Eu Sou Uma Mulher Trans. Estou No Armário. Não Vou Sair Dele.

Antes de vocês passarem pro texto da Jennifer, eu, a editora, Felicia Guerreiro, gostaria de fazer umas observações.

Esse texto não é a coisa mais polêmica do mundo na internet anglófona (que fala inglês), mas várias ideias apresentadas aqui provavelmente vão demolir algumas ideias de transgeneridade populares na comunidade LGBT e feminista brasileira. A autora do texto também desafia a forma como o feminismo é feito e propagado nos dias de hoje enquanto conta uma história muito íntima sobre a sua transgeneridade. E eu AMO essa autora por isso.

Não tomo as palavras dela como as minhas, mas defendê-las-ei com tudo que tenho.

E esse texto também tem uma linguagem um pouco acadêmica e difícil de entender. Eu geralmente não gosto de publicar esse tipo de texto, mas abri uma exceção pela mensagem aqui ser poderosa demais pra deixar passar.

TEXTO ORIGINAL

Eu Sou Uma Mulher Trans. Estou No Armário. Não Vou Sair Dele.

Texto por Jennifer Coates; Traduzido por Felicia Guerreiro

NOTA: Wow, eu escrevi esse texto anonima e privadamente e não esperava que qualquer outra pessoa lesse ele. Foi um jeito de eu deixar fazer frustrações sem correr riscos. Eu não tweetei isso; eu não postei nem compartilhei isso. Alguém encontrou e espalhou e tá tudo bem, mas saiba que o que você está lendo é essencialmente escritas de um diário.

Se você é trans e está no armário, ou suspeita ser, NÃO trate minhas decisões como conselho – elas são baseadas nas minhas circunstâncias. Procure e converse com outras mulheres trans e absorva as experiências delas também. Transicionar ajuda várias, várias pessoas, e viver se escondendo pode ser muito mais nocivo. Que esta seja apenas uma das muitas narrativas que você absorva.

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Mas eu vou falar por trás da porta!

Ressentimentos sobre o tema de “a única mulher trans de verdade é a mulher trans assumida.”

Aqui estão alguns pedaços da história. Não é tudo, mas é mais privadidade do que eu jamais quis sacrificar.

Eu tenho seis anos de idade.

Eu acordo de um sonho no qual sou uma garota, coração acelerado, sentindo náuseas no estômago. Eu não estou enjoada de nojo; eu estou enjoada de vergonha. Não é a primeira vez que tive este sonho, por mais que seja uma das minhas primeiras memórias. O que eu sinto (por mais que eu não tivesse acesso à essa metáfora até anos depois) é que eu acidentalmente projetei, através de um cabo HDMI mal colocado, todo o meu histórico de navegação de internet na frente de uma sala de aula. Eu sinto que de alguma forma, eu fui pega – como se o mundo todo tivesse assistido meu sonho noite passada. Mas eu quero sonhá-lo de novo. Eu tenho seis anos de idade e acredito em Deus, então rezo para que eu possa sonhar com isso de novo, o que – é claro – acontece.

Correlação, conheça causação. Sem brincadeiras vocês dois.

Eu tenho sete anos de idade.

Na escola nós lemos um capítulo de um livro sobre um garoto que vira uma garota. Meu coração palpita até eu poder sentí-lo nos meus dentes e eu sinto que todos estão olhando pra mim. É claro que eles não estavam. De volta em casa, eu encaro a capa do livro, que mostra um menino olhando para um espelho, apenas para enxergar uma menina o encarando de volta, e eu choro.

Eu ouço de um terrível grilo cantante que se você fizer um desenho para uma estrela, ele se tornará realidade. Quase toda noite eu saio da cama e olho para fora da janela, desejando para todas as estrelas que posso ver, só pra ter certeza. Sempre com uma imaginação mágica, eu digo para mim mesma que se eu desejar alto mil vezes, eu acordarei com cabelos compridos e em pijamas fofinhos com um nome diferente – e talvez sardas. Mil, para mim, é um número tão poderosamente grande que os comitês cósmicos – que ficam procurando a noite por desejos sussurrados desesperados – não poderiam jamais me deixar passar. Eu queria ser uma garota, eu digo para mim mesma de novo e de novo (demonstrando um domínio impressionante do subjuntivo do passado) [Nota da Editora: O comentário não funciona muito bem em português né, galera?]. Logo eu começo a cantar no ritmo de “The Farmer in the Dell.” Eu rio disso, alto, e parece que existem duas de mim sentadas acordadas sobre a cama – eu presa em pijamas de baseball, e eu no vestido de festa azul bígaro que eu amava tanto na Wendy Darling.

Eu sei que o filme do grilo cantante não é o filme da Wendy Darling. Não seja pedante; eu tenho sete anos.

Eu tenho oito anos de idade.

Minhas pessoas favoritas são (e permanecerão pelo resto da minha vida) garotas – Minhas professoras, as amigas da minha mãe, minhas colegas de classe. Eu não gosto de brincar com garotos. Garotos geralmente são burros e tem craca no nariz. Um sombrio dedo anelar realiza um exame de gênero nas minhas narinas. Quando eu jogo jogos de computador sozinha, eu escolho uma personagem feminina. Quando me sinto segura, coloco um nome feminino. “Kimberly” era um deles, porque Kimberly é a power ranger rosa.

Quando eu peço para dormir nas casas das minhas amigas, eu ouço que não sou bem-vinda. Garotos não são bem-vindos. A mãe da minha amiga Catie discute isso com a minha mãe no telefone. Eu noto que minha mãe não está do meu lado.

Mais tarde, minha mãe me conta que a mãe da Caitie é divorciada, tem uma tatuagem e dorme num colchão d’água, a relevância do que não me parece clara. Eu acho a mãe da Catie legal.

Eu tenho nove anos de idade.

