Sobre Passabilidade E Disforia

Arte por Tessa Black

Aí a Felicia aparece aqui pra vocês dizendo “passabilidade não existe e pessoas cis são bobonas”. E aí? Como é que fica esse abalo das estruturas da ideia de transgeneridade? Provavelmente não vai abalar porra nenhuma pra você porque eu não sou a primeira pessoa trans no Brasil apontando o quão ridícula é essa ideia de passabilidade.

Mas quanto mais vozes melhor né? E algo meio besta aconteceu comigo uns dias atrás pra provar que passabilidade cisgênera simplesmente não existe.ezgif-com-add-text_7

Então. Outro dia eu tinha me arrumado toda fofinha pra passear com uma amiga. Vestidinho preto, blusinha fofa, meia 3/4, botinha de lacinho. E com esse meu cabelinho curtinho eu to a sapatinha de cristal mais linda da face da terra. Mas aí ela acabou cancelando e eu fiquei fofinha em casa mesmo. E cara, como eu tava fofinha.

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Aí eu sai pra dar uma fumadinha em uns tabacos que provavelmente estão destruindo meus pulmões (mas ajudam com a auto-estima e auto-controle) e eu me sentei num banquinho aqui no condomínio, onde pegava sol pra eu ficar quentinha nesse inverno curitibano.

Aí uma senhorinha sentou do meu lado e começou a conversar sobre a vida, como senhorinhas normalmente fazem. Conversa vai, conversa vem, ela diz que eu  sou uma garota muito bonita. Eu agradeço o elogio, meio sem graça, mas eu tava bonitinha mesmo. Kawaii as fuck.

Aí ela me perguntou se eu tinha namorado. E eu toda orgulhosa, pensando em bandeiras arco-íris e triângulos pretos apontando pra baixo e em labrys sendo empunhadas pelas deusas da lesbianidade respondi com o clamar da virgem Diana:

“Eu tenho namorada!”

E as deusas da colação de velcro cantaram no meu coração, mas a senhorinha não parecia muito animada.

“Bem que eu desconfiei quando olhei pra você.” Ela respondeu. Eu dei uma risadinha contente. É bom saber que eu estou “passando” por mulher cis lésbica desse jeito. Aí veio a bomba.

“Então você é um menino bonito.” Ela complementou.

“Com licença?”

“Você namora uma menina, isso significa que você é um menino né?”

Aí eu fiquei alguns segundos em silêncio tentando entender o que tava acontecendo. Ela estava errando meu gênero, não pela forma como eu me apresento, mas pelo tipo de relacionamento amoroso que eu tenho.

“Não, senhora. Eu sou lésbica. Uma garota que gosta de garotas.”

“Ah, mas uma de vocês é o menino né?”

“Uh… Isso não existe, senhora. Nós somos duas garotas e pronto.”

Reflitamos. Eu to com cabelinho curto, de vestidinho, e a senhora me achou uma garota linda; mas de repente eu me tornei um garoto por gostar de garotas. Não pelo meu pomo de adão. Não pela minha sombra de barba. Não pela minha voz, nem pelo meu cabelo; Mas pelo fato de que eu to ficando com uma guria. Gênero pras pessoas realmente tem relação com as pessoas que você transa?

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Foi mal o spoiler, não resisti.

Acaba que não. Mais recentemente eu tava de saia e camisa de flanela no ônibus e uns caras me chamaram de “bróder”. Eu fiquei puta porque eles provavelmente estavam olhando significadores de gênero como a minha sombra de barba e o meu pomo de adão, ou talvez só o meu cabelo. Um deles teve a audácia de me tocar como se eu fosse amiga deles.

São essas coisas que nos fazem acreditar que existe essa tal de “passabilidade cisgênera”. Mas a senhorinha da história anterior  estava me vendo como mulher, e aparentemente, eu não estava tão diferente nesses 2 dias. Ainda a mesma felicinha mais kawaii que você.

A alguns meses atrás, na minha primeira consulta com meu novo psiquiatra ele perguntou assustado “tem gente que te chama de homem?” enquanto no mesmo dia, a moça do Subway me perguntou “pão de que, moço?”. E eu também estava de vestidinho fofo, e eu nem tinha cortado o cabelo ainda na época.

Em São Paulo as pessoas me consideravam uma menina muito branca e muito magra pro meu próprio bem. Aqui em Curitiba eu tive que aturar homem bêbado vindo me provar que eu não era mulher (em inglês).

Saindo de São Paulo, um casal me ajudou com as malas. O moço me perguntou se eu atendia por “ele” ou “ela”, enquanto a moça respondia “ela né, idiota”.

Minha última ex namorada era trans, e sofria muito com gente chamando ela de “moço”. Foi chamada pra fazer um teste em uma agência de modelos feminina.

A ex anterior a essa era cis, e era constantemente “confundida” com um menino por ter cabelo curto e colorido e normalmente usar roupas mais largas e coturnos.

Isso sem nem comentar os relatos que eu vi na internet de pessoas cis sofrendo transfobia por que alguém resolveu perceber essas pessoas como travestis.

Ter o seu gênero desrespeitado não acontece só com gente trans, então o que caralhos se quer significa passabilidade cis? Isso não existe. Passabilidade é arbitrária.

Mas não impede a gente de se sentir feia. De não se sentir feminina o suficiente. Ou masculino o suficiente no caso dos homens trans.

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Arte por Samie Carvalho. E só pra deixar bem claro, eu não concordo com as posições dela sobre não-binaridade, mas a arte dela ainda é muito boa e vale a pena ser vista/lida.

