Trans In Games – Persona 4 – Naoto Shirogane

Eu fiquei enrolando esse post acho que por mais de um mês. Esse assunto, Naoto e Persona 4, é um assunto muito delicado pra mim. Principalmente porque ele era meu jogo favorito na minha pré-adolescência, mas aí eu fui jogar ele de novo depois de ter começado a minha transição e eu chorei toda vez que via o Naoto, e fiquei com um desgosto enorme pelo Kanji e pelos demais personagens homens cis do jogo.

A misoginia e a homofobia reproduzida por essas personagens é de doer no peito. Ainda mais em um jogo com uma história tão profunda e complexa quanto esse. Eu me sinto triste toda vez que penso em Persona 4. Eu sinto que vou ter um ataque de pânico toda vez que ouço alguém se referir ao Naoto usando pronomes, artigos e adjetivos femininos.

Meu objetivo nesse post já deixou de ser desafiar o canon e provar que o Naoto é homem. Também já deixou de ser denunciar a misoginia, a transfobia, e a homofobia que existe no jogo. Agora é só um desabafo. Preciso tirar essa pedra do meu caminho pra poder continuar com as demais personagens trans maravilhosas que o nosso mundo de videogames tem pra oferecer.

Se eu vou chorar toda vez que abro o editor desse arquivo, vamos chorar pra valer, e chorar tudo de uma vez. Eu nem comecei a falar dele e já estou chorando. Esse assunto é super trigger, então, por favor, gente. Sem comentários babacas dessa vez.

Spoilers de Persona 4 adiante.

Naoto Shirogane

Megami Tensei - Shirogane Naoto
Naoto Shirogane

Naoto é um rapaz do ensino médio que é considerado um dos melhores detetives de todo o Japão. O filho mais novo da família Shirogane, uma família de detetives.

Ele passa como homem. Se sente bem como homem. Ele tem fraquezas e segredos como qualquer um, mas os esconde tão bem quanto consegue.

Recentemente ele se mudou para Inaba para investigar o caso das mortes estranhas com os corpos jogados em lugares altos. Ele é super profissional, mas também meio frio e pragmático. Mesmo assim ele tem alguma doçura inexplicável nele. Quase que um sex appeal em toda a seriedade que ele lida com o seu trabalho.

E ele é lindo. Olha pra cara dele.

Em Persona 4 existem as “Shadows”, que são partes reprimidas das personalidades das pessoas. E quando alguém vai até o “mundo da TV”, essa pessoa encontrará, e será desafiada pela própria Shadow.

Durante a investigação, Naoto vai parar no mundo da TV, e como é feito com todas as outras Party Members, você deve resgatar o Naoto e ajudá-lo a derrotar a sua Shadow.

As fases de resgate das pessoas são temáticas para a personalidade de cada personagem. E a do Naoto não é diferente. A fase para o resgate de Naoto lembra o covil de um super-vilão de desenhos animados e histórias em quadrinhos. Uma base militar cheia de robôs de brinquedo e alto-falantes usados com o único objetivo de provocar os heróis.

Isso indica que a luta do Naoto contra si mesmo tem relação com sua infância. Algo que anda com ele há muito tempo.

Quando encontramos Naoto e a sua Shadow, os dois se encontram em uma sala de cirurgia cartunesca. O tipo de sala de cirurgia que um vilão de desenho teria, para realizar procedimentos cirúrgicos em suas vítimas.

O Shadow de Naoto então começa seu discurso sobre como ele jamais será um homem de verdade. Não importa o quanto ele tente, ele sempre será uma mulher.

E vocês sabem com o que isso soa? Disforia. Todos os elos que a fase poderia ter feito com uma crise de disforia estão aqui. Lembranças da infância. Vilanização de si mesme. Achar que você não é o gênero com o qual você se identifica e que você está enganando a si mesme e as pessoas ao seu redor.

