Representando a expressão não binária

Deusa abençoe a desenvolvedora que apareceu pra falar comigo ante-ontem pedindo conselhos sobre inclusão não-binária pro jogo dela.

Sério, amiga. Sem você eu não teria o que postar esse mês no  blog (mentira, teria sim, mas eu to enrolando o máximo possível pra falar sobre o assunto que eu tenho guardado aqui comigo).

Então vamos falar sobre expressão de gênero e o que fazer pra incluir pessoas não-binárias na sua obra.

Todomundo aqui sabe o que é expressão de gênero né? Bom… Está no nome. É a forma como as pessoas expressam o seu gênero.

Na prática isso se traduz em quais roupas a pessoa veste, na maneira de falar, na sua relação com maquiagem, e até nos seus gestos e postura. E muitas pessoas trans passam bastante tempo explorando suas expressões.

O “objetivo” da expressão de gênero, para a maioria das pessoas trans, é exteriorizar sentimentos internos sobre a própria identidade, e ser reconhecida pelas outras pessoas como tendo tal identidade.

A forma mais “simples” de se fazer isso é através das convenções clássicas de gênero de acordo com a sua sociedade. Por exemplo, se na minha cultura mulheres geralmente usam vestidos, e eu desejo ser identificada como uma mulher, vou usar um vestido.

Existem vários símbolos para identificar os gêneros masculino e feminino. E esses símbolos podem ser biológicos – como seios -, ou comportamentais – como as roupas que você usa. E esses símbolos são simples de se identificar. Todos nós fomos criadas cercadas por eles o tempo todo, e temos noções bastante sólidas (talvez até sólidas demais) sobre o que é feminino ou masculino!

Nota da edição: É nesse ponto do texto que eu tive que jogar fora mais de 600 palavras porque eu notei que eu tinha uma visão muito binarista e nenhum dos meus argumentos fazia sentido. Então pensem nesse texto como uma discussão comigo mesma sobre o assunto

Okay, agora que todomundo sabe o que é expressão de gênero, vamos dizer que você é uma pessoa que quer criar alguma obra de arte visual que inclua personagens não-binárias.

Você se pergunta “como pessoas não-binárias se parecem?” e TUDO que passa pela sua cabeça como possível símbolo visual de gênero pertence ou ao gênero feminino ou ao gênero masculino. E você simplesmente não consegue encontrar meios termos! Muito menos termos neutros!

Ternos, masculinos. Mas esse corte, feminino. Mas um cabelo comprido, feminino. Mas um vestido, feminio. Maquiagem, feminino. Uma camiseta reta, masculino. CALÇAS CONFORTÁVEIS? ADIVINHA AMIGONA. MASCULINO.

Se isso aconteceu com você, existem quatro reações possíveis.

Reação 1 – MISTURA TUDO!

Jogo Massive Madness da Ninja Garage

A primeira conclusão, e a mais comum – principalmente para pessoas cis – é de que não existe forma de se expressar neutralidade.  E você só pode ter misturas dos dois gêneros. E o que você faz? Usa todas as referências que você tem de pessoas que misturam os dois gêneros!

Mas você não tem muitas referências. Não existem pessoas não-binárias na sua vida (nessa hipótese). Então a sua referência provavelmente vai ser programas de TV…

E  eu vou ser direta. A sua referência provavelmente vai ser Ru Paul’s Drag Race. E a cultura drag em geral, porque na sua cabeça, é isso que significa quebrar estereótipo de gênero! E você nem pode ver isso como problemático. Porque ou essa é a única referência que você tem, ou é a referência mais chocante que você tem.

Você pode ter todas as melhores intenções do mundo criando esse tipo de visual para as suas personagens. Mas elas vão ser quase sempre vistas como problemáticas pela maioria das pessoas não-binárias por perpetuar os mesmos estereótipos transfóbicos que a cultura drag. Que é essencialmente uma paródia das ideias de gênero.

Existem pessoas de verdade no mundo real que realmente gostam de “foder com o gênero” dessa forma chocante e chamativa que mistura todos os símbolos que eles conseguem imaginar em si próprios. Mas essas pessoas não se incomodam em ser vistas como caricaturas da ideia de gênero que elas mesmas rejeitam e criticam.

Esse tipo de “representatividade” não é representativa de verdade da expressão não binária. Só pode ser, na verdade, uma paródia.

Esse é o problema que o jogo Massive Madness da desenvolvedora Ninja Garage teve quando foi anunciado.

O Catraca Livre e o Judão divulgaram o jogo (que parece muito legal, e eu sou amiga de uma das membros do time) como passando uma mensagem de “inclusividade” e “representatividade”. Mas a galera trans não gostou! Porque isso não é representativo de nada! Quem se veste assim, quer que as pessoas ao seu redor riam e/ou se sintam desconfortáveis. E criar esse tipo de sentimento de comédia, desconforto ou questionamento não faz parte da “agenda” não-binária (muito menos trans). Pessoas não-binárias só querem existir e ser respeitadas, não chocar.

Reação 2 – Mistura um pouco.

