Apropriação Transgênera

Falar sobre personagens transgêneras em videogames é algo extremamente complicado porque elas não existem.

A maior parte de vocês sabe que isso é provavelmente a coisa que eu mais faço nesse blog: Falar de personagens trans em jogos de videogame. Mas tirando o Krem, a Erica e a Sya, nenhuma dessas personagens é canonicamente transgênera. Na verdade eu tenho uma lista enorme de personagens das quais falar na coluna Trans In Games, mas sabem quantas dessas personagens são canonicamente trans?

Quatro…

Então porque eu falei de tantas outras personagens falando que elas são trans, sendo que elas não são canonicamente trans?

É algo que eu tenho pensado muito comigo mesma e com algumas amigas trans minhas. E acho que isso seria algo chamado de “Apropriação Transgênera”. E isso é uma coisa boa e necessária pra gente conseguir criar o nosso próprio espaço na comunidade gamer.

E se você for um homem cis vindo aqui dizendo que a gente não pode se apropriar das personagens, nem se dê ao trabalho de ler o resto. Vai fazer algo útil tipo alimentar seus bichinhos de estimação. Eles precisam de ti. A gente não.

Lembram da Samus? Pois então. Ela não é trans. Não canonicamente. O canon de Metroid não diz que a Samus é trans. Essa é a crítica que eu vejo a maior parte da comunidade trans tem contra a minha posição no post que eu fiz sobre ela.

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Arte por 2dtransgirlcaptions e schmorgyborgy

O que tornou a samus “trans” foi um comentário extremamente transfóbico de um homem japonês velho que acha que ser travesti é engraçado… Então… A Samus é cis?

Porque ela seria?

Ao contrário dos argumentos da Brianna Wu – que foi quem começou essa discussão da Samus ser trans ou não – O que torna a Samus trans é a importância dela pra comunidade transgênera, em combinação com sugestões dadas pela obra e peles autores da obra que abrem o fato dela ser trans como uma possível interpretação da obra.

A opinião do autor em relação à obra não importa em frente à opinião da fandom. Quem faz a arte é quem aprecia ela, não quem monta ela.

Quando se trata de representatividade LGBT, no mundo dos videogames pelo menos, nós temos que nos lembrar que ela praticamente não existe de forma proposital da parte des autores desses jogos. O mercado de jogos, roteiristas, designers, produtores, não ligam pra pessoas LGBT. A heterocisnormatividade no mundo AAA é tão compulsória que até quando era pra personagens serem LGBT, elas deixam de ser.

No mundo real não é diferente. Pessoas trans em particular são invisibilizadas o tempo todo. Nós somos tratades como anormais. Monstros. E a grande maioria das pessoas próximas de nós penam para acreditar que nós realmente somos transgêneres!

Na nossa cultura fodida, ser trans é uma coisa anormal que exige provas. Você precisa de um laudo médico que “prova” que você é trans pra você poder ter seu nome mudado. Muites de nós precisam “provar” pres sues pais que são trans todos os dias pra ter o mínimo de respeito em casa. Nós temos que “provar” nossa transgeneridade até pra outra pessoas trans pra sermos aceitas nos seus meios.

Na nossa cultura, ser trans é algo extraordinário, quando na realidade… Não é. Existem milhares de pessoas trans no mundo. Ser trans é algo COMUM. E se assumir trans também tem se tornado algo comum com a maior divulgação dos assuntos de transgeneridade. E personagens fictícias também são assim. “Cis até que se prove o contrário”.

Se a gente quiser um mundo melhor e mais acolhedor com pessoas trans, nós temos que PARAR de pensar que ser cis é o “padrão”. E que todas as pessoas do mundo são cis até que se prove o contrário. O mesmo acontece com personagens de videogame.

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Esqueça o canon. Adquira representatividade.

Voltando a falar da Samus, não existem significadores cisgêneros na sua história que comprovem o fato de que ela é cis. Também não existem significadores o suficiente que comprovem o fato de que ela é trans, mas há dicas, mesmo que as dicas não sejam propositais, mesmo que uma das dicas seja um comentário transfóbico de um homem japonês velho.

Eu enquanto mulher trans fã de Metroid (eu nunca joguei Metroid, mas isso é uma situação hipotética) dizendo que considero a Samus uma mulher trans, eu fortaleço minha própria identidade e a identidade de outras mulheres transgêneras que curtem Metroid.

E fazendo isso, a gente NÃO TÁ ROUBANDO O SORVETE DE NINGUÉM. Mulheres trans ainda são mulheres, e mulheres cis podem se empoderar com a força da Samus tanto quanto uma mulher trans. Mulheres cisgêneras não precisam se afirmar no fato dela ser uma mulher com uma vagina pois as suas feminilidades jamais serão questionadas por causa da sua genitália ou outras questões relacionadas a gênero e sexo que desconfortam tantas garotas trans. E como a história da Samus não fala sobre menstruação nem pênis, afirmar que a Samus é uma mulher trans cuja narrativa não precisa envolver seus genitais pode deixar todomundo feliz. Ela é uma mulher forte E ela é uma mulher trans forte. Uma coisa não exclue a outra.

Quando eu afirmo que a Samus é uma mulher trans poderosa, eu estou empoderando um grupo muito maior de pessoas do que eu estava empoderando quando dizia que a Samus era simplesmente uma mulher poderosa ou uma mulher cis poderosa.

E sinceramente, eu acho que a Samus é o exemplo mais light de apropriação transgênera que eu conheço.

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Arte por Draikinator

Muita gente usa Eevee (aquele pokémon) como uma bandeira transgênera não-binária como uma forma de mostrar que a gente pode se tornar o que a gente quiser.

A Docinho de Meninas Super Poderosas não é de videogame, mas é um exemplo válido, vendo que ela tem se tornado um símbolo de transmasculinidades.

A galera já se apropriava da Poison de Final Fight antes de confirmarem que ela era canonicamente trans.

Até a Rosalina de Mario Galaxy entrou na jogada.

E desde que a Nintendo anunciou que queriam fazer um jogo de Zelda com uma Link menina, isso já foi o suficiente pra galera pirar no fato de que o Link é uma garota trans (há uma narrativa social que pode justificar o fato do Link ser mesmo uma garota trans, ou que pelo menos justifique e embeleze a apropriação, e talvez eu fale disso em outra matéria).

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Arte por Judithian

E agora a gente tem a Linkle que imediatamente virou um símbolo de luta trans no Tumblr e no Deviantart – e o jogo em que ela aparece nem saiu no ocidente ainda!!!!!!!

Teve até uma Game Jam sobre uma Link menina.

Representatividade em todas as formas de mídia é algo muito importante pra minorias marginalizadas como as pessoas trans. E se a indústria de jogos não quer representar a gente nos seus canons, a gente vai pegar esses canons, e enriquecê-los nas fandoms. E essa fandom vai gritar e vai gritar FORTE pra que outras pessoas trans ouçam e sintam essa representatividade.

PS: Que post mais nintendista. Eu hein.

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Samus e Poison se pegando, e pequena Link invejando. Arte por Tessa Black (18+)

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