Eu amo tudo que minha irmã ama, mas não admito. Eu sei que ela e as amigas dela vão tirar comigo. Eu sei que meus pais me reprenderiam e me corrigiriam.  Eu estou aprendendo as regras e aprendendo que meninos gostando de coisas de menina é uma situação de alto risco. Eu estou aprendendo que adultos reagem da mesma forma nos meus interesses em maquiagem como eles reagem ao meu interesse em fósforos e isqueiros.

Como se, por ser quem eu sou, eu posso acabar queimando alguma coisa muito importante pra eles. Alguma coisa que torna a vida deles mais fácil e confortável.

Eu tenho inveja das roupas da minha irmã. Um dia, sozinha em casa depois da aula, eu entro no quarto dela roubo a sua fantasia de Tinkerbell do Halloween. Eu passo as alças de elástico sobre os meus ombros e então as meias-calças sobre as minhas pernas. Elas servem. Meu coração parece com o punho de alguém prezo debaixo de um lago congelado, batendo na superfície por baixo. Como pode pode ser tão maravilhoso e sofrido ao mesmo tempo? Eu não sinto que um peso foi tirado das minhas costas – Eu sinto que eu me livrei de um peso e peguei outro. Eu corro para o meu quarto e escondo a fantasia debaixo do colchão. Mais tarde eu devolvo ele para o quarto da minha irmã.

Essa não é a última vez que eu faço isso. Não há uma última vez.

Eu tenho dez anos de idade.

Eu assisto televisão todo dia depois da escola. Eu sou atraída por programas de ficção científica e ficção sobrenatural. Nesses programas existem vilões que conseguem habitar outros corpos ou mudar de forma. Existem máquinas capazes de trocar os cérebros das pessoas. Mesmo nos programas mais realistas tem situações saídas de Sexta-Feira Muito Louca onde Irmão e Irmã batem a cabeça e passam o dia aprendendo o quanto é difícil a vida do outro. Eu não entendo por que o Irmão não cai nos próprios joelhos e agradece ao deus das batidas de cabeça.

Spoiler: As suas vidas, no final das contas, são igualmente difíceis por motivos diferentes! O que é um conforto e um alívio para escritores que quase tiveram que considerar uma existência não-igualitária mediada por caos, patriarcado, e contradição em vez de magia, consistência e soluções narrativas.

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“A GRAMA É SEMPRE MAIS VERDE,” grita o roteirista enquanto ele se joga na cama, alcançando seu livro de ideias.

Eu tenho sete anos de idade.

Estou num quarto de hotel assistindo Maury Povich [NdE: Um apresentador de talk show dos EUA]. Uma fila de mulheres lindas precede para o palco, e nós somos instruídos a adivinhar quais delas eram “reais” e quais eram “transsexuais.” Eu não conheço essas palavras. Eu nem entendo que que “gay” é, apesar de eu fingir que eu entendo. Eu suspeito que “transsexual” tem a ver com “gay”, mas isso não me incomoda. Em vez disso, enquanto a máquina de café do hotél borbulha um líquido quente, eu sinto esperança crescendo em mim. Quanto será que custa sentar numa cadeira e apertar o botão? Será que dói? Eu não ligo. Qualquer quantidade de dor valeria a pena.

Eu tenho doze anos de idade.

Eu estou assistindo um VHS na aula de saúde, que foi colocada por um professor substituto que só pegou a fita de uma pilha. É um documentário de interesses humanos dos anos 90, gravado para a televisão. É sobre pessoas que eles chamam de transsexuais, e ele expões a narrativa binária e fácil de digerir nascido-no-corpo-errado que continuará popular por mais uma década. As pessoas no documentários não são as lindas, sorridentes, mulheres havaianas que apareceram no Maury Povich. Elas são velhas. Cansadas. Centristas [NdE: A autora está se referindo à pessoas nativas da região centro-oeste dos Estados Unidos]. O documentário explica sobre vaginoplastia. O reporter usa frases como “o cirurgião tenta” e “dilatador” e “reaproveitar.” Como “hormônios” e “osteoporose.” Eu tenho medo de agulhas; eu tenho medo de pílulas; eu tenho medo de bisturis; eu tenho medo de hospitais. O reporter fala sobre “um logo caminho para a recuperação.” eu noto que não há cadeira nem botão. Eu noto também que eu não entendo dor completamente. As mulheres centristas cansadas em maridos, cresceram seus cabelos e usam vestidos. Elas parecem felizes.

Pelo resto da minha vida, dois dias foi o máximo que eu consegui ficar sem pensar nisso. Eu lia histórias sobre garotas poderosas e garotas aventurosas na calada da noite para que eu não precisasse pensar sobre como o seu corpo se parece debaixo das cobertas.

Eu tenho treze anos de idade.

A internet chegou e eu aprendi, com um certo alívio, que, pelo menos por hora, há uma condição chamada Transtorno de Identidade de Gênero. Eu não sei que na próxima década haverão guerras sendo travadas sobre qual é a melhor forma de me chamar – nem que isso aconteceria nessa mesma internet onde eu simplesmente vou para imprimir fotos de garotas que meus pais convenientemente acham pelas quais eu sou atraída.

Eu crio um usuário falso (?) no AOL e digo para os meus amigos de escola que eu sou a minha própria namorada, Jennifer, que mora a algumas cidades daqui. Eu uso esse usuário falso mais do que o meu próprio. Jennifer faz tudo que eu faço e tudo que não me permitem fazer.

Eu desenvolvo um transtorno alimentar.

Eu tenho catorze anos de idade.

Eu começo a mostrar interesse em programação, o que pode ser o sinal mais óbvio até agora. [NdE: eu acho muito foda como nos EUA e no Canadá mulheres trans são meio que atraídas pro meio da tecnologia e aqui no Brasil a gente mal consegue sair do ensino médio.]

Quanto eu ajudo meu pai a fazer coisas, eme me chama de fore. Eu sinto que estou ganhando e perdendo alguma coisa ao mesmo tempo.