Liniker, artista brasileiro

A segunda reação possível exige um pouco mais de nuancia e contato com a comunidade LGBT.

Aqui, você chegou na mesma conclusão que a pessoa acima. Mas você sabe dentro do seu coraçãozinho que expressão de gênero pra valer, com pessoas comuns, no dia a dia, não é zuera.

Pessoas usam jeans, camisas, vestidos. Ninguém quer ser uma paródia ambulante 100% do tempo.

Então você usa misturas de símbolos mais sutis. E você acaba criando personagens de expressão mais… queer na falta de palavra melhor.

Na grande maioria das vezes você vai acabar com personagens que seriam classificados na comunidade LGBT como “tomboys” ou qualquer variação de “twink”.

Mas se você for uma pessoa muito prafrentex você pode acabar criando visuais menos convencionais e mais misturados como o Liniker, cantor e compositor brasileiro que tem sido inspiração pra várias pessoas negras não-binárias no nosso país. Ou a Stevonie de Steven Universe.

Isso é bem melhor representativo da expressão de gênero não-binária. Mesmo que as suas personagens pareçam simplesmente “cis gays” (e eu já vou falar o porque isso não é uma preocupação que você deveria ter), é muito mais realista.

Reação 3 – Uh… Tumblr?

Não consegui encontrar a artista original. Quem souber me fala.

A terceira reação exige algum contato com a comunidade trans. E um desejo de expressar um tipo específico de não-binaridade: a falta de gênero, ou a total neutralidade.

Você pensa consigo mesma: “Existem sim roupas e acessórios que não tem gênero nenhum atribuídos a elas” enquanto visualiza suéteres, jeans e blusas de flanela (haha, flanela).

A primeira coisa que vem na sua cabeça é outro estereótipo: A adolescente entre 16 e 23 anos de idade usuária de tumblr que tem um undercut  e talvez piercing nos lábios/nariz e provavelmente gosta de furries e Steven Universe.

E… Bom… Não existe nada de errado nisso. Se esse é o tipo de pessoa que você quer representar vá em frente. Eu só queria lembrar que: usar roupas que cobrem o corpo inteiro e ter um undercut não significa imediatamente neutralidade de gênero.

Na verdade, na sociedade em que a gente vive, isso vai ser lido de uma forma bem diferente. Isso vai ser lido como masculino.

Pessoas AFAB (designadas mulheres ao nascer) que se expressam dessa forma, vão ser geralmente consideradas pela comunidade cisgênera como tomboys. E pessoas AMAB (designadas homens ao nascer) serão vistas simplesmente como… Homens.

Já pararam pra pensar que, nesse estereótipo que eu falei associado ao Tumblr quase nunca se enquadram pessoas AMAB? Eu to nessa comunidade a mais de 4 anos, e já cruzei com centenas de pessoas na internet, inclusive as que se encaixam no estereótipo, e até hoje eu só encontrei UMA pessoa AMAB que se expressa da maneira que eu descrevi acima e se identifica como trans.

Homem é o gênero neutro para o mundo patriarcal. E pessoas AMAB PRECISAM fazer mudanças mais radicais à sua aparência pra que os seus gêneros sejam levados a sério. E até que o patriarcado caia (o que provavelmente não vai acontecer) expressar neutralidade verdadeira provavelmente não será possível.

Mas é claro que as pessoas trans que se expressam dessa forma não se preocupam com a masculinidade percebida desse “look”. Para elas, roupas não tem gênero. Nem seus corpos. Porque elas em si não tem.

Reação 4 – …

A última reação que você pode ter é vir perguntar pra Felicia porque ela é um gênio do gênero e ela sabe de tudo!

Ou você pode simplesmente… Sabe… Tratar gente não binária como pessoas. Porque é isso que nós somos. Pessoas.

Cada pessoa vai ter influências diferentes na sua vida. Gostos diferentes. Referências diferentes. E gêneros diferentes. Não existe apenas um gênero “não binário”, assim como não existe apenas uma pessoa não binária.

A expressão de gênero da pessoa X pode ser fortemente baseada na moda japonesa, enquanto da pessoa Y pode ser baseada em ancestralidade congolesa.

Gênero é uma construção social. Que se forma a partir de pessoas interagindo com pessoas. Não existem absolutos.

“Como eu crio representatividade não binária?” é a pergunta errada. A pergunta certa é “como eu crio pessoas?” Pessoas com os seus próprios sonhos, medos, anseios e personalidades. Você não deveria se preocupar tanto com “como uma pessoa não binária deve se parecer” e sim como ESSA PESSOA ESPECÍFICA deve se parecer.

Então. Não. Não venha perguntar pra Felicia o que ela acha disso. Pergunte pra sua própria personagem. O que ela gosta de vestir? Como ela gosta de falar? Por quê?

É assim que se cria personagens não binárias. É assim que se cria pessoas.

Obrigada por lerem, e obrigada em especial pra quem tá dando apoio pro blog via Patreon! Incluindo nossa Bruxa da Floresta do Norte, Beto Thiago Alves.

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