Persona 5 Um Problema de Idades?

CW: Discussão sobre pedofilia.

Persona 5 é um joguinho complicado né? Não, não mecanicamente. Ele é complicado de se falar sobre os temas. E não, não é por causa que os temas são pesados. E sim porque as mensagens que ele passa são contraditórias.

E dependendo do seu olhar, o jogo parece ter umas definições um pouco maleáveis demais do que é ou não é uma relação sexual aceitável. É uma questão complicada de um jogo complicado vindo de uma cultura complicada. E eu quero falar dessas complicações.

Spoilers adiante.

Namoros e romances em Persona são uma parte quase central da série para os seus fãs. Escolher sua personagem favorita pra namorar definirá a experiência que você contará pros outros. E a minha waifu é melhor que a sua. A guerra das waifus é real!

Não é central para a história, nem é mecanicamente incentivado. Mas é o tipo de coisa que realmente molda as experiências que cada pessoa tem com o jogo.

“Ah, eu namorei a Ann.” “Ah, eu fiquei com a Aigis.” São pedaços muitas vezes centrais para diferenciar as experiências de cada um com Persona. E Persona 5 traz isso para a sua frente mais do que nunca.

Persona 5 tem mais opções de namoro do que qualquer um dos jogos anteriores. Dos 11 Confidants (personagens com as quais você pode formar relações de amizade) do gênero feminino, 9 podem sentir atração pelo protagonista e iniciar uma relação romântica e sexual com ele.

Não. Persona 5 ainda não permite que você namore gente do mesmo gênero que o protagonista, e considerando as controvérsias ao redor do Kanji e do Naoto em Persona 4, nunca vai permitir. Mas é curioso para mim que a série não queria abordar algo tão simples quanto sexualidades diversas não tenha medo de pisar em um território muito mais delicado (e potencialmente criminoso): idade.

Pois veja. Das 9 possibilidades de romance que existem no jogo, 3 delas (ou 4, eu não tenho certeza sobre a Mifune) são mulheres adultas e profissionais tendo relações sexuais com um moleque de 16 anos de idade! Sem qualquer consequência negativa.

E eu sou obrigada a começar abordando o elefante na sala. Porque está tudo bem o protagonista tem uma relação com a sua própria professora, Kawakami, mas não está tudo bem o Kamoshida, outro professor da escola, procurar o mesmo tipo de relacionamento com a Ann, sua colega de classe?

Essa é uma das “mensagens contraditórias” de Persona 5, mas o jogo não se intimida com a complexidade da situação. Todas as 3 adultas começam relutantes em ter uma relação com o protagonista, afinal é errado. Mas logo elas podem não vir a resistir o charme do seu cabelinho bagunçado e a capacidade de ouvir e ajudar com todos os seus problemas.

Ao contrário da situação com o Kamoshida, os relacionamentos formados são genuínos (dentro dos confinamentos do jogo). Eu ja critiquei os confidants aqui antes por eles serem muito vazios, mas duas dessas histórias que estamos discutindo aqui são 2 dos poucos confidants realmente bons. E você consegue sentir algum nível de conexão e preocupação com essas mulheres.

São sentimentos genuínos, mas não reais.

Lembra que no começo de todo Persona aparece uma mensagem dizendo “Esta história é um trabalho de ficção. Qualquer similaridade com pessoas vivas ou mortas do mundo real é mera coincidência.”? Bom, o motivo disso é justamente esse. Nos lembrar que as situações que acontecem nessa obra jamais aconteceriam na realidade.

Persona 5 é a realização de uma fantasia. Fantasia de ser a pessoa mais legal do mundo no seu ensino médio. E eu não conheço uma pessoa viva que teve um ensino médio legal.

Persona 5 ignora o bullying e as crises existenciais comuns dessa idade pra partir direto pra uma história de auto-satisfação que jamais aconteceria no mundo real. Afinal de contas, quem nunca teve uma queda por uma pessoa mais velha nos seus 16 anos de idade? Com este sendo um trabalho de ficção e pura indulgência, não há nada que te impede de investir nessas quedas e ter relacionamentos que você sonhava quando tinha essa idade.

Lembrando que é um trabalho de ficção também conseguimos lembrar que, por mais que o protagonista tenha tecnicamente 16 anos de idade, a jogadora provavelmente é bem mais velha que isso.

Este é um jogo onde você É o protagonista. Ele pode não ter o mesmo gênero que você, ou a aparência que você gostaria, mas a sua identidade é a identidade dele. Você fará todas as escolhas por ele para concluir a história. Dentro desse jogo, você e o protagonista são uma pessoa só. E você provavelmente é adulta.

