Diário Aelatório no Dia do Orgulho

#NoFilter é uma campanha da organização do Orgulho LGBT em Londres sobre ser você mesme, sem filtros. E eu achei que tinha tudo a ver com o post de hoje.

Por enquanto esse texto não tem título (vai ter quando ele for publicado, mas sei lá qual vai ser, eu to improvisando aqui). E… Nossa. Eu to feliz nessa noite de aniversário de Stonewall porque eu sinto que uma parede de pedra acabou de ser derrubada (ha! Tendeu?). E eu me sinto mais lésbica agora do que eu me senti durante a maior parte da minha transição.

É. Acho que o post vai ser sobre isso. Minha identidade lésbica. Sabe porque? Porque eu sou trans, mas eu também sou sapata! E vai tomar no cu, que sapata gostosa eu sou!

Quando eu era criança, tinha uma novela ou seriado da Globo que envolvia um homem casado que se vestia de mulher. Eu perguntei pros meus pais como se chama um homem que gosta de mulher e se veste de mulher? Eu não lembro o que eles responderam mas eu fiquei fascinada com a ideia. E as personagens que eu mais queria ser nessa vida eram a Sailor Urano e as Sailor Starlights de Sailor Moon, mas mesmo assim…

Eu achava que era um menino cis gay na minha pre-adolescência. Claro que eu sempre tinha uma quedinha pelas meninas inteligentes da minha sala, mas eu não queria admitir que gostava de meninas.

Eu gostava de coisas de garota: Vestidos, maquiagem, yaoi (assisti muitos). Isso obviamente significa que eu deveria ser gay, né? Além do que eu não podia não ser gay. A única outra opção era ser hétero, e não havia nada que eu desprezasse mais nessa terra do que homens heterossexuais.

Eu tinha medo de gostar de garotas porque eu tinha medo de me transformar no meu pai: Um abusador emocional que usa mulheres como objetos tão importantes para a sua vida quanto o álcool no qual ele se afogava todos os dias da sua vida.

Eu sonhava com o príncipe encantado que um dia me salvaria das garras do malvado papai e da malvada heterossexualidade. Eu até me forcei a fazer sexo com alguns garotos e… Foi horrível. (Homens cis: Parem de ter genitais com gosto de xixi e obrigar as pessoas a transar sem camisinha.)

Mas eu continua acreditando veemente na minha homossexualidade até que eu me apaixonei por uma garota. Foi o relacionamento mais bosta da face da terra – a mina era basicamente Hitler com peitos (sim, fascista). Mas eu senti que alguma coisa finalmente estava certa na minha vida. Eu gostava do sexo, do corpo dela, eu amava amá-la. Havia carinho e cumplicidade que eu jamais poderia ter com um homem, mas eu ainda achava que eu era gay! E ela era tipo “a exceção”. Eu acreditava que Deus havia me mandado o meu príncipe encantado na forma de uma menina por pura ironia. Mas conforme os anos foram passando e eu fui me encontrando em outros relacionamentos, eu me toquei que eu simplesmente não curto homem. Meus relacionamentos com mulheres sempre foram mais vivos, mais coloridos, mais intensos e mais íntimos. Até as amizades, pelo amor da Deusa!

Mas havia um problema…

Essas mulheres eram quase sempre hétero… E eu nunca fui homem…

Me relacionar com elas era melhor do que me relacionar com homens, mas nunca foi satisfatório. Elas diziam que ficavam comigo por eu ser um docinho, diferente dos outros caras, querida e atenciosa, mas na hora do vamovê…

Eu tinha que ser viril. Eu tinha que ser forte. Meu prazer vinha única e exclusivamente de ver elas tendo prazer porque eu não conseguia gostar desse papel. E minhas parceiras não gostavam quando eu tentava desviar dele.

Uma namorada minha já se recusou a me beijar até que eu conseguisse uma ereção. E outra falou na minha cara que sentia nojo dos meus desejos de me vestir como uma mulher e que eu jamais deveria me estragar desse jeito (porta que partiu, gente cis é nojenta).

Nesse ponto eu já tinha uma noção melhor de como gênero e sexualidade funcionavam, mas eu não tinha ideia de como funcionava comigo. Anos depois eu descobri a palavra Trans. Aí a Felicia criou um facebook novo em que ela se chamava Felicia e por mais que eu estivesse começando a entender meu gênero, algo faltava. Por mais que gênero e sexualidade sejam coisas diferentes, elas são interdependentes.

E eu passei um período curto, mas desconsertante, de dissonância gênero-sexual (olha só que chique. To inventando termos técnicos que nem existem de verdade). Eu não sabia como meu desejo por meninas se encaixava no meu desejo por ser uma menina.

Os vestidos eram lindos e as maquiagens empoderadoras, mas… Não era eu. Diferente de tantas outras garotas trans por aí eu não podia basear minha transgeneridade em coisas como RuPaul’s Drag Race ou qualquer outra porcaria criada para o público GGGG. Eu não sou a linda garota heterossexual de unhas compridas e cabelo brilhante que anda na passarela mandando beijinho no ombro… Eu sou a garota que fica o dia todo jogando videogame, comendo batatinha frita e conversando sobre RPG na internet. E eu conhecia várias garotas cisgêneras assim. Uma das quais, graças à Deusa, me ajudou com minha transição.

E eventualmente… Nós ficamos. Eu não tinha começado a tomar meus hormônios, só me vestia como menina e me apresentava como menina, mas eu estava longe de estar tão passável por menina cis quanto hoje. Mas ela me via como uma mulher mesmo assim. E nós fizemos sexo como duas mulheres. Pela primeira vez na porra da minha vida eu me senti uma mulher de verdade.