Eu tenho quinze anos de idade.

Eu me mudo para a costa leste, para um estado que tanto é quanto não é no Sul, e vou para uma escola só para garotos com uma bolsa de estudos. Eu odeio a ideia de passar todo o meu tempo com outros garotos. Garotos são imaturos. Garotos são hipersexuais. Garotos são violentos.

Eu tomava banho na calada da noite, quando os banheiros comunais estavam vazios. Mais de uma vez eu sou punida por isso. Meu pênis é puxado. Os dedos de um jogador de futebol passam pelas minhas nádegas apertadas enquanto ele pergunta se eu sou gay, e se é por isso que eu tenho medo de tomar banho com os outros. Este não é o meu povo.

Eu tenho dezesseis anos de idade.

Alguns deles são o meu povo. Eu conheço garotos que gostam de ler o que eu leio. Eu conheço garotos que também tem segredos horríveis. eu conheço garotos que concordam comigo que é horrível ser um garoto, por mais que eles não signifiquem isso da mesma forma que eu. Nós não temos orgulho de sermos garotos, mas nós nos divertimos uns com os outros. Nós jogamos pedras nos lagos e temos discussões de dezesseis anos de idade sobre viagens no tempo. Nós roubamos camisinhas da loja de conveniência. Nós apanhamos as vezes. Nós assistimos Clube da Luta e damos porradas uns nos outros usando camadas de meias nas nossas mãos como se fossem luvas de boze. E então nós acariciamos as barrigas uns dos outros – até dos jogadores de futebol. Nós nos esgueiramos para os quartos uns dos outros para contar histórias. Nós baixamos episódios de As Pistas de Blue no limewire e acabamos fazendo reuniões semanais pra assistí-los por sincera apreciação. Nós mentimos sobre as nossas experiências sexuais, mas nós ouvimos atentamente para as mentiras uns dos outros como se contivessem traços de verdade, como veias de um quartzo sexy. Alguns dos garotos são héteros e outros são gays – eu beijo alguns de cada. Eu noto que eu não amo garotos da mesma forma que amo garotas, mas ainda amo eles. Eu penso sobre o que isso significa – se o fato de que prefiro garotas é evidência de minha masculinidade.

Um dos garotos, da coreia, leva uma circuncisão aos dezesseis anos porque uma garota que chamou ele para o baile de sadie-hawkins zuou o seu pênis com pele.

Eu tenho dezessete anos de idade.

Garotas começam a achar que eu sou um garoto bonito. Eu começo a achar que sou uma garota feia.

Eu tenho dezoito anos de idade.

Laura Jane Grace se assume. Na Rolling Stone ela fala sobre uma infância “[rezando] para Deus: ‘querido Deus, por favor, quando eu acordar, eu quero um corpo de menina.’ Outras vezes [ela] tentaria o diabo: ‘Eu prometo passar o resto da minha vida como uma assassina em série se você me transformar numa mulher.'”

Eu estou na faculdade. Eu aprendo que algumas pessoas pedem para ser tratadas por diferentes pronomes. Eu vejo como isso se sente na minha cabeça. Não faz muita diferença. Eu ainda quero sentar numa cadeira e apertar aquele botão. Pronomes são a menor das minhas preocupações.

Eu visito uma faculdade para mulheres. Eu estou cercada por novas mulheres nós nos sentimos instantaneamente confortáveis perto umas das outras. Eu vou a uma aula. A professora grita “quem é uma mulher?” e uma multidão de mulheres cis respondem “qualquer uma que quiser ser!” O sentimento é legal, mas eu penso nos anos que passei olhando pra fora da janela, em direção às estrelas, e de repende eu me sinto desconfortável.

Mais tarde durante esta viagem eu estou conversando com minhas novas amigas sobre feminilidade. Elas são mulheres inteligentes e articuladas. Eu sou grata por estar perto delas. Até que uma delas me conta, com raiva, que eu não tenho permissão para falar sobre feminilidade por que ser um menino cis hétero. Não é meu lugar, nem meu território. Eu devo calar a boca e escutar. Este é o meu povo?

Eu não corrijo ela. Eu nunca corrijo ninguém.

Me dizem que há algo especial – algo inexplicável – sobre amizades femininas. Me dizem que eu não poderia entender ou experienciar isso. Me dizem que qualquer pessoa que queira ser uma mulher é uma mulher – será que é verdade? O que isso diz sobre minhas amizades com garotas?

Eu começo a considerar o que eu posso ser, se minha feminilidade não contava simplesmente por eu não tê-la abertamente confessado. Eu penso sobre a minha masculinidade – sobre minha infância e adolescência – sobre como minha experiência com garotos desviou do que eu fui ensinada a esperar. Eu mudo minha graduação e passo um ano escrevendo sobre feminilidade não-gay masculina da Estética do final da década de 1880 até as estrelas de rádio de vaudeville. Eventualmente, como numa carta de amor de filmes de virar adulto dos anos 80, 90 e 2000, eu escrevo minha tese sobre amizade e sexualidade de homens americanos e suas representatividades em filme e televisão. Um feedback que eu recebi sobre esse trabalho foi “eu estou tão cansada de garotos escrevendo sobre garotos.”

Eu penso sobre quando não me deixaram falar sobre feminilidade. Eu penso sobre que tipo de coisa uma pessoa como eu se quer pode falar.

Um dos garotos da escola, que tomava banhos comigo a noite, que me contava através de dentes serrados que ele era muito magro e muito gordo, se joga na frente de um trem.

Eu tenho dezenove anos de idade.

Eu estou na aula de estudos sobre gênero. Eu ainda estou estupefata com o fato de que o assunto no qual eu estive obcecada, lendo e estudando obsessivamente desde que a minha vida começou, agora é algo que meus amigos querem ter aulas sobre.

Me dizem que masculinidade existe em oposição à feminilidade que ela é inegavelmente tóxica. Eu penso sobre os “mentores” masculinos crueis que eu tive no decorrer da vida. Eu penso nos jogadores de futebol ras pando os joelhos e centenas e centenas de outras coisas.