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Shadow de Naoto em forma de batalha

Quando a Shadow de Naoto entra em sua forma de batalha, temos outra imagem trans muito comum: Uma figura metade humana, metade não-humana. Muitas crianças trans acabam se identificando com essas personagens (como eu me identifico com a Aigis, por exemplo, ou como a Jaz se identifica com sereias). No caso do Naoto, sua shadow se transformou em algo metade humano e metade robô. Nenhuma das metades tem qualquer característica feminina (o buraco azul no peito pode ser interpretado como uma mama removida, entretanto), sendo que este é um reflexo da sua personalidade.

Quando sua shadow é derrotada, Naoto afirma que o seu corpo não importa. E quem ele é por dentro é o que realmente importa.

Por algum motivo, depois que eles saem da dungeon, o que ele é por dentro se torna o seu corpo. Todos os seus amigos começam a tratá-lo no feminino. Ele fica obviamente desconfortável no inicio, mas logo aceita, como se não fosse nada. Como se ele tivesse aceitado ser mulher. Como se por ser mulher ele deva ser obrigado a aturar comentários misóginos sobre o tamanho dos seus peitos ou sobre o quão “gostosa” ele é.

Sim. É isso que acontece. Os homens do jogo passam a tratá-lo como a mulher mais gostosa e menos respeitável do mundo depois que eles ajudam-no a derrotar o seu shadow. E isso se reproduz nos jogadores.

Naoto se torna uma “waifu”. Sua identidade transmasculina é negada e fetichizada ao mesmo tempo, tanto pelo jogo quanto pela fanbase. E ele, sendo um personagem fictício sem nenhuma agência sobre sua própria vida, não faz nada para afirmar sua identidade, e se deixa ser objetificado.

O ápice do abuso emocional contra o Naoto acontece quando o protagonista decide romanceá-lo. Sabe como o protagonista consegue com que o Naoto se apaixone por ele? Slut shaming. Vamos falar sobre o Naoto ser mulher em todas as nossas conversas. Tratá-lo como inferior ao protagonista “mas ainda digno de nota, por ser uma mulher gostosa”. “Se você quer ficar bem com seu corpo, por que você não usa ele da forma que ele foi feito para ser usado?”

Eu não consigo lidar com essas cenas… Mas piora.

Quando o protagonista consegue levar o Naoto pra sua cama, ele pode forçá-lo a usar um uniforme escolar feminino. O Naoto não quer, mas o protagonista ainda pode insistir, continuando com o slut shamming. E então procede para estuprá-lo enquanto ele está tendo uma crise de disforia.

Um estupro… Em um videogame pra adolescente…

Eu não sei se consigo falar mais do que isso. Só de lembrar a cena do estupro todas as minhas capacidades mentais se desfazem pra dar lugar pra desespero e lágrimas. Eu nunca vi Persona 4 sendo realmente usado como uma arma pra desvalidar identidades transmasculinas e justificas estupros “corretivos”, mas é exatamente isso que esse jogo faz com o seu próprio personagem.

O Naoto é obrigado a passar por situações vergonhosas com seus “amigos”, é tido como mentiroso e desonesto, e durante a sua “correção de gênero” ele pode ser estuprado pelo protagonista. Alguém, por favor, me explica como que pode qualquer ser humano normal conseguir lidar com uma história violenta dessas?

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O principal problema de Persona 4 é que sua transfobia está escondida atrás de sorrisos e músicas divertidas. A história canônica é que Naoto é uma mulher que não gosta dos papeis de gênero atribuídos a mulheres. E por mais que isso pareça não bater com as suas ações no começo do jogo nem com a luta contra a sua Shadow, é possível sim que na vida real pessoas cisgêneras questionem o seu gênero que sofram com disforia.

Mas mesmo assim, isso não justifica a misoginia a qual ele é submetido.

Mas se eu concordo com o fato de que canonicamente o Naoto é mulher, por que eu me refiro a ele no masculino? Primeiro por que é assim que ele se referia a si mesmo no começo do jogo, antes das demais personagens descobrirem que ele tem o corpo de uma mulher. E segundo que o canon é transfóbico.

