Conto – Como Qualquer Amiga

Esse continho eu escrevi mais ou menos na mesma época que eu descobri ser lésbica. Ele tem uma estrutura um pouco poemica (?). É sobre duas garotas descobrindo suas lesbianidades.

Como Qualquer Amiga

“Meu cabelo é meio seco.” Você diz, enquanto passo meus dedos pelos teus cabelos desbotados.
“É.” Respondo como qualquer amiga o faria. “É nisso que dá mudar de cor toda semana.” Digo, como qualquer amiga o faria.

Você suspira.

É um suspiro detalhado.

Em apenas um movimento, teus pulmões roubam e devolvem o ar do parque, fazendo um som baixo quando passa pelos seus lábios finos de sorriso tristonho.

“O que foi?” Indago, enquanto você coloca o braço diante do rosto, tentando impedir o sol de chegar nos seus olhos.

Você não responde.

“As parada da facul?” Pergunto, como qualquer amiga o faria.

Seus lábios tentam responder. Eu sei. Eu vi eles se moverem. Mas nenhuma palavra saiu deles. Mesmo assim, teus olhos dizem todas as palavras.

Você não colocou maquiagem hoje.

Tudo é visível.

Veias finas saltam da tua pele quase transparente. Seus olhos estão adornados por olheiras universitárias mal dormidas. As manchas no seu rosto variam de cor, e seus poros… Você odiaria se ver no espelho agora. Eu deveria te odiar também?

Me levanto, e estendo-lhe a mão.

“Ei, branquela, vamos sair do sol!” Sugiro, como qualquer amiga o faria.
“Olha só quem fala!” Você responde, com um riso baixo, enquanto segura a minha mão.

O momento que dura para sempre.

Aquele milésimo de segundo que dura para sempre.

Nós já ficamos tão perto assim uma da outra? É claro que sim. Somos amigas faz tempo, mas…

Tão perto.

Cada milímetro mais próxima de mim.

Deixe-me abraçar-te.

“Vamos pra onde?” Você pergunta.
“Pro café aqui perto.” Respondo, como qualquer amiga o faria.

Andamos de mãos dadas para o café. Nós já andamos assim antes? Não sei…

Parece a primeira vez.

“Você tá muito magra! Vamos engordar um pouco!” Brinco, como qualquer amiga o faria.
“Engordar é sempre uma boa ideia!” Você responde, com um sorriso genuíno no rosto.

Você é mesmo tão magra… Como pode? Muitas meninas querem ser magras, mas… Você não é apenas uma menina.

Peito raso… Escondido atrás de uma camisa xadrez… Quadris pouco acentuados… Escondidos atrás de um jeans apertado… Mãos delicadas… Com a fir…

Chegamos no café.

Quando foi que chegamos aqui?

Nos sentamos uma de frente para a outra. Pelos deuses. Teu rosto. Por que ele é tão lin…

“O que gostariam?” Pergunta o garçom.
“Cappuccino.” Você pede.
“Chocolate quente.” Peço, como… Eu sempre pediria.

Volto meus olhos para ti e…

Só a sua orelha esquerda está escondida pelo seu cabelo desbotado. Os piercings estão bem a vista do outro lado. Uma das suas tatuagens se esconde do meu olhar entrando na sua camisa. Suas cordas vocais se movem dentro de ti. E sua boca parece um… Um…

“EI!” Você chama minha atenção. “Achei que só eu tava avoada hoje. O que houve?”
“N-nada.” Me intimido com a pergunta e desvio-lhe o olhar. Que vergonha. Como pode? Eu? De todas as pessoas?
“Tenho uma coisa pra te contar.” Você diz, aproximando seu rosto do meu, e cochichando. “Mas não quero que nenhum desses trouxas ouça.”
“Pode falar”. Respondo, como qualquer amiga o faria. E aproximo meu rosto do teu, para ouvir teu segredo.

Ouvir teu segredo e nada mais.

Nada mais.

Nada em relação ao teu nariz italiano, nem à sua boca francesa. Nada nos seus olhos de cristal, nem na sua pele de papel.

Nada além do seu segredo…

Seu rosto se afasta do meu, ofegante, e meio assustada, com um sorriso tão grande que jamais vi igual.

“Acho que o que você tinha pra me dizer era muito mais importante do que o meu segredo.” Você diz.
“Ai, meus deuses! Me desculpe, eu… Eu…” foi o que eu não respondi.

Você ri… Você ri?

“Tudo bem, querida.” Você acaricia meu rosto.

Com o seu toque, meu coração bate tão rápido e tão forte quanto um grupo de Taikõ. Sua mão desce para o meu pescoço e o desejo me cresce como uma maldição.

“Tá tudo bem.” Você continua. “Agora todo mundo aqui já sabe.”