Porquê Gone Home é meu jogo favorito

A mais ou menos 6 meses atrás, eu estava no meu quarto, procurando joguinhos independentes pra jogar que rodassem no meu PC. Eu ouvi dizer que Gone Home era legal e leve, e resolvi baixá-lo. Fiquei decepcionada quando vi meu PC rodando ele a menos de 30 FPS com os gráficos mínimos, e eu não fazia ideia da viagem na qual eu estava me metendo.

Spoilers de Gone Home adiante.

Gone Home se passa em 1995 e começa com o que parece ser apenas mais um daqueles jogos de terror genéricos. Você é Kaitlin, você voltou pra casa repentinamente depois de uma longa viagem, e por algum motivo, a sua casa é uma mansão super assustadora, e você chegou durante a noite no meio da chuva. E a casa tá vazia. Seu objetivo? Descobrir porque caralhos não tem ninguém em casa.

A trilha sonora (ou a falta dela) não ajuda a aliviar a tensão de que alguma hora vai dar merda. Parece um filme de suspense. Mas esse não é um jogo de horror. É um jogo de exploração.

Logo você descobre notícias conspiratórias sobre os seus pais, envolvendo segredos governamentais, indústrias farmacêuticas, e até mesmo alienígenas, mas depois de um tempo, todas essas histórias estranhas dignas de um episódio de Welcome To Night Vale se tornam superficiais.

O jogo começa de verdade quando você encontra a primeira parte do diário da sua irmã Samantha.

Conforme o jogo vai passando, sua ambiência também muda. As verdadeiras recompensas e formas de progressão do jogo são os diários da Samantha, dublados de forma fenomenal, que contrastam com o tom horror do jogo.

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Arte por Janice Chu

Você descobre que Sam, sua irmãzinha, nesse um ano que você ficou na Europa, encontrou-se interessada por outra garota jogando Street Fighter, Lonnie. Elas se juntaram a uma banda, e acabaram se apaixonando.

Eu joguei esse jogo logo depois de ler Azul É A Cor Mais Quente, então eu já estava bastante sensibilizada com aquela história sobre adolescência lésbica. Eu não estava pronta para outra.

O clima de horror do jogo logo foi dando espaço para o drama do romance entre Sam e Lonnie. E por mais que a história delas fosse o suficiente para me manter jogando, Gone Home constantemente me jogava mudanças de paradigma muito bruscas que pareciam mudar o clima do jogo, para criar um contraste ainda maior com a história da sua irmãzinha.

Por exemplo, eu toda chorona ouvindo um dos pedaços do diário dela, abro a porta do banheiro dela, e vejo uma mancha enorme de sangue na sua banheira, como se tivesse ocorrido um assassinato. Vou analisar o sangue, e recebo outro pedaço do diário falando de “pintar o cabelo de vermelho”, então noto o potinho de tinta vermelha para cabelo abandonado no banheiro, e sinto um alívio muito grande descer minha espinha.

A casa da sua família é grande o suficiente para que você nunca se sinta presa no mesmo lugar. Até a história da Sam tem uns twists que fazem você pensar que esse SIM é um jogo de terror genérico, mas são twists inconsequentes, feitos só pra surpreender e jogadore quando el descobre que esses twists não dão em nada.

Se alguém me dissesse que essa é uma história real que aconteceu com pessoas reais eu acreditaria.

E muitas vezes a trilha sonora usada para ilustrar alguns eventos, são as trilhas mais bem escolhidas que já vi.

2013-08-14_00007Pela casa você encontrará fitas cassete com músicas de bandas do movimento Riot Grrrl, como Bratmobile e Heavens to Betsy, e eu AMEI essa trilha sonora. Eu não conhecia nada do movimento Riot Grrrl até jogar esse jogo, e foi amor a primeira ouvida. Garotas femininjas punk rockers se empoderando através da música pauleira. Como não se apaixonar por isso?

A Lonnie é até membro de uma banda de Riot Grrrl fictícia, cujas músicas também podem ser encontradas em fitas espalhadas pela casa.

Você eventualmente descobre porque seus pais não estão em casa, e é um motivo bem bobo (ou parece ser se você escolher ignorar as histórias conspiratórias deles e se focar só na Sam). Mas quando você descobre porque a Sam não está, é de se ir aos prantos.

Tudo é de se ir aos prantos na verdade. Eu chorei do começo ao fim. Ri. Me senti tensa. Me senti aliviada. E chorei. Chorei muito. Mas eu sou chorona.

Gone Home é um jogo de exploração onde você nunca se encontra entediade. Tudo muda o tempo todo. O cenário. As histórias. Não é nada tão revolucionário quanto Stanley’s Parable, mas é um jogo com uma narrativa tão pessoal e sincera que me tocou de uma maneira a qual Stanley’s Parable jamais conseguiria.

Eu poderia ter terminado Gone Home em uma noite. Ele não é muito longo. Mas eu precisei de um tempo pra recuperar o meu fôlego e pra desembaçar os meus óculos antes de continuar com a choradeira. Terminei o jogo no dia seguinte. Chorei por mais 2 dias. Tipo como quando terminei de ler Azul É A Cor Mais Quente.

Esses são todos os motivos pelos quais Gone Home é meu jogo favorito. Protagonista feminina, constantes mudanças de clima e narrativa, exploração significativa, e uma história que mecheu muito comigo e me fez sentir que eu realmente tinha uma irmãzinha lésbica, e me fez sentir orgulho dessa irmãzinha.

BlueCover_zps992a99ecAlém disso, Azul É A Cor Mais Quente e Gone Home vieram para mim enquanto eu estava tentando entender minha sexualidade como mulher trans assumida. Mesmo tendo mulheres cisgêneras como suas protagonistas, foram duas obras que pessoalmente me ajudaram a realizar que… Eu sou lésbica. Sempre fui lésbica. E gosto de ser lésbica.

Mas não pára por aqui! Esse jogo não saiu apenas de um estúdio indie qualquer. Saiu de 4 cabeças que vieram do mercado AAA para criar jogos que realmente significam alguma coisa. 2 das quais obviamente são mulheres: Karla Simonja e Kate Craig.

A revolução não para mesmo. :,)

Gone Home está disponível para Windows, Mac e Linux, e pode ser comprado na GoG por 20 dólares ou na Steam por 37 reais.

Não sei se essa música aparece no jogo, mas eu curto :v

Um comentário sobre “Porquê Gone Home é meu jogo favorito

  1. Paula disse:

    Gone Home é realmente um jogo maravilhoso e de certa forma, obrigada por me fazer jogá-lo, Felicia. Eu o havia comprado na última sale e nunca tinha me arriscado a jogar, mas quando vi essa atualização resolvi jogar logo. “Se alguém me dissesse que essa é uma história real que aconteceu com pessoas reais eu acreditaria.”, assim que terminei minha irmã mais nova chegou em casa, temos um diferença de três anos de idade, mas em muitos níveis eu sou a Sam e ela Kait e é claro que rolou toda identificação com a história, por que é uma história tão perto da realidade que é quase impossível impossível não se enxergar ali.
    Gone Home é uns dos jogos que mais mexeram comigo, por que ele tem uma beleza que é crua e não tem como não se deixar envolver.
    E realmente a trilha sonora é muito boa.

    Curtir

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