E aí, sai da frente. Esse relacionamento não durou, mas aí eu sabia quem eu era: Uma lésbica.

Depois disso veio na minha vida Azul É A Cor Mais Quente (o gibi, não o filme. Odeio aquele filme). Gone Home. Dragon Age. Mass Effect! E a lista continua e continua e continua. E vieram outras garotas e um outro amor. Um amor tão grande que até agora me mareja os olhos; e um amor tão grande que me faz – me faz – gritar do meu orgulho de ser uma mulher trans lésbica.

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Eeeeessa sou eu a um mês e meio atrás.

O que mais poderia faltar? Como eu disse, gênero e sexualidade podem ser coisas separadas, mas são coisas interdependentes. A forma como você apresenta o seu gênero influencia a forma como as pessoas vêem você e assumem que tipo de pessoa você é.

Eu me identifico como uma Mulher Transfeminina Tomboy. Tomboy é uma variante do gênero feminino exclusiva da comunidade Lésbica internacional. E a forma como eu interpreto meu gênero enquanto Tomboy é que eu sou uma mulher que tem atitudes e visuais andróginos que se assemelham ao que a sociedade espera como “meninos jovens”. E quase todas as minhas amigas mulheres durante meus 21 anos de vida, de alguma forma se aproximavam dessa variante de gênero, mesmo que elas não fossem lésbicas.

O Tomboy, esse novo papel de gênero criado sem querer pelas lésbicas ao redor do globo, era meu objetivo. Meu norte. Aquilo que eu gostaria de ser e aquilo que eu me sinto confortável tendo por perto. Algo que te faz olhar pra garota e pensar “essa aí beija mulheres”.

Mas eu nunca fui fundo nesse objetivo por medo de que me confundiriam com um garoto. Eu não quero ser vista como um homem de novo. Mulher trans nenhuma quer.

Mas então, depois da minha psicóloga me motivar a ser mais eu, e depois de mais de 2 anos transicionando, isso aqui finalmente aconteceu:

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PATO QUE PARIU, OLHA QUE FADINHA PRECIOSA EU TO!

VTNC QUE GOSTOSA!

(E eu to solteira tá, gente.)

Eu acabei de voltar do salão e eu to tão eufórica com esse cabelo!

Tá, okay, eu pareço um menino de 12 anos, mas também pareço uma lésbica de 17. Um desses 2 está mais certo do que o outro (E eu tenho 21 sim, tá. so di maior). -qqq

Eu não acredito que estou postando fotos minhas no blog, mas…. Fuck!

Hoje é aniversário das revoltas de Stonewall, não é? É o dia do ORGULHO LGBT, então me deixem ter orgulho de ser L e T.

E agora eu eu já terminei a linha de pensamento sobre minha expressão de gênero e imensa felicidade com meu novo visual – que continuará evoluindo pra ficar ainda menos hetero-normativo – , eu gostaria de levar o pensamento pra outra parte sobre ser L e T.

Mulheres cis? Elas sinceramente são assustadoras. Eu às amo, mas viver constantemente com medo de me deparar com uma TERF ou simplesmente uma moça que tenha nojo da mina genitalia é frustrante. Eu me privo de ter boas experiências com elas por medo delas rejeitarem o meu pênis da mesma forma que eu rejeito ele.  Eu falei mais sobre isso aqui. Mas há um lado positivo nisso tudo.

2Eu não sou a única garota trans e gosta de garotas. E gente como eu, geralmente se atrai, parece.

Quase todos os membros do gênero feminino no grupo Jogue Trans (o qual você não pode entrar) são lésbicas ou bis ou pansexuais. E meus três últimos rolos foram todos com garotas trans pansexuais e homossexuais.

E quando você toca os lábios com alguém que você sabe que pode confiar por ter o mesmo corpo que você e o mesmo desejo que você, a situação é indescritível. Não há medo ou rejeição. Não há desgosto. Há o abraço desavergonhado, e o calor da pele que toca. Há dedos correndo a espinha e saliva besuntando a própria alma.

O sexo em si é… Estranho, afinal nenhuma de vocês duas foi ensinada a usar o seu corpo direito. Mas isso faz parte da magia né? Descobrir. Explorar. Machucar e sarar. Há confiança no sexo entre duas mulheres trans. Porque uma entende o medo da outra de forma que uma mulher cis apenas consegue imaginar.

Eu não sei em qual ponto eu quero chegar com esse texto. Que sexualidade tem a ver com expressão de gênero? Que ser lésbica é legal? Que ser trans e lésbica possível e a gente existe?

Mandando a real, eu não sou homossexual. Eu sou Polissexual. Eu to me sentindo atraída por várias mulheres, pessoas femininas e pessoas não binárias. E raramente tem um homem ou outro que eu curto (eles quase sempre são trans). Mas qual sapata nunca teve aquela atraçãozinha platônica de “por você eu virava hétero” sabendo claramente que você nunca vai ficar com o cara? Eu não sou a única cometedora desse pecado, amigas. u.u

Acho que no fundo no fundo eu só queria mostrar pra vocês o quão legal tá o meu cabelo novo e o quanto eu me sinto empoderada por ele. Olha só pra minha cara de sapatinha de cristal! Isso tudo não passa de uma desculpa pra eu me gabar da minha própria aparência e ter um pouco de orgulho de quem eu sou enquanto isso.

Porque todomundo merece se gabar. Todomundo merece ter orgulho. Eu amo vocês! Cada um de vocês trans, cis, gays, heteros, lésbicas, pans, bis e ases e tudo mais!

E só pra variar um pouco – só por essa noite… Eu também me amo.

Boa noite.