Você tem todas as capacidades intelectuais e emocionais de uma pessoa adulta, mesmo que a sua personagem seja mais jovem, e a não ser que a ideia da história dentro do cânon te deixe perturbada, não existe nenhum problema moral em você, adulta, “namorar” qualquer uma dessas outras personagens adultas. Você jogadora tem tanta responsabilidade emocional quanto elas.

Claro que você pode jogar Persona 5 deixando a sua própria personalidade de lado e criar uma personalidade mais condizente com um menino de 16 anos. Mas o objetivo de criação de protagonistas silenciosas é a auto inserção. E quem cria uma nova personalidade para a personagem é um ponto fora da curva.

Ou você pode SER um menino de 16 anos. Que se for o caso eu digo, pode ficar com as adultas no joguinho, só não vai encher o saco das suas professoras de verdade. Afinal estamos falando de uma ficção.

Seja como for. Tá tudo bem porque não é algo que realmente aconteceria no mundo real.

Mas as coisas ficam mais delicadas ainda, pra mim pelo menos, quando se trata de uma personagem que maioria dos fãs não da muita bola. Ou pelo menos tanta bola assim. A Futaba.

Futaba é uma das suas parceiras de roubo de corações e ela é uma florzinha delicada que EU PRECISO PROTEGER A TODO CUSTO.

Eu acredito que ela seja a personagem mais bem escrita do jogo todo e o motivo número 1 o qual eu gosto tanto de Persona 5 quanto eu gosto.

Ela é a personagem mais realisticamente frágil que eu já vi em um videogame. Ela sofreu um trauma enorme que fez com que ela se tornasse extremamente reclusa, aumentasse a sua agorafobia e fobia social, e se trancasse cada vez mais no seu quarto. Ela não come, raramente toma banho, e vive presa no seu mundo que ela mesma considera uma tumba. Ela abandonou a escola e toda a vida social. E só pensou em voltar quando os phantom thieves roubaram o coração dela e fizeram ela mudar a sua cognição do mundo.

Durante o decorrer do jogo ela tenta vagarosamente voltar a ter uma vida normal, e ajuda os phantom thieves na sua empreitada pra que ela fortaleça sua própria mente.

As habilidades dela com hacking são meio surreais, mas de novo, ficção. Ela tinha que ter algum super poder.

O fato é que ela é pequena e frágil. Tanto mentalmente quanto fisicamente. Ela tem 15 anos de idade, mas até agora não teve oportunidade de passar dos 13. Até a takemi, a médica que ajuda o grupo, diz que o corpo dela muito mal desenvolvido pra idade dela.

Como você ajuda ela a passar por todas essas coisas, na sua história de confidant ela passa a ter uma queda por você. A figura de admiração dela. O que é perfeitamente normal.

Como eu falei antes, todomundo já teve uma queda por uma pessoa mais velha. Isso porque a gente admira muito essas pessoas. E não é diferente a relação entre o protagonista e a Futaba.

A Futaba te admira. Profundamente. E confunde isso com amor. E qual a resposta apropriada pra isso?

O jogo te da escolha de namorar ela ou “rejeitá-la”. E eu acho lindo o fato de que temos a possibilidade de fazer essa escolha, justamente por enfatizar o fato de que nós temos que lidar com nossa própria responsabilidade sobre nossos atos.

Se você é uma pessoa adulta e estava jogando Persona 5 como ele foi feito para ser jogado – uma ficção de auto inserção – sua única resposta apropriada, condizente com a sua capacidade de decisão adulta, é rejeitar ela. Porque a Futaba, ao contrário das outras personagens foi escrita como uma criança frágil e inocente.

Por causa do seu status como adulta, ficar com a Futaba é paralelo a homens mais velhos tomando vantagem de garotas frágeis. Não é diferente do que o Kamoshida faz.

Dependendo de como você vê o jogo, e se você concorda comigo ou não, esse momento com a Futaba é como um teste pra ver se você entendeu uma das primeiras mensagens dele.

Mas o jogo não tem como cobrar a sua responsabilidade pois você pode estar interpretando realmente um menino de 16 anos ou ser um menino de 16 anos, onde você não teria nenhuma responsabilidade moral de rejeitar a Futaba. Então a relação acontece normalmente.

Persona 5 tem vários problemas, narrativos e mecânicos. Mas essas questões que ele traz com o namoro são interessantes.

Quem é o protagonista? Quem ele é em comparação com o resto das personagens? Quais suas responsabilidades como jogadora diante dessas personagens?

Em relação aos namoros, acho que já deixei claro o que eu acho sobre essas perguntas. Mas o que vocês acham?

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