Sim, nem todo homem

Se você sincera e completamente acredita todo homem cis heterossexual é um monstro estuprador com tentáculos saindo das calças só esperando uma buceta pra violar… Você tem uma noção bastante limitada sobre masculinidade, hein, amigue?

Eu entendo ter nojinho de homem – eles normalmente tem cheiro de testosterona e comida presa na barba. E eu entendo ter medo de homem – eu nem consigo abraçar a maioria deles.

Mas mandar ele ficar quieto e ameaçar cortar o pênis dele só por ele estar expressando uma opinião inofensiva que você não concorda SÓ por ele ser homem é ir um pouco longe demais e é uma prática muito potencialmente transfóbica.

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Boy Meets Girl (2014) só pq eu n sabia q foto colocar aqui

Nem todo homem é capaz de oprimir, e ter nascido com um pênis ou passar por uma transição hormonal FTM não é a mesma coisa que assinar um certificado de privilégio.

Vamos, por um segundo que seja, tentar imaginar que o fato de uma pessoa simplesmente existir não é opressão, e ela se torna opressora só no momento em que, por vontade própria, ela se aproveita de algum privilégio social que outra pessoa não tem. Beleza? Beleza.

O privilégio masculino está ligado a simbolizadores da cismasculinidade ocidental. Isso envolve competições sobre virilidade (quem tem o pau maior/mais coragem pra fazer uma bestera/pegou mais mina na noite passada) e afirmações da mesma. Quando um homem cis da poder pra outro homem cis em vez de uma mulher ou uma pessoa trans, ele está afirmando a sua masculinidade com os outros homens cis. E a mesma coisa acontece quando estes homens duvidam da masculinidade de outros homens no seu meio, que se vêem na necessidade de provar, ou não, ser homens. E o privilégio masculino se mantém e se reforça nessa teia de homens querendo provar pra outros homens que são homens.

Mas nem todo homem vê sentido ou necessidade em participar dessa teia de virilidade.

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Este é o Frank Wolff, um cosplayer canadense que cometeu suicídio em 2013 graças ao bullying que sofria na internet nas mãos de homens querendo afirmar sua masculinidade para outros homens.

Frank também era um homem cis. Cromossomo Y, pênis e tudo mais. Ele nunca falou sobre transgeneridade nos seus perfis online, e sempre se referiu a si mesmo no masculino. Mesmo assim ele nunca chegou a se aproveitar do seu “privilégio cismasculino” e acabou morrendo vítima de transfobia, mesmo não sendo trans. Simplesmente por ser um garoto “feminino demais” e por curtir tirar foto de lingerie.

E eu não estou falando de homens gays afeminados em geral. Vários meios da comunidade cis gay deixam bem claros que ainda existe entre eles uma rede de virilidade; nisso eu incluo algumas afeminadas e várias Drag Queens. Eu estou falando de homens (na maioria meninos) que não fazem parte dessa rede e são violentados para que eles façam parte.

E não são apenas meninos como o Frank que acabam entrando nesse quesito. O patriarcado também é mais do que capaz de machucar e oprimir garotos cis heterossexuais. E um simples ato de chorar na frente do pai é o suficiente pra iniciar a violência.

Ano passado (eu acho) li um artigo sobre um rapaz dizendo que se sentia oprimido por ser um homem hétero. (eu acho que é esse aqui, mas não tenho certeza), e eu lembro de, na época ler esse texto e imaginar a jovem Felicia antes de descobrir que transgeneridade existia escrevendo as mesmas coisas.

E eu escrevia. Eu invejava garotas de uma forma gigantesca por elas terem permissão de pintar o cabelo, permissão de usar saias, permissão de usar maquiagem e serem educadas, e principalmente, permissão de CHORAR. E ninguém falar nada sobre isso. E eu era violentada pela rede de virilidade por querer essas coisas.

Claro que hoje eu sei que isso é diferente, e que o “poder” é, na verdade “dever” e que o mundo trata mulheres de um jeito muito diferente do que eu imaginava quando era pre-adolescente. E eu só consigo imaginar quantos meninos passam pela mesma coisa.

Quantos meninos queriam ser o Frank Wolf, mas não podem por vergonha. Meninos estes que jamais se encaixarão na rede de virilidade e só fingem fazer parte dela por ser mais confortável.

2016-07-14-ARMARIO

Eu gostaria de direcionar-les pra outro artigo sobre o assunto, que traduzi de uma moça dos Estados Unidos que sofre de uma disforia de gênero assintótica (quanto mais perto você chega do que quer, mais você sente que nunca chegará lá). E por conta disso, ela não vive a sua vida acadêmica ou social como mulher, mas ainda é engajada em temas de gênero.

Ela é criticada pelas suas colegas de classe, não por causa dos seus argumentos, mas por “ser homem”. E ela começa a se questionar se o meio acadêmico feminista realmente se importa com os argumentos dados, ou se ele está mais preocupado com a carteirinha de feminilidade das outras pessoas?

Dizer que homem nenhum tem capacidade de falar sobre gênero pode excluir pessoas trans de uma discussão da qual era DEVERIA participar. E é uma atitude transfóbica da parte das pessoas que dizem respeitar o gênero alheio.

E isso me trás a outro ponto. tumblr_nadfd8wdwp1s92rato1_1280

Talvez isso seja só impressão minha, mas homens trans parecem ter mais espaço de fala nas discussões de gênero do que mulheres trans, estando só abaixo das mulheres cis.

Isso pra mim também parece uma atitude transfóbica por parte da comunidade, pois a mesma comunidade que diz “todos os homens são um lixo, fiquem quietos e aprendam”, deixa os homens trans falar. Aparentemente como se eles não fossem homens de verdade, e portanto, tem mais autoridade. Totalmente ignorando o fato de que homens diferentes tiveram vidas diferentes. Totalmente ignorando o fato de que existem homens trans machistas e que existem homens cis que nunca fizeram parte da rede de virilidade. É como um espírito do feminismo radical e da ideia de “socialização” assombrando as mentes do feminismo interseccional.

Eu concordo que a maioria dos homens são um cu, e que eles deveriam ouvir mais do que falar. Mas isso vale pra humanidade inteira. Não só homens.

Dizer “todos os homens são um lixo, fiquem quietos e aprendam” é a mesma coisa que chamar uma mulher trans de “macho de saia”, dizer pra um homem trans “na verdade você é uma mulher né?” e negar o fato de que masculinidade pode ser uma coisa boa.

Eu não consigo definir masculinidade. Até porque eu não sou homem. Mas eu tive a infância de um. E eu sei que masculinidade pode ser uma coisa boa, afinal…

Ping: Melhor príncipe Disney de todos.

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