Trans In Games – Catherine – Erica Anderson

Você já ouviu falar em transmisoginia?

É quando até o nome da personagem trans do seu videogame favorito é uma “piada” em relação à sua identidade de gênero.

É quando uma mulher trans é tratada como um ser mentiroso e promíscuo cujo único objetivo na vida é “emgayzar” pobres homens héteros.

SPOILERS de Catherine à frente.

Hoje nós vamos falar das pequenas formas veladas de opressão masculina cisgênera, incorporadas na forma de…

Erica Anderson

Erica Anderson

Erica Anderson

Erica é uma personagem secundária de Catherine, um jogo lançado em 2011 por um dos estúdios mais transfóbicos na história do videogame moderno (sim, eu estou acusando o adorado Persona Team de transfobia).

Ela é apresentada como uma garçonete do Stray Sheep, um bar onde o “pobre coitado” Vincent Brooks (protagonista do jogo), e seus amiguinhos machistas frequentam TODA NOITE. E ela também é uma amiga desse grupo de homens. Todos grandes amigos de infância.

Erica parece ser uma mulher que sabe o que quer, e não tem vergonha do próprio corpo. Ela usa decotes escandalosos, saltos altos e sorrisos contagiantes como uma forma de mostrar o orgulho que ela sente pelo seu corpo novo, que ela provavelmente só conseguiu depois de anos trabalhando em muquifo atrás de muquifo.

Ela é uma mulher adulta. Mais adulta que os homens que bebem no bar em que ela trabalha. E sempre tenta convencer o Vincent a tomar jeito na vida e ter responsabilidade, mas nunca para de ser brincalhona e divertida.

E tem até um garoto novo que acabou de se enturmar no grupo dos homens, chamado Toby, que está em um flerte recíproco muito jovem e saudável com a Erica.

Erica é uma mulher trans simples, mas feliz. E isso seria maravilhoso, se não fossem… Os homens.

Todo o tempo, esse grupo de amigos da Erica, respeita os seus pronomes. Mas só os seus pronomes. Quando a Erica não está por perto eles não poupam esforços em alertar o Toby de que ela “não é quem ela parece ser”. Reprimindo o relacionamento aparentemente saudável dos dois, com medo de que o menino “acabe virando gay” ou “se machuque muito quando descobrir a verdade”.

Toby

Toby

Pessoas trans, por algum acaso, são proibidas de terem relacionamentos saudáveis com outras pessoas, pelo simples fato de serem trans?

O tempo todo, os “amigos” da Erica tratam-na como se ela fosse algum tipo de mentirosa, arruinando a vida do Toby. E esse é o tipo de coisa que acontece o tempo todo na vida real. Quando alguém é amigo de uma pessoa trans, mas “só fora de casa”. E tem vergonha de apresentar suas amizades trans às amizades cis.

Isso é transfobia. E quando se trata de acusar uma mulher trans de ser mentirosa e “promíscua” e “conversora de homens héteros”, isso é transmisoginia.

Sabe… Quando chamam mulher trans de “trap”.

Mas a transmisoginia velada sofrida pela Erica não pára por aqui. Ela está no roteiro, e nas pessoas que escreveram as personagens.

Quando Toby dá a notícia de que ele e a Erica finalmente transaram e ele finalmente perdeu sua virgindade, ele diz que:

Mas foi diferente do que eu imaginava. Eu não sei bem o que aconteceu.

Os amigos dele tentam alertá-lo que é porque a Erica é trans, mas são interrompidos pela própria Erica aparecendo pra conversar e anotar seus pedidos.

É nesse ponto da história que eu geralmente começo a gritar e xingar, mas vou tentar manter a boa postura aqui no blog.

O Toby era virgem até transar com a Erica, e ele não sabe exatamente o que aconteceu de diferente na transa. Assumo que durante esse sexo, o Toby tenha visto ela nua, e que a Erica tenha feito a cirurgia de redesignação sexual, e portanto, ele transou com uma mulher com vagina.

Mas como ele saberia que foi estranho se ele nunca transou na vida? Talvez ele tivesse uma ideia diferente de como sexo funciona na sua cabeça, mas a reação dos seus amigos deixa claro que, quem quer que tenha escrito essa cena, acredita que neovaginas são diferentes de vaginas naturais na hora de transar.

Mas adivinha?

NÃO É!

Que absurdo né gente? A ideia de que uma mulher trans pode ser exteriormente idêntica a uma mulher cis se ela assim desejar. Aonde esse mundo vai parar?

Sarcasmos a parte, ainda existem outros aspectos transfóbicos na personagem. Vamos começar pelo seu nome.

