Quantificando Aparências, Parte 1

Arte por NellielTu

Aspectos sociais de RPGs de mesa costumam ser importantíssimos, mas muitas vezes acabam se tornando mecânicas de segundo plano em frente ao combate.

Poucos são os jogos em que a habilidade de seduzir e a habilidade de diplomacia são duas coisas diferentes com seus próprios méritos. E de qualquer maneira, ambas as habilidades muitas vezes acabam se facilitando graças a aparência física da pessoa em questão.

Entretanto, quando se trata de quantificar essas habilidades na hora de jogar, tudo isso acaba se confundindo com “a personagem é bonita”. E isso é um problema.

Um dos exemplos mais simples e comuns de atribuição de aparência é o “Carisma” usado principalmente em D&D e suas variantes.

Vamos citar a descrição de Carisma apresentada na edição 3.5 de D&D (essa não é a tradução oficial):

Carisma mede a força de personalidade, a persuasividade, o magnetismo da personalidade, a habilidade de liderar e a atratividade física da personagem. Essa habilidade representa a força de personalidade da própria personagem, e não a forma como ela é percebida pelos outros em situações sociais.

É uma descrição bastante genérica. Quase “faz tudo”. Essa habilidade pode ser complementada com Perícias no caso de D&D, e a grande maioria des jogadores parece levar em conta o quão ampla é a descrição de Carisma…

Desde que o personagem seja homem.

Pela minha experiência com mesas de D&D, quando a personagem é uma mulher ou uma pessoa não-binária, os aspectos de “força de personalidade, persuasividade, magnetismo de personalidade e habilidade de liderar” são fortemente ignorados em favor da aparência física. E por algum motivo, essa alta aparência física sempre tem alguma relação com aspectos humanos de atração sexual. Eu pelo menos já cansei de ouvir “Minha personagem tem 20 de carisma. 10 em cada peito.” como uma alusão ao fato de que ela tem peitos grandes e nada mais (um puto desperdício do atributo).

Isso geralmente não acontece quando a mesa é só de mulheres e pessoas não-binárias, ou quando homens cis estão em minoria expressiva na mesa, mas infelizmente essas mesas são casos raros na comunidade RPGista do Brasil.

Seja como for, algumas pessoas veem esse único atributo para todas as interações sociais como a fonte da confusão desses jogadores. E também como uma limitação que desfavorece uma interpretação mais complexa.

Alguns jogos com sistemas de Pontos de Personagem (vamos falar disso depois) tentaram resolver o problema criando características (como perícias, vantagens e desvantagens no caso de GURPS e 3D&T) diferentes para cada aspecto social do seu jogo, incluindo a aparência.

Mas no início dos anos 90, um jogo muito inspirado pelo movimento feminista e pela cultura gótica e punk viria a tona, fazendo muito sucesso e criando alguns questionamentos muito interessantes sobre como se construir sistemas e cenários de RPG.

É claro que eu estou falando de Vampiro: A Máscara. E com ele, o sistema Storyteller.

Eu não vou explicar todas as nuances de como a criação de personagens no sistema Storyteller funciona, mas houveram inovações muito interessantes para o assunto que estamos tratando aqui.

A primeira delas são os atributos. O sistema Storyteller possui 9 atributos divididos em 3 tipos de atributos. Então quem estiver criando a personagem deve priorizar um desses tipos, tornar outro secundário, e deixar o terceiro como menos importante. E os 3 tipos são: Físico, Social e Mental.

Este foi um dos primeiros jogos de RPG da história a dar o mesmo nível de importância aos aspectos sociais da personagem em comparação aos aspectos mentais e físicos.

Os 3 atributos sociais são: Carisma, Manipulação e Aparência.

Olha a aparência aí de novo.

Vamos dar uma olhada em como o atributo Aparência foi descrito na terceira edição de Vampiro: A Máscara, e tentar ver os inúmeros problemas que essa definição trás.

O Atributo Aparência mede a beleza de uma personagem. Mais do que o visual, contudo, a Aparência é a soma da graciosidade, beleza, e do inexplicável je ne sais quoi, que tornam as pessoas desejáveis.

A Aparência é um tanto “mais” como “menos” do que palavras. Ela apela para os níveis mais profundos da psiquê, e portanto, molda tanto as primeiras impressões como a natureza das memórias depois delas. Não importa quão “mente aberta” seja uma pessoa, não importa o quão veemente ela diga, “a personalidade é mais importante do que a aparência”, as aparências continuam sendo levadas em consideração.