Eu também penso no mentores masculinos bondosos e caridosos que me encontraram. E eu penso nos garotos com quem eu passei noites acordada contando histórias. E os meninos que beijei. E os meninos que me deram suporte. E os meninos pra quem dei suporte. E centenas e centenas de outras coisas. E eu penso sobre mim.

Eu levanto minha mãe e, timidamente, discordo com cuidado. Eu sei com o que isso parece.

Minha professora rola os seus olhos. O resto da turma são mulheres cis; elas riem. As boas qualidades das quais estou falando, na verdade, são feminilidade, elas explicam.

Eu digo que afirmar que caridade e bondade são valores femininos que os homens emprestam é como dizer que eles são valores judeus que os budistas emprestam.

Uma das estudantes me diz que eu não posso ser objetiva sobre masculinidade por que ser um homem cis hétero, e que eu deveria calar a boca e escutar. Este é o meu povo?

Eu não corrijo elas. Eu nunca corrijo ninguém.

É interessante ver onde as pessoas insistem que a sua proximidade de um assunto torna a pessoa informada e onde elas insistem essa proximidade te torna parcial. É interessante que elas pensem que é espaço delas julgar.

Eu entrego meu TCC sobre a medicalização e a patologização de identidades trans, especialmente enquanto estas afetam o desenvolvimento de legislações e direitos trabalhistas. Eu gosto desse assunto porque ele é difícil. É um problema prático que requerer uma visão clara entre o que “deveria ser” e o que “é.” Existem dois lados e fatores importantes em ambos. Ter a mente aberta é aceitar liminiaridade.

Liminiaridade se torna minha palavra favorita.

Liminaridade (do latim: līmen) é um estado subjetivo, de ordem psicológica, neurológica ou metafísica, consciente ou inconsciente, de estar no limite ou entre dois estados diferentes de existência. Assim é definido na Neurologia e nas teorias antropológicas sobre os rituais, como o definem autores como Arnold van Gennep (“Ritos de Passagem”) e Victor Turner(“Liminaridade e Communitas”, em “O Processo Ritual Estrutura e Anti Estrutura”).

Este estado é usado para distinguir situações fronteiriças ou limítrofes de possessão existentes nos rituais ou de trânsito entre estas situações.

Eu tenho vinte anos de idade.

Eu assisto Hedwig – Rock, Amor e Traição pela primeira vez. No final do filme, Hedwig está ni, sem peruca e molhado – um andrógino com um corpo nem masculino nem feminino. Ao parceiro homem de Hedwig, Yitzhak, interpretado pela linda, maxilar-quadrado Miriam Shor em pelo facial falso, é dado uma peruca e um vestido. Ela faz o seu melhor para parecer um homem privado da sua feminilidade, finalmente dando alívio ao seu avô. Eu não consigo fingir que ela é um homem, mas eu choro sempre que vejo isso.

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Você pode ser Cis, se: Isso não te fode completamente.

Este também é o ano no qual eu começo a participar de shows de drag, tanto no campus quanto ao redor da cidade. Eles não são… exatamente certos, mas estão mais perto do certo. Eu penso sobre o quão melhor eu me sinto em maquiagem – e o quão pior eu me sinto em maquiagem.

Eu não posso, como tanos tipos de mulheres fazem, fingir que acredito que os hinos da Beyoncé sobre beleza, perfeição e acordar desse jeito, são sobre mim ou pra mim.

O que é de boa. Eu não preciso que eles sejam.

Laura Jane Grace lança “Transgender Dyshporia Blues,” e ele faz o meu peito chorar como apenas uma voz sozinha de solidariedade consegue fazer. Minhas amigas cisfemininas me olham atravessado quando que que eu toque ele e me lembram que “não é só uma dança – é uma canção com uma mensagem.”

Eu me torno uma fã ardente de Eddie Izzard, que se descreve como um “homem lésbico.” Mesmo que muitos acusem ele de transmisoginia internalizada – com medo de chamar a si mesmo de trans – pelo menos eu admito a sua rejeição de tentativas constantes de apertar a sua identidade em uma taxonomia universal decidida por outras pessoas. Eu admiro o foco dele. Eu admiro a sua coragem quando ele sobe de vestido num palco. Eu admito a sua posição quando a televisão força ele a entrar num terno. Eu admiro a sua vontade de ser uma coisa confusa. Eu não acho que sejamos a mesma coisa, mas eu acho que ambos chegamos na mesma conclusão.

Algumas noites, sempre sozinha, eu saio em busca de maquiagem e roupas femininas com uma identidade que encontrei numa carteira perdida. Eu nunca me sinto tão homem quanto nessas coisas.

Está escuro. Eu estou usando calças apertadas. Eu me sento em bares e bebo sozinha. Muito do que acontece é o que se esperaria. Quando você não passa, você é machucada. Quando você passa, você consegue exatamente o que você esperaria de uma mulher sozinha em um bar. Eu não tenho ideia do que uma vida pública como mulher – trans ou cis – envolve.

A dominância da narrativa de nascido-no-corpo-errado esvanece. Fluidez de gênero ganha popularidade. Identidades não binárias e agêneras são exploradas e categorizadas no tumblr. Eu me sinto boba na frente de tantos lindos mavericks com jaquetas jeans, gravatas borboleta e undercuts coloridos, porque o mundo chato e binarista dos anos 90 com a narrativa do corpo errado é o que mais me encaixa, mesmo depois desse tempo todo. Eu sempre soube. É a primeira coisa que eu me lembro de saber.

Aos vinte anos eu finalmente contei pra alguém – uma amiga de muito tempo e também uma garota trans – sobre o meu conflito constante sobre o que agora é chamado de disforia de gênero. Eu imagino o que isso vai ser chamado daqui 5 anos. A história da minha amiga é diferente da minha – ela nem considerava que ela poderia ser trans até a sua adolescência e nunca se sentiu que fazia parte do caso de nascimento-no-corpo-errado – mas é legal conhecer alguém que entende, pelo menos parcialmente, sobre tudo isso.

