Magia Cinematic Universe

Uma das partes mais legais do universo da Marvel – e de quadrinhos em geral – é a magia. Aqueles aspectos da realidade do quadrinho que não são, não precisam, e não devem ser explicados por scientific babble, e se encaixam bem melhor no reino da filosofia/espiritualidade/religião.

O que eu acho particularmente interessante sobre Magia Marvel, é que ela se baseia em conceitos “reais” de magia. E geralmente (não sempre, depende de autor pra autor e de qual época a gente tá falando) se mantém distante daquela coisa de todomundo ter super poderes e magia ser só uma desculpa pra quando você não tem uma desculpa. Ou então aquela putaria de mesas de Mundo das Trevas que faz parecer que todas as criaturas do universo são sobrenaturais e não existem pessoas normais de verdade.

Ah é. Spoilers de Dr. Strange a seguir:

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Me chama de boy que eu te mostro a magia.

– Loki Laufeyson/Laufeydattir

O universo cinemático da Marvel tem sido bem decepcionante com essa parte dos quadrinhos. Principalmente porque boa parte do folclore mágico da Marvel vêm de Thor e os dois filmes de Thor foram uma bosta, e eu só gostei de Thor 2 porque eu amo Thor e eu quero amar Thor e UGH. Porra, Marvel. Porra, Disney. Os Aesir não são aliens. Eles são DEUSES.

Enfim. O MCU finalmente decidiu mostrar um pedaço de misticismo com Dr. Estranho esse mês. Um filme incrível que se tornou meu terceiro favorito da série e você realmente deveria assistir.

Nesse filme, o Dr. Stephen Strange sofre o acidente de carro mais exagerado da história dos acidentes de carro, e perde controle das suas mãos. Perdendo toda a esperança, ele resolve procurar ajuda com um homem que tinha uma paralisia incurável, e ele vai até Kamar-Taj, onde encontra com a Anciã, e com muita relutância ele descobre magia oriental e se torna o mestre dos buraco de trama.

Agora eu vou falar algumas opiniões gerais sobre o filme que não tem a ver com o assunto principal do post, então você pode pular se assim desejar:

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Eu não ligo que a Anciã é branca, sinceramente? Talvez isso seja porque eu sou branca e eu não entendo muito bem as ideias de protagonismo asiático. Mesmo assim, me sinto compelida a acreditar no argumento de um dos escritores do roteiro sobre a Disney provavelmente ter medo de incomodar o governo chinês mostrando pessoas tibetanas tendo fé em alguma coisa que não seja o Estado. É uma pau-no-cuzisse enorme com o povo do Tibet que tem brigado com o governo chinês à décadas, e a “covardia” da Disney mostra que a empresa é conivente com esse governo opressivo e autoritário que tira liberdades religiosas do seu próprio povo. Mas da pra culpar a Disney? Eu não sei sinceramente. Só sei que de um ponto de vista narrativo/artístico, não faz diferença se o Stephen aprende magia no Tibet ou no Nepal. E transformar O Ancião em uma mulher que não prega filosofias de nenhuma cultura específica com certeza é uma melhoria extraordinária do Ancião original que não se passava de um estereótipo clichê e racista do que um místico oriental deveria ser. O filho da puta era até um vilão de vez em quando. E a Tilda Swinton DESTRUIU nesse papel. Essa mulher é tipo as três fases da Grande Deusa em uma mulher só. Inclusive achei legal quando disseram que ela era Celta porque foi tipo uma acenada pra minha religião (e eu não quero me apropriar da religião de ninguém. Só acho que a galera religiosa não-monoteísta costuma reconhecer que existe verdade em todas as fés).

Também vi gente falando que o relacionamento do Stephen com a Christine é desnecessário. E sinceramente esse é o primeiro filme de super-herói que eu assisto e não acho isso. O filme não é sobre a Christine. E o subplot dela não é sobre um romance. É sobre o Stephen reconhecendo que foi idiota com uma mulher que gosta dele e se preocupa com ele, mas não precisa dele pra viver. Você pode argumentar que isso é um trope de filmes machistas que não tem nenhuma personagem feminina realmente influenciando a história, mas olha, a Christine foi bem melhor desenvolvida do que quase todos os interesses românticos em todos os filmes de super-herói que eu já vi até agora. A única exceção, creio eu, foi O Espetacular Homem-Aranha. A Gwen Stacy do primeiro filme é simplesmente maravilhosa.

Eu não gostei da morte da anciã. Mais por que ela foi a minha personagem favorita do filme todo, mas a morte dela também não me pareceu muito necessária nem pra trama nem pro desenvolvimento do protagonista. Eu queria mais Tilda Winston, e eu fiquei meio triste de tirarem ela de mim.

Os buracos na trama desse filme são maiores do que em qualquer outro filme da Marvel (exceto talvez os de Thor). E o vilão é um dos mais chatos, e só serve pra exaltar as ações do Stephen e fazer umas piadas maneiras. Mas acho que o objetivo desse filme não foi narrar um conflito ou uma trama concisa, e sim só contar uma história de origem. Então whatever. Além do que, quase todos os vilões da Marvel são um porre. e os que não são, não ficam vilões por muito tempo.

E o fato do Stephen ter vários traços de personalidade parecidos com os do Tony Stark eu fico um pouco preocupada sobre como vão colocar os dois debaixo do mesmo teto em Infinity Wars.

Além disso… Simplesmente amei o filme. Top 3. Mas vamos continuar com o assunto em mãos.