Esta característica não é usada apenas para fazer com que amanes potenciais notem seus gestos através de um salão lotado. Em situações onde a primeira impressão é fundamental, ou que envolvam pessoas que consideram a Aparência algo muito importante, uma personagem não pode ter mais dados em uma parada Social do que seu nível em Aparência. Portanto é criticamente importante que você tenha uma boa aparência ou conheça melhor as pessoas antes de convencê-las a bombardear o refúgio de um Justicar.

1 – Fraco: Feio como um macaco.
2 – Médio: Você não se destaca na multidão, nem para melhor nem para pior.
3 – Bom: Estranhos se oferecem para lhe pagar uma bebida.
4 – Excepcional: Você é atraente o suficiente para ser um modelo, e as pessoas frequentemente lhe dizem isso.
5 – Extraordinário: Você causa tanto ciúmes insanos como reverências beatas.

Ok. Eu sei. Respira fundo.

Vamos começar com o fato de que essa definição é estúpida. Beleza é subjetiva. Você pode criar um personagem que é um homem grande e musculoso, com uma barba muito bem desenhada, olhos profundos, cabelo fenomenal com aparência 4. Se esse cara tentasse dar em cima de mim ou de 80% das minhas personagens de RPG, ele não poderia contar com seu nível de aparência. Afinal de contas, eu não curto macho, e as minhas personagens geralmente são lésbicas.

Beleza é subjetiva, e sempre vai depender dos olhos de quem vê.

E quando um jogo quantifica alguma coisa, es fãs desse jogo começam a usar essas quantificações desses jogos para se classificar no dia-a-dia. E existir um atributo assim, com essas definições, em um jogo tão popular, pode acabar criando sérios problemas de bullying e baixa autoestima, pela pessoa “não ter Aparência o suficiente.”

Já vi esse atributo até causar problemas em LARP.

E essa definição… Bom… Ela contradiz o cenário…

Vykos_Tzimisce

Sascha Vykos tomando uns bons drinks.

Eu gostaria de apresentar-lhes Sascha Vykos.

Sascha é ume personagem não-binárie, que desde a sua união ao clã Tzimisce abandonou todos os conceitos, físicos e morais, do binarismo… E da humanidade.

Eu falarei mais sobre Sascha na coluna Trans In Games. Mas agora basta saber que Sascha é ume NPC poderosíssime e de muita importância para o Mundo das Trevas (esse é o nome do cenário de Vampiro: A Máscara) com incríveis 7 pontos de Aparência!

7!

São mais bolinhas do que cabem na ficha!

Agora olhem para essa gravura de Sascha.

Alguém aqui consegue realmente achar Sascha sexualmente atraente com base nessa gravura?

Como pode uma criatura tão repulsiva aos olhos humanos ter um nível de Aparência tão alto?

A resposta é simples: A definição de aparência estava errada. Os outros livros do Mundo das Trevas davam definições bem diferentes de Aparência. Mas finalmente, uma definição mais concisa foi criada na edição de 20 anos de Vampiro: A Máscara.

Mas esse texto está ficando GIGANTESCO e eu estou MORRENDO de sono e ainda tem um MONTE de coisa a ser dita sobre a atribuição de aparências em RPGs de mesa.

Então continuaremos esse pensamento na parte DOIS dessa matéria, pode ser?

Beleza. Até mais!

Um comentário sobre “Quantificando Aparências, Parte 1

  1. Bruno Campelo disse:

    Então, sem a parte 2 do texto eu não tenho como saber o que vai acontecer haha

    Mas eu percebi o paradoxo da Aparência no Storyteller (mas numa situação inversa) fazendo um personagem assim num vibe troglodita, com aparência alta… ele seria considerado no fucking way pela maioria das pessoas, a não ser por quem curte neandertais. #mysweetcaveman

    Mais recentemente (e agora mais adulto e pensando em questões sociais) eu estou fazendo um personagem medieval russo meio eslavo meio mongol… que é rejeitado entre os eslavos e entre os asiáticos… e eu planejava ele com aparência alta… mas alta pra quem, se ele é visto com preconceitos em qualquer lugar no país dele? E se ele fosse pra Portugal, Brasil, África (que vai ser o caso da crônica)? Como lidar aparência com padrões de beleza do mundo todo?

    Enfim, ansioso pela parte 2 do texto

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