Eu tenho vinte e um anos de idade.

Humor misândrico está no pico e vazando com cissexismo. Fundo vai a cascata de tweets sorridentes de mulheres cis falando sobre como mulheres são mais bonitas que homens – o quão gracioso é o corpo feminino, quão utilitário é o masculino. Quão incrível são tetas. Como homens tem mal gosto pra roupa. Quão incompetentes eles são emocionalmente. O quanto eles são fracos demais pra lidar com gravidez e menstruações. Neckbeards [NdE: Gente com barba no pescoço] são a escória da internet. Elas se depilam enojadas com “corpos de papai.” A retórica SCUM é revivida com níveis inconsistentes de ironia [NdE: se você não sabe o que é isso, sinta-se abençoade. eu não vou linkar mais coisa de feminismo radical nesse blog]. O gospel meme diz que pênis são apenas clitóris cuzentas.

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“Eu prefiro ser bonita do que ser homem”. É assim que trans funciona?

Eu não seu onde eu me posiciono nisso. Eu não conheço meu lugar nisso. Este é o meu povo?

Eu acho que uma peruca e um pronome vão mudar como elas se sente no fundo? Sobre o meu corpo? Sobre os meus cromossomos? Sobre a minha “socialização”? Não. Eu quero achar, mas não.

Elas podem acreditar do fundo dos seus corações que quem é esperta & forte & racional e quem é burro & fraco & perigoso está sob o seu controle, são que são exageros controlados e auto-conscientes e que são bem examinados. Se elas me vissem nua, sem peruca e molhada, não seria eu assunto das suas opiniões engraçadas sobre pênis? Sobre Neckbeards? Sobre masculinidade? Sobre quem tem o direito de falar sobre feminilidade? Elas lerão isso e dirão “Não!”

Nos anos 90, mulheres cis estavam desconfortáveis com um clipe de papel animado por que ele era “muito masculino“.

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Eca, sobrancelhas. Mas eu tenho certeza que vou parecer feminina o suficiente.

Na internet quando eu costumava perguntar pro Jeeves “o que há de errado comigo,” agora eu entro em um monte de discussões sobre gênero. Eu sempre fui revoltada em relação ao meu pelo corporal, mas nunca pude raspá-lo. Mesmo que eu pudesse raspar as minhas pernas sem levantar algumas sobrancelhas, os pelos voltariam mais grossos imediatamente. Eu menciono para uma amiga cis feminista que eu não acho legal usar o termo “neckbeard” como prejorativo. Eu digo que é hipócrita. Eu digo que conheço alguns seres humanos neckbeards maravilhosos, gentis e carinhosos. Eu também conheço várias pessoas que pensam muita coisa sobre seus pelos no pescoço, mas não podem fazer muita coisa pra mudar a situação.Eu imagino se existem formas de criticas as pessoas baseadas no seu caráter sem simplesmente apontar para os pelos que saem dessas pessoas. Ela diz que eu estou mansplaining [NdE: Quando um homem acredita que uma mulher não entende alguma coisa que ela entende, e explica essa coisa sem considerar o conhecimento dela]. Ela diz que eu estou falando que “nem todo homem”. Ela também diz que eu jamais poderia entender os padrões de beleza impostos sobre as mulheres. Como se eu não tivesse passado anos curvada sobre uma provada, me sentindo horrível por saber que mesmo se eu fosse magra eu nunca seria garota o suficiente.

É claro que ela não teria como saber a minha história, mas a minha história não é o que torna verdade o que eu estava dizendo.

Eu proponho à ela, depois de inúteis e estressantes parágrafos de discussão diagonal, que existem tantas dimensões para o enigma dos pelos do corpo. Quando você é cis e não raspa as pernas, algumas pessoas pensam que você é uma feminista nojenta e outras pensam que você é uma feminista dahora. Você tem o privilégio de experimentar com os próprios pelos corporais por que o seu status e a sua identidade estão seguras ao contrário de mulheres trans.

É claro que ela não sabia o quanto eu chorava na minha puberdade quando meus pelos da perna começaram a crescer – eu me sentia sem esperança por não poder se quer raspá-los.

Mas a minha história não é o que torna verdade o que eu disse.

As pessoas podem te chamar de coisas, mas ninguém te força-rá dentro do banheiro errado. Nada disso irá destruir o castelo de cartas que você construiu para fazer as pessoas esquecerem o que elas acham que você é. Você está segura onde algumas pessoas não estão.

Quando você é trans e não raspa as pernas, isso é tomado como evidência por todomundo – mesmo para aliades em seus escuros e inajustáveis subconscientes – de que você não é uma mulher de verdade. Até para você mesma.

Ela está furiosa. Ela me diz que eu sou um homem cis hétero e eu preciso calar a boca e escutar. Sobre o que ela realmente furiosa é ser contrariada por uma pessoa que, de acordo com o seu perfil do facebook, tem um grau menor na planilha de discurso interseccional do que ela.

Os privilégios de uma pessoa podem ser uma explicação do porque as suas crenças estão distorcidas se as suas crenças estão realmente distorcidas. Não é prova de crenças ruins. Estas tendem a se revelar por… serem ruins. Se uma pessoa está dizendo para esta garota cis que ela está ganhando de bandeja um privilégio que garotas trans não tem, por que é o instindo dessa garota cis caçar a identidade dessa pessoa para procurar algum motivo para descreditá-las sem ter que pensar no seu argumento? Não responda isso. A gente já sabe a resposta

Outra vez eu faço uma piada sobre um autor que eu não acho que seja um bom autor. Me dizem que eu não posso fazer piadas com este autor por ele ter muitas fãs mulheres – o seu trabalho é codificado como interesse feminino. Me dizem que eu não respeito esta pessoa por que seu conteúdo é feminino, e que eu provavelmente adoro Bukowski e Kerouac. Essas pessoas não sabem que eu cresci lendo este autor. Me dizem que eu não entendo como é crescer com vergonha dos meus interesses por eles serem femininos.