Passabilidade é uma coisa COMPLETAMENTE arbitrária e sem significado que só depende dos olhos de quem vê. Eu poderia ser uma super modelo, sempre vai ter um cara pra me olhar e pensar “cilada”. Sempre vai ter uma guria conservadora e vai pensar “macho de saia”. Não importa meu número de cirurgias, anos de reposição hormonal, estilo de roupas, o cabelo. Nada, absolutamente NADA vai garantir que você seja o tempo todo identificade com o gênero com o qual você se identifica, e isso vale pra gente cis também.

Passabilidade é um julgamento que cada pessoa faz ao botar os olhos em outra pessoa. Na maioria das vezes esse julgamento é passivo, – e se juntem a mim nessa situação hipotética – como quando tem uma gatinha na festa LGBT que suas amigas te convidaram, mas você tem medo de falar com ela porque ela parece cis e vai ter nojo da sua transgeneridade. Essa pessoa, pra você, tem passabilidade cisfeminina, quer ela seja uma mulher cis ou não.

Mas aí aparece um homem e beija essa pessoa chamando ela de “Jonas”. Você nota que essa pessoa talvez seja um homem e todas as suas noções de passabilidade sobre ela são jogadas pela janela.

Algo parecido aconteceu com a senhorinha do condomínio. Em um momento ela me julgou como uma pessoa cisfeminina, mas aí, com mais informação, eu acabei me tornando uma pessoa transmasculina aos olhos dela, baseando-se na idea dela de que sexualidade forma gênero.

E aí entra a disforia.

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Se passabilidade é um julgamento arbitrário baseado nas noções de gênero da pessoa que está julgando, disforia é quando a gente SE julga menos do nosso próprio gênero. É quando nós não temos a passabilidade cis pelos nossos próprios olhos. É a baixa auto-estima e falta de amor próprio que as noções de gênero da maioria das pessoas acabam nos impondo.

E essa é a única passabilidade que importa. Ou deveria importar.

Gente cis ouve a vida inteira que o seu gênero é o gênero certo, mas gente trans, teve que lutar contra isso pra ser quem é. Ouvir de qualquer pessoa que você não é o gênero pelo qual você lutou pra ser reconhecida dói. E muito. Toda sua vida e toda sua experiência pode ser invalidada em uma palavra, e às vezes tudo que nos resta é sentar e chorar.

Ou levantar e sair.

Ou levantar e brigar.

Porque quando você “passa” pra você mesma, as palavras de mais ninguém importam. Mas passar pra si mesma pode ser um trabalho difícil também por causa das nossas próprias noções de como gêneros funcionam.

Eu sempre tive cabelo compridão, mas eu nunca me senti tão feminina como quando eu deixei ele assim, porque é assim que eu percebo minha feminilidade – Sapatinha de cristal número 39-40.

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Mas pra muitas garotas não é simples assim… Hell, pra mim não foi simples assim.

A gente precisa aprender a ser um gênero que não nos foi associado ao nascimento. Eu to tendo que aprender a ser mulher sem nenhuma mãe pra me ensinar o que isso significa. Eu tenho que me virar, conversando com pessoas na internet, experimentando roupa sozinha, chorando num canto sem ninguém ver o quanto eu odeio meu corpo.

Eu provavelmente nunca vou deixar de sentir disforia, mas quero passar por mim mesma. E o último passo provavelmente será uma vaginoplastia. Eu QUERO a minha vagina e eu sei que vou me sentir ainda mais mulher quando eu tiver ela. Mais passabilidade pra mim mesma. Menos disforia (ao ponto que ela talvez não exista mais).

Algumas garotas precisam trabalhar nas suas vozes pra se sentirem mais femininas, alguns garotos na postura, algumas garotas na linguagem corporal, alguns garotos na maquiagem. E as únicas pessoas que estes garotos e garotas estão procurando agradar, idealmente, deve ser elles mesmes. Por que quase ninguém nesse mundo tem 100% de passabilidade de gênero em relação as outras pessoas (exceto talvez homens ultra-masculinos, mas aí eu to saindo do tópico).

Uma vez eu vi uma guria cis reclamando no video de uma guria trans entitulado “como ter uma voz mais feminina”, e a cis insistindo que aquilo não era voz feminina, e sim voz “cisnormativa”.

Primeiro: era de cisperar.

Segundo: essa é a coisa mais contra-produtiva que eu já vi sair da boca de uma suposta trans-aliada. Meninas trans querem ter uma voz que elas mesmas percebam como femininas. Querer forçar as meninas a mudar as noções de gênero delas pra que elas não “se subjulguem aos padrões cis criados pelo patriarcado” é a MESMA coisa que dizer que “você deve ser você mesmo, e você mesmo tem pinto e barba então n corte o pinto nem faça barba”.

Não, gente. Não é assim que funciona. Se a gente quer a tal da “passabilidade cis” o que a gente ta querendo dizer de verdade é que a gente só quer se sentir bem conosco mesmas. E eu acho que essa noção de “auto-passsabilidade” em que a pessoa procura ter os significadores de gênero que ela entende como sendo do gênero dela, é bem mais produtivo do que a ideia de passabilidade através dos olhos dos outros.

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Eu soo gay?

Cada pessoa tem as suas próprias noções de gênero. Seus próprios preconceitos e ideais. Pra uma terf eu provavelmente sempre vou ser um macho de saia, mas… Foda-se, meu. Se eu quisesse agradar terf eu ia ser gayzinho capacho delas.

Mas eu sou eu. A única pessoa que eu preciso agradar sou eu. E a única pessoa que pode me definir de verdade, sou eu. As pessoas sempre vão ter noções erradas sobre mim, e eu sempre vou ter noções erradas sobre as pessoas, mas é pra isso que a gente tem boca: pra falar quem a gente é (ou mãos, né).

E se a gente ta feliz com a gente mesme, de que o resto importa né?