6b349adbdcabe74a82cd53258a5c4b9dErica Anderson.

Antes da sua transição ela se chamava Eric Anderson. Eric Anderson é um nome nórdico que remete a força e poder patriarcal dos vikings. Anderson mostra que ela é O filhO de Ander, como se fosse uma dica pra dizer que “no fundo ela ainda é um menino”, ou que ela é uma desertora da sua masculinidade por ter colocado um “a” ao lado de um nome de realeza entre os vikings.

Eles poderiam tê-la chamada de Erica Anderdatter, se o objetivo era dar uma força viking ao seu nome e pagar respeito às Damas de Escudo que existiam naquela sociedade. Ou dá-la qualquer sobrenome que não terminasse com “son” se o objetivo era dar um nome comum pra ela.

Agora o seu Design.

Por mais que Erica tome orgulho no seu corpo, a roupa com a qual ela aparece no jogo não foi de sua escolha. É um uniforme. Um uniforme criado por um homem, para atrair homens para o seu bar. O Chefe do Stray Sheep diz que gosta de manter a Erica por perto pois:

Ela atrai muitos clientes.

Ou seja. Ela é ridicularizada pelos amigos, e objetificada pelo chefe e pelos demais clientes. O único poder que ela tem sobre a sua sexualidade nessa situação é ter orgulho dela, ou se demitir.

E muitas vezes se demitir não é uma opção, principalmente para mulheres trans.

Sobre seu envolvimento na trama.

Catherine fala, entre outras coisas, sobre uma maldição que é jogada sobre homens que “não são úteis para a sociedade e não querem se reproduzir”. Maldição que se traduz em pesadelos estranhos e cansaço diário.

Quando o vilão do jogo é revelado, ele faz um ponto interessantíssimo sobre como o patriarcado também é capaz de afetar negativamente a vida de alguns homens. Mas esse não é meu ponto.

A questão aqui é que a maldição também foi jogada na Erica, e ninguém além do Toby e da própria Erica contestou o fato de que ela também está tendo pesadelos, sendo que só homens deveriam estar sofrendo com eles.

Só faltou o Vincent e a turminha dizerem “Mas… Você É um homem.”

O que na verdade eles fizeram. Só que nas entrelinhas.

Mas o pior de todos os crimes cometidos contra a Erica e contra as pessoas trans jogando esse jogo, está no final.

O final em que a Katherine e o Vincent se casam.

Me dá vontade de chorar.

O Toby começa a choramingar que ele quer se casar um dia, e quando a Erica aparece pra confortá-lo, ele joga ela fora dizendo.

Eu sei que o pessoal te conhecia como Eric na escola! Eu quero minha virgindade de volta!

Foda-se que ele havia se apaixonado por ela antes dessa descoberta. Tudo que importa é que ela teve um pênis um dia, não é mesmo?

E quando um dos seus amigos tenta gravar o “casal fofo”, O Toby fica extremamente violento e pede para que desliguem a câmera, com VERGONHA da sua namorada trans. E o que a Erica faz? Continua abraçando o Toby como se nada tivesse acontecido.

Isso, querides, é transmisoginia.

Catherine é um jogo com vários outros problemas: Machismo, misoginia, ilusões de masculinidade, objetificação de mulheres. Mas meu objetivo com essa coluna é falar sobre transgeneridade.

Ele tem bons puzzles, e mecanicamente falando, é muito bem feito. Como uma designer, eu admiro muito Catherine, mas como mulher, não há nada além de desprezo. E por conta disso, minha crítica se torna ainda mais dolorosa.

Eu queria gostar de Catherine, mas não tem como defender.

Nojo... Puro... Nojo...

Nojo… Puro… Nojo… Mil desculpas, Erica.

5 comentários sobre “Trans In Games – Catherine – Erica Anderson

  1. Kiliano disse:

    Excelente post! =]

    Fico sempre muito feliz em ver alguns nichos podendo se identificar com esse meio de entretenimento. Recentemente eu entrevistei uma Trans, falando sobre um game chamado Des4ria, que conta sobre a vida pessoal de uma trans em processo de tratamento com hormônios. Ficou bem legal, recomendo bastante:

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      • kilianolopesbrito disse:

        Por favor acredite, foi um erro de digitação. Eu sempre me refiro a ela no feminino em tudo que escrevo, incluindo no próprio vídeo. Valeu a observação, vou ver se tem como eu editar o comentário

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      • kilianolopesbrito disse:

        Tanto que a segunda vez q eu dígito “trans” no comentário eu uso o artigo de gênero correto. Não tem como editar o comentário, mas por favor, acredite, foi um erro de digitação e não de caráter xD

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