Eu quero gritar.

Eu quero vomitar os adesivos da Lisa Frank que eu tinha guardado na carteira da escola na segunda série e comi, em pânico, para esconder a evidência.

No Facebook, a cagora que me fala sobre a minha infância – sobre como eu nunca tive que sentir vergonha da minha identidade – postou uma fotografia dela mesma como uma garotinha pequena, vestida de Tinkerbell, ao lado dos seus pais sorridentes.

Por causa dos meus transtornos alimentares, meu cabelo está caindo. Eu penso nos horrores de ficar careca – uma perda permanente de vitalidade. Eu penso como isso destruiria a frágil androginia que é meu único conforto neste corpo. Eu penso na minha vó, careca de câncer, e o que isso fez com ela. E eu ouço minhas orgulhosas amigas misândricas cisfemininas rindo de homens carecas como se fosse um erro ou uma decisão dos próprios homens. Homens carecas fazem elas pensar em pedófilos de televisão. Homens carecas lembram elas de autores auto indulgentes que improvisadores desesperados. Eu vejo homens no metrô perdendo seus cabelos, sua juventude, suas opções, e eu sinto por eles. Não é engraçado. É um pesadelo dismórfico pra qualquer pessoa. Eu não me incomodo em dizer que eu acho as piadas desnecessárias e insensíveis. Eu sei o que as garotas vão dizer.

Mas eu sei que eu não sou hétero, nem cis, nem um garoto. Eu não sou nada tão simples quanto isso. Eu sou uma garota que passou por muita merda e cresceu numa relação simbiótica com a sua casca de carne. Mas o que mais eu sei é que o meu argumento é a porra do meu argumento. Será que eu se quer quero convencer uma pessoa se ela só vai me dar ouvidos quando descobrir que sou uma garota?

Eu preciso me assumir para ser tratada como uma pessoa que vale a pena ser ouvida? Pra fazer as minhas colegas cisgêneras pararem de rir de alguém que está presa nos limites e nas dimensões de masculinidade e feminilidade em formas nas quais elas nunca tiveram que passar? Eu preciso da permissão delas para falar?

Eu genuinamente não sei.

Eu tenho vinte e dois anos de idade.

Uma aluna na minha aula de arte performática coloca uma moldura de espelho vazia no centro da sala de aula e nos divide em pares de objeto e reflexo. Uma colega mulher duplica meus movimentos com quase nenhum atraso. Eu olho para o espelho e vejo seu rosto e suas sardas – eu aceno com a mão e vejo unhas pintadas. Eu fico extremamente tonta e tenho que sair da sala. Eu choro em soluços grandes e tremidos no banheiro masculino e volto vinte minutos depois. A aula acabou.

Eu tenho vinte e três anos de idade.

Com o que eu me pareço é isso: um menino. Um menino que herdou mais pelos no corpo do que ele consegue lutar contra, mesmo em lugares nos quais ele não é permitido. Um menino que muitas mulheres cis olham e dizem “você parece o Mac DeMarco, ha ha.” (eu pareço.) “Eu aposto que você lê Jonathan Franzen.” (não leio.) “Aposto que você gosta de Braking Bad.” (É okay.) “Aposto que você é um auto-proclamado homem aliado feminista mas não lê autoras mulhetes.” (vai se foder.)

Essas mulheres explicaram pra mim, com fúria hipócrita, com desdém presunçosa, o que é uma mulher trans.

Parte de mim quer que elas vejam meus livros – quer que elas vejam onde estão as palavras manchadas, quais páginas de quais livros estão amaçadas por lágrimas de mais de uma década de idade.

A maior parte de mim não quer elas nem perto dos meus livros ou qualquer coisa minha.

Eu tenho vinte e quatro anos de idade e eu não sei o que fazer.

Sem pestanejar, eu abraço a teoria do feminismo interseccional. Eu preciso dela – todos precisamos. Mas será que eu quero me juntar àqueles grupos interseccionais que não não me acolher a não ser que eu exponha minhas experiências mais privadas? Que me dirão para calar a boca e escutar até expor dada um dos meus anos de dissociação, dismorfia e disforia?

Eu preciso ser inspecionada e dissecada pelas pessoas que riram de mim para receber minhas credenciais?


Eu tenho agora vinte e seis anos de idade e eu não vou me assumir como trans, nem transicionar.

Aqui estão os motivos simples:

Porque existem repercussões sociais e financeiras na transição às quais eu não posso arcar emocionalmente nem financeiramente. Eu não quero ser tratada como se tivesse ossos de vidro por amizades cisgêneras bem intencionadas. Eu não quero que me digam que eu sou “tão bonita” quando eu odeio o meu reflexo. Isso não me faz sentir melhor. Isso me faz sentir pior, e é quase impossível fazer pessoas cis calarem a boca sobre isso. E eu estou desconfortável o suficiente com o julgamento odioso que eu consigo quando me visto de mulher sozinha na cidade.

Existem prós e contras monumentais em relação a ser trans e assumida. E em alguns casos, como o meu, os dois estão no mesmo número. Eu escolho experienciar minha disforia dosinha e sem sem alívios para absorver o desconforto das delicadas pessoas cisgêneras para que eu possa deslizar pelo mundo mais facilmente em uma bela trilha de segredos e mentiras. (Eu estou sendo imatura e desonesta aqui. Eu simplesmente temo que assim que você conceitualiza isso. ) Pessoas gays e transsexuais tem feito isso à séculos. Acontece que eu não sinto que o clima esteja bom pra eu estar assumida lá fora. Mas eu estou animada e feliz pelas crianças trans de amanhã. Invejosa delas, até. Talvez haja uma cadeira e um botão algum dia.

