser cortado pela metade sem a segregação de itens de customização.

Se quiserem um exemplo de como isso funciona, dêem uma olhada em Saints Rown IV.

Expressão de gênero é um aspecto muito importante da identidade de gênero.

Use Medidores

Essa parte é mais complexa, e nem todo jogo consegue fazer isso.

Sabe como alguns desses jogos usam medidores para mudar posição e tamanho de orelhas, olhos, boca, tamanho do corpo e etc da personagem?

Use esses medidores no lugar das opções de corpo feminino ou corpo masculino.

Dark Souls, quando foi lançado, tinha um medidor hormonal, que media a quantidade de testosterona e estrógeno no corpo da personagem. E isso mudava a sua aparência e alocação de gordura e textura da pele. Essa mecânica poderia ser implementada para afetar o corpo todo da personagem, e não muita coisa mudaria em quesito lógico.

E também, é claro, usar medidores de tamanho e massa muscular e etc para criar vários tipos de corpos diferentes. Medidores que jogos como Soul Calibur IV e Saints Row 4 já usam.

Até sexo é um espectro.

Tenha ambição

Se você puder implantar todas essas propostas na ferramenta de criação de personagens do seu jogo, você terá em mãos o criador de personagens mais inclusivo que já existiu.

Só não esqueça de garantir que o resto do jogo será tão inclusivo quanto.

Afinal, como nosse queride Flea diz…

Homem… Mulher… Qual a diferença? O poder é belo, e eu tenho poder!

– Flea, Chrono Trigger, 1995

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