Quando criando uma obra de arte popular, eu acredito pelo menos, que e artista que estiver a criando, tem uma responsabilidade de boa educação com a sua audiência.

Cultura pop japonesa já está impregnada com a negação de identidades transmasculinas. O exemplo mais recente que eu consigo pensar é Shiori Genpou do live action de Kuroshitusji, que é um personagem que sofre problemas similares ao Naoto (e eu não consegui assistir essa porra desse filme até o fim porque, puta merda. Alguém explica pra japoneses que homem trans não é uma mulher que tem vergonha de ser mulher. Alguém explica pra esses japoneses que homens trans são HOMENS e que mulher NÃO TEM vergonha de ser mulher). E várias obras populares japonesas tratam personagens LGBT como tendo algum tipo de doença mental. Até os jogos que se pagam de revolucionários, como Fire Emblem Fates com as personagens Syalla e Zero.

Persona 4 cria uma promessa de personagens LGBTs profundos, mas no final esses dois personagens são limpos da sua identidade LGBT. Como se eles tivessem sido “curados” da sua LGBTzidade. É como você pegar uma pessoa negra e transformá-la em branca porque pessoas brancas são mais “aceitáveis”. Persona 4 acabou ilustrando um fenômeno que eu gosto de chamar de “straightwashing”.

Naoto aparece como um homem trans e vira mulher cis. Kanji aparece como homossexual e vira heterossexual.

E já que estamos falando no Kanji…

Kanji Tatsumi

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Kanji Tatsumi

Kanji não é trans, mas a história dele é outra que me machuca muito. E eu preciso botar minhas dores pra fora. E ele está intimamente relacionado com a história de Naoto.

Kanji é um homem cis, típico badboy japonês, que por gostar de costurar acha que é menos masculino, então esconde isso de todo mundo, e começa a questionar a sua sexualidade quando se vê atraído por Naoto.

Na missão de resgate de Kanji, a dungeon é uma grande sauna, e o Shadow dele faz um discurso sobre como curtir homem é algo vergonhoso.

O Kanji “aceita” o fato de que ele é gay, e todos os seus amigos também, menos a porra do Yosuke, que fica o jogo todo depois disso com aquele papinho homofóbico nojento de “você pode ser gay, mas longe de mim”.

Quando Naoto “vira mulher”, entretanto, Kanji se sente aliviado por ter se atraído por uma mulher, e não por um homem. E os dois efetivamente se tornam um casal heterossexual, assumindo que o protagonista resolva não estuprar o Naoto e virar seu “namorado”.

E com isso, o Kanji começa a reproduzir homofobia ele mesmo.

Straightwashing.

Felicia Guerreiro

Eu me sinto muito mal com isso tudo. Quando eu joguei Persona 4 pela primeira vez eu senti uma conexão muito forte com o Naoto, mas eu creio que o fato dele ser sido straightwashed logo depois da sua contra a sua shadow, eu me vi na obrigação de “ser homem”. Uma representatividade trans decente naquela parte da minha vida teria me ajudado muito a me descobrir mais rapidamente, e a encontrar formas mais eficientes de lidar com minha disforia, minha depressão, minha ansiedade.

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Artista Desconhecide

Mas vendo um personagem disfórico se colocando no seu lugar como o gênero o qual lhe foi designado ao nascimento, isso não serviu de nada além de obrigar uma vida que não era minha. Uma vida de homem cis. Por muito mais tempo do que eu gostaria de ter vivido.

É dessa responsabilidade que eu estou falando. Pessoas como Kanji e Naoto canônicos existem na vida real? Pessoas que achavam que eram LGBT, mas depois de um tempo descobriram ser cishet? Sim, claro que existem. Tudo nesse mundo é possível. Mas essas pessoas estão apenas passando por fases. Não é uma realidade constante para elas. Sendo realmente cisgêneras e heterossexuais, essas pessoas não precisam de representatividade. O mundo real já é o suficiente para afirmar suas identidades. São pessoas homo, trans, bis, as, inters, que precisam de representatividade onde quer que a encontrem pra afirmarem suas identidades.