Porque acaba que transicionar não é a resposta pra todas as pessoas – e sugerir isso é prescritivo e de mente fechada. Porque para algumas mulheres trans, feminilidade pode ser assintótica – quanto mais perto você chega, mais você sente que nunca chegará lá. Eu noto que isso não é uma mensagem inspiradora, mas é a dura verdade: algumas pessoas lidam com disforia melhor que as outras. Quando você luta contra ela, ela luta de volta. Eu sou farmacofóbica e diagnosticada com transtorno obsessivo compulsivo. Eu mal consigo tomar um NyQuil e redemoinhos no cabelo fazem a minha pressão subir. Eu não sou forte suficiente pra essa luta. Eu não estou bem equipada pra transicionar.

O melhor que posso fazer, por mim, é desassociar – da melhor maneira possível – minha identidade da minha aparência, e focar, com cuidado, em outras coisas. Não é impossível! Olha esse pessoal de Dust Bowl – eles só estavam tentando atravessar o país em um calhambeque! “Gênero?” eles diriam, “Eu mal conheço ela!”

 

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Esperinolactona? Que tal só um pão?

Eu adoro a Laura Jane Grace, mas eu nunca quis ser uma punk. Eu não quero iniciar conversar nem ser uma curiosidade, e é isso que eu seria nesse mundo, para tantas pessoas. Tudo que eu queria ser era a Wendy Darling. Eu queria ser uma garota normal com uma infância normal. Eu nunca vou conseguir voltar no tempo e fazer com que minhas amigas penteiem meu cabelo em festas do pijama. Eu nunca vou poder voltar no tempo e usar um vestido pro baile de formatura. Eu nunca tive uma infância feminina. Eu tive anos para tentar ficar em paz com essa perda, e as vezes eu consigo. Nós somos humanos. Nada disso é justo. Tantas coisas foram tiradas de nós.

Eu li alguns dos artigos do #eggmode. [NdE: #ModoOvo.] Este aqui é bem interessante [NdE: em inglês] e apresenta uma perspectiva carinhosa e muito valiosa. Eu vejo mulheres trans usando “ovo” como um pejorativo para a época das suas vidas nas quais elas ainda estavam desenvolvendo suaaparência e ideologias – dividindo fotos vergonhosas pré-transição e rindo dos seus eus passados por decisões estéticas questionáveis. Mesmo quando é auto-infligido, eu sinto que isso é cruel, mas como essas pessoas lidam com as suas histórias é problema delas. Mas quando é apontado para outras pessoas, entretanto, em uma tentativa de diminuir a sua posição ou autoridade sobre as suas próprias identidades, isso reflete uma prescritividade e presunçosidade que eu jamais teria esperado da comunidade trans.

Imagine uma mulher cis dizendo:

Eu queria parecer desse jeito, mas eu não pareço nem posso. Isso é horrível e eu me sinto muito mal se eu lamento isso. É por isso que eu me foco em escrever – eu prefiro fazer coisas. Criar e investir em coisas que não são o meu corpo me ajuda a lidar com meus problemas corporais com os quais eu fui amarrada contra a minha vontade.

Não parece que ela precisa de conselhos sobre como maquiagem vai consertar o problema dela, não é mesmo? Parece que ela está indo bem. Ela sou eu e eu sou trans. É só isso.

Eu aprecio o encorajamento que recebi de amizades trans, mas eu rejeito a implicação de que transicionar é o meu destino. Meu cérebro é meu cérebro – meu corpo é meu corpo. Eles não combinam, e eu escolhi dedicar a minha energia em me contentar com isso e me focar em outras coisas, em vez de tentar mudar o meu corpo. Eu não estou querendo propagar essa posição para outras pessoas trans ou desencorajar qualquer pessoa de seguir o caminho que ela acha ser o melhor pra ela. Eu aplaudo cada uma das bravas e flexíveis pessoas que fazem ambos.


Agora – Existem motivos complicados, a maioria dos quais eu só me toquei enquanto escrevia os fáceis.

Eu odeio fato de que a única resposta eficaz que eu posso dar para “meninos são cu” é “bom, eu não sou um menino.” Eu sinto que estou desistindo do garoto em pijamas de baseball que sentava comigo na cama enquanto eu descobria quem eu deveria ser, e os garotos que eu encontrei e amei dentro da minha roupa de menino – que acreditavam estar conversando com um menino. Eu sinto que estou queimando a história do corpo nu que se senta no chão do meu chuveiro. O corpo que foi para o baile com um terninho e desejava os vestidos.

Porque eu não sou um garoto, mas eu sou uma mulher que teve uma infância masculina. Eu fui, e sou, feita para viver como um menino e eu não posso desistir da perspectiva que isso me deu e me juntar na hora de corar um daqueles garotos sem noção de raiva chamando eles de fuckboi e aí dizer que a raiva dele prova que ele é um fuckboi. Ou humilhar um deles com uma screenshot do OKCupid porque nós conscientemente juntamos os atrapalhados com os perigosos pra que a gente possa pegar aqueles Favoritos solidários. Isso é horrível. Isso se espalha.

Várias mulheres trans me disseram, privadamente, que elas se sentem desconfortáveis com essas coisas, mas tem medo de falar porque isso faria as mulheres cis confiarem e gostarem menos delas. “Eu brinco junto,” uma delas me contou, “porque a comunidade queer as unicas pessoas que defendem meninos cis são meninos cis. Eu não quero desistir de finalmente ser lida como garota.

Outra diz “Eu faço coisas misândricas porque é um jeito fácil de ganhar pontinhos LGBT, mas quando eu penso nisso, me sinto muito desconfortável.

Outra: “É um jeito de lidar do qual eu não me orgulho. Eu eu concordar que ‘garotas mandam, garotos pastam’, isso me faz sentir mais como uma garota.