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Acreditando você ou não, o Dr. Estranho era um ícone da cultura Hippie nos anos 70. Tudo girando em torno do feiticeiro supremo envolvia misticismo oriental e uso de drogas alucinógenas. Todo quadro das clássicas revistinhas dos anos 70 eram baseadas no movimento da psicodelia. Como eu falei nesse outro post aqui, essa foi a mesma época do lançamento da primeira edição de Dungeons and Dragons e as pessoas queriam porque queriam aprender magia de verdade, e ela acabou se tornando uma parte intrínseca da cultura pop até os dias de hoje.

Muitas partes da cultura pop que lidam com magia, entretanto, se prendem solenemente ao mundo da fantasia, como em Harry Potter ou O Senhor dos Anéis. Mas a Marvel vai um passo além. Sendo uma editora de histórias sobre pessoas comuns em situações extraordinárias, a realidade da magia Marvel acaba se aproximando muito da do mundo real.

O filme de Dr. Estranho faz jus ao desejo pelo conhecimento esotérico dos anos 70, com viagens astrais e comunicações espirituais que realmente existem nas mãos de magos excepcionalmente poderosos. Claro que a gente não consegue criar chicotes de luz e levitar com capas auto-conscientes, mas é um filme de super-herói, é pra ser super exagerado mesmo. Mas mesmo assim, muitas ideias por trás do filme são baseadas em conceitos reais.

Por exemplo: magia só pode ser atingida através do estudo. Magia existe graças à mudanças de percepção da nossa mente que nos deixa abertes para forças de outros planos de existência. Você não deve controlar a natureza para moldar ela; você deve se tornar parte plena da natureza para moldar ela. Entre outras coisas. Eu quase chorei na cena da morte da Anciã quando ela falou pro Stephen que “isso não é sobre você”, explicando para ele que ele está se cegando pelo seu falso ego, sem realmente usar o termo falso ego.

Esse filme é uma beleza metafísica do começo ao fim pra quem tem interesse em esoterismo e “magia de verdade”.

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Por mais que eu admire muito esoterismo oriental de uma forma geral, a minha pira é mais a magia indo-europeia (e africano-brasileira, mas isso é outra história). E isso está presente em algumas das poucas histórias da Marvel que envolve pessoas extraordinárias e situações terrenas. Os arcos envolvendo mitologia nórdica e grega.

Não é a toa que Loki: Agent of Asgard é meu quadrinho favorito da Marvel. Nele, Loki explica que magia é como contar uma história. E que os deuses e seus poderes existem graças as histórias que as pessoas contavam umas para as outras séculos atrás.

Isso brinca com a ideia de egrégora. A ideia de que o coletivo imaginário de uma sociedade pode criar vibrações mentais que tornam a sua imaginação em realidade. E Loki sendo a deidade das mentiras, pode moldar a egrégora ao seu bel prazer.

Na verdade, todo esse novo arco da Marvel envolvendo Loki: Agent of Asgard, Thor vol. 4, Mighty Thor vol. 2, Angela: Queen of Hel e etc. trata de conceitos do neo-paganismo e paganismo indo-europeu.

E onde eu quero chegar com isso tudo? Bom…

Se no universo dos gibis os deuses nórdicos são egrégoras (pelo menos nesses últimos arcos), porque caralhos no MCU eles são aliens? Eu geralmente não sou de reclamar quando o cinema não representa religiões direito, mas se o gibi tá fazendo certo, e até a porra do filme do Dr. Estranho tá fazendo certo, o que impede os filmes de Thor deixar o techno-babble de lado e abraçar o lado metafísico que essa série sempre teve? Eu sinceramente tenho a impressão que o techno-babble é o que está impedindo esses filmes de alcançar o seu verdadeiro potencial.

I mean… Um dos vilões mais legais da Marvel virou alien genérico número 3.

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Não importa o quanto o filme insista. Essa coisa nunca foi nem nunca será o Malekith.

Aí acabou Dr. Estranho, e a cena depois dos créditos iniciais apareceu.

É sobre o Dr. Stephen Strange, unindo forças com Thor Odinson e Loki Laufeyson para encontrar Odin, que está perdido em Midgard.

Eu GRITEI de animação, e suspirei de alívio. Será que isso significa que Thor finalmente está pronto pra deixar a sua maldita techno-babble de lado e contar histórias tão boas quanto os quadrinhos?

Sinceramente, eu espero que sim. Porque se não for isso, o filme vai sendo mais sobre o Hulk. E eu quero o meu Thor e o meu Loki dos quadrinhos na tela. Não essa putaria alienígena.

Não tenha medo de abraçar o meta-físico MCU. Acredite ou não, isso faz mais sentido que essa ciência fake que você anda jogando na nossa cara.

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Ah, e pra quem tiver curiosidade sobre meu rank de filmes da MCU:

  1. Capitão América: Guerra Civil
  2. Capitão América: Soldado Invernal
  3. Dr. Estranho
  4. Homem-Formiga
  5. Vingadores
  6. Capitão América: O Primeiro Vingador
  7. Vingadores: Era de Ultron
  8. Homem de Ferro
  9. Guardiões da Galáxia
  10. Homem de Ferro 2
  11. Thor 2: O Mundo Sombrio
  12. Homem de Ferro 3
  13. Thor
  14. O Incrível Hulk

Caralho! Caralho! Bateu uma onda forte. Tô vendo um macaco encima do poste.

– MC Dr. Stephen Strange (2016)

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