Ser LGBT é difícil. Ser cishet é fácil. Pessoas LGBT precisam disso. Pessoas cishet não.

No fundo, o que criar essas personagens faz, é nos apagar ainda mais do mapa, criando a ideia de que toda pessoa LGBT está apenas passando por uma “fase”.

O ocidente está muito a frente do oriente quando de trata de representatividade e respeito em obras populares, por mais que ambos os mercados tenham um caminho longo a trilhar.

No Canadá a gente tem o Krem. No Japão a gente tem o Naoto. Vamos refletir um pouco sobre isso.

Mas não se sinta envergonhade caso você goste de Persona 4. Ele é um bom jogo. Só tenha em mente as coisas nocivas que esse jogo tem a capacidade de trazer às pessoas LGBT, e tente não reproduzir as LGBTfobias que esse jogo cria perto das outras pessoas.

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P.S:

Muitos agradecimentos pra minha colega Shirlei que revisou esse texto.

6 comentários sobre “Trans In Games – Persona 4 – Naoto Shirogane

  1. Kitsune Ws disse:

    Nossa, baixei ele recentemente, estava com bastante vontade de o jogar, mas do seu artigo deu até desanimo :\
    Não sei oq assusta, ter algo assim em um jogo, ou ter algo assim em um jogo extremamente elogiado

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  2. Nobody95 disse:

    “Lembranças da infância. Vilanização de si mesme. Achar que você não é o gênero com o qual você se identifica e que você está enganando a si mesme e as pessoas ao seu redor.”
    “temos outra imagem trans muito comum: Uma figura metade humana, metade não-humana. Muitas crianças trans acabam se identificando com essas personagens”
    Okay….acabo de perceber que realmente tenho disforia…..

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    • feliciaguerreiro disse:

      Não tome meu artigo como base pra tomar conclusões muito pesadas, queride.
      Se você precisar de ajuda psicológica ou de contato com mais pessoas trans, posso ver se conheço alguém que esteja perto da sua área pra te ajudar. Só mandar uma mensagem pra página do Facebook, https://www.facebook.com/feliciagamingdiary
      Toda sorte do mundo pra ti <3

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      • Nobody95 disse:

        Obg <3
        Mas eu ja me entendo como trans, eu só não achava que sofria disforia dessa forma
        Eu não cheguei a ler muito sobre ela(na verdade li praticamente nada e-e), mas me identifiquei com oq falou no texto……was kind a weird…..
        De qualquer forma, obg pelo apoio <3

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  3. ShyCommenter disse:

    Finalmente criei coragem para ler esse artigo e olha, deu para entender porque te afeta tanto…
    E sim, ter contato com a cultura japonesa é saber que a gente VAI encontrar, VAI bater de frente e VAI sofrer com essa cisheteronormatividade inerente deles, e com o nojo de saber que eles reproduzem isso de forma tão comercial e aberta.
    Força, Felícia. Força, Naoto. <3

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  4. Kaique disse:

    Joguei persona 4, pelo menos umas 5 ou 6 vezes,e claro que a xenofobia sempre me incomodou, porem eu nem sabia que dava pra violentar o naoto.
    Mais por mais absurdo que seja pra nois brasileiros isso num jogo, não é algo tão estranho para os japoneses, eu também sempre fui muito fan de hentai, e quem acompanha sabe que sempre aparece cenas pesadas, como estupro,incesto e etc. Embora pra gente seja algo repulsivo pra eles é normal ou cultural. Tanto que eles vende esse tipo de produto la tranquilamente.( claro sempre pra maiores de 18 anos) enfim acho errado não estranho, quem conhece a cultura japonesa de longa sabe que isso pra eles é normal.

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