Você notou que quando um produto é vendido de forma extremamente binária de gênero, a culpa disso muda dependendo do gênero? que uma caneta rosa feita “para mulheres” é (e isso, é, claro, verdade) trabalho de marketeiros cínicos e idiotas tentando de forma insultante imaginar o que mulheres querem? Mas quando fazem um iogurte “para homens” de repente se torna sobre o quão hilária e frágil é a masculinidade – sobre como homens não podem comer iogurte a não ser que seus pobles celeblozinhos tenham certeza de que isso não vai torná-los gays. #MasculinidadeFrágil é apontada maliciosamente contra os homens, não os marketeiros.

Esta conclusão – abertamente compartilhada – é produto de um discurso isolado. Eu não estou dizendo “abram os portões e deixem os macho troll entrar” eu conheço os troll – eles tentaram ser meus amigos, eles tentaram se esgueirar nos meus espaços feministas sem qualquer desejo de aprender ou escutar. Eu entendo não confiar em homens que constantemente falam sobre questões femininas e recusam aceitar quando estão errados. Eu não estou encorajando que ninguém confie cegamente. Eu estou pedindo às discursoras: considere que esse isolamento tem efeitos e tente atenuá-los, se a sua prioridade realmente é encontrar a verdade dentro de um monte de mentirar patriarcais. Procure encontrar se talvez você está dizendo e reproduzindo coisas por elas parecerem ou sentirem certas e ninguém está questionando elas.

Estes não são problemas discursivos que se aplicam apenas para uma mulher trans “escondida, estes são problemas discursivos que são visíveis para uma mulher trans “escondida” forçada a carregar várias perspectivas como as corcundas de um camelo.

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Por eu estar interessada em complicas sua definição de masculinidade. Eu nasci em uma cidade cuzona, masculina, cheia de ideais quebrados e machismo mal colocado e repreensão. E existem algumas boas pessoas presas vivendo lá. Elas não estão no comando. Elas não construíram aquilo. E eu não me sinto bem só me mudando e dizendo “vão se foder – saiam daí ou morram num buraco, eu nunca fui uma de vocês.” Eu quero que este te torne um lugar melhor e mais saudável – não passar meu tempo dizendo o quão bosta esse lugar é e o quanto qualquer pessoa que decida viver ali merece isso. E para mim isso significa considerá-los com caridade, mesmo quando eles deixam isso difícil pra mim.

Esta caridade, é claro, também se aplica às várias mulheres cis bem intencionadas que conheço e ainda se encontram caindo nos hábitos que descrevi. A maioria das pessoas mais fortes e bondosas na minha vida, minhas amigas mais queridas, são mulheres – muitas delas cis. Se você chegou até aqui e está pensando que eu deveria dedicar mais tempo reconhecendo as dificuldades e frustrações das mulheres cis para balançar a crítica, saiba que eu passo a maior parte do meu tempo fazendo isso. Eu poderia escrever cem artigos sobre as formas como homens e masculinidade danificaram a mim e as mulheres que eu amo, mas se você jogar uma pedra na internet você provavelmente aceitaria um artigo desses. Esse artigo é sobre coisas que eu não posso dizer.

Porque não é pouca coisa que as palavras “nem todo homem” se tornaram inseparavelmente interligadas com fragilidade masculina e “mimimi”. Isso torna frustrantemente fácil isolar as perspectivas (na maioria cis-) femininas sobre o que homens são. Começar um argumento com estas palavras – “Nem Todo Homem” – é tar qualquer pessoa permissão para rir do resto do seu argumento. Mas eis a verdade: nem todo homem é o que você acha que ele seja. Generalizar cruelmente e abertamente ainda implicando “você sabe de quais eu estou falando” é uma preguiça intelectual e retórica que não é permitida em nenhum outro lugar dessas comunidades. Por não podermos escolher quem nossas palavras e comportamentos afetam, somos obrigados a escolher-lhes com cuidado.

Porque eu fui reduzida à minha aparência – pela forma a qual eu me apresento pelo meu próprio bem estar – pelas cisfeministas tantas vezes que eu sinto algum tipo fodido de síndrome de Estocolmo em relação a ter o meu gênero visto errado. [NdE: Caralho, velho…] Minha dismorfia está interligada com minha identidade tanto quanto qualquer outra coisa. Eu vivi com ela por décadas como uma garota fingindo ser um garoto. E quanto mais perto eu chego de algo que quis minha vida toda, mais eu me sinto brincando com as políticas estéticas de um grupo de pessoas que me rejeitam por causa das associações que elas tem co o meu corpo – um corpo o qual eu não posso mudar muita coisa. Essas pessoas só estarão confortáveis quando eu diluir essas associações com significadores masculinos.

Como se talvez, por simplesmente ser o que eu sou – o cérebro de uma garota no corpo de um garoto vestindo roupas de garoto – eu posso acabar queimando algo muito importante para elas. Algo que torna as suas vidas mais confortáveis e fáceis.

Eu não posso transicionar por mim, por mais que eu realmente queria poder. Nada que eu possa fazer aliviaria mais dos meus antigos problemas do que causaria novos. E eu certamente não vou transicionar por causa delas, para entrar bem no seu sistema de como uma mulher deve se parecer.

Porque eu não decidi ser o que eu sou. E que me mandem pro inferno se outra pessoa decidir por mim.


PS:

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Homem choraminga de uma forma patética sobre o quããããão difícil foi crescer com o “cérebro de uma garota” e como a vida dele é tããããão pior do que essas mulheres cis privilegiadas.

Por favor, aliados cis, notem que garotas como essa estão entre vocês e estão tentando se tornar suas amigas através o quanto homens fedem. Elas estão se chamando de feministas e estão comentando “yesss” na arte de neon vagino-centrista que você compartilhou no facebook.

O que você quer me dizer agora é “Nem Toda Mulher Cis,” o que tá tudo bem! Só se lembre desse sentimento quando você ouvir “Nem Todo Homem.”