Eu Sou Um Produto – diar.pt2

Sabem como eu tava planejando terminar o hiato do blog? Com um post sobre a ContraPoints, e consequentemente, sobre a Natalie Wynn, e fazer alguns comentários sobre o que a morte do autor significa na era do youtube. Mas com toda a minha paranoia sobre privacidade e objetificação (descrita aqui, leia antes de prosseguir, por favor), eu não acho mais que eu tenho qualquer direito de me meter no trabalho da Natalie. Porque ser uma mulher trans na internet…

Não.

Ser uma mulher trans em público é uma bosta.

“É isso mesmo! Tem que botar a cara a tapa!”

Por quê? Não posso reservar tapas na cara pra quando eu tiver na cama com uma pessoa que eu gosto? Tenho mesmo que levar tapa em público?

Eu não sou uma pessoa ambiciosa. Meu maior sonho é me casar e constituir família numa casinha pacata e viver uma vida pacata, com os únicos problemas que eu teria que lidar seria dificuldade pra pagar conta e problemas dos meus filhos na escola. Eu não quero ser revolucionária, não quero ser CEO, não quero ter grandes riquezas nem destruir o capitalismo (apesar que isso seria bom). E quando eu penso em grandiosidades filantrópicas como criar uma instituição de caridade para pessoas trans usando a Wicca como frente do projeto elas não passam de fantasias pra mim. Eu só quero cuidar do meu jardim, dar aula, abraçar meus futuros filhos. Isso não devia ser tão difícil. Meus pais conseguiram. Os pais deles conseguiram. E os antes deles. Mas eu nasci na pior crise econômica do mundo desde a grande depressão… E eu nasci trans. E não escondo minha transgeneridade.

O meu principal objetivo quando falando de transgeneridade pra pessoas cis é tentar explicar pra elas que não existe absolutamente nada de diferente entre nós. Nós somos pessoas. Pessoas passando pro processos de auto conhecimento, auto melhoria, auto mudança, constantemente. Todas as pessoas na Terra passam por isso. Só que alguns desses processos, por acaso, acabam resultando em uma troca de gênero. Assim como outras pessoas trocam de emprego, não deveria ser um “big deal”.

Mas as pessoas cis (“aliadas”) insistem em nos ver como diferentes. Elas insistem em dizer que existe uma “cultura trans” ou que nós somos “seres preciosos” ou que nós “sofremos demais”, toda maldita vez caindo num protecionismo que nos trata como crianças. E nessa última semana eu tive oportunidade de ouvir todas essas coisas quando em duas ocasiões diferentes eu fui na frente das pessoas pra falar sobre ser trans.

E, bom, a história já começa errado né? Por que eu tenho que ir falar sobre ser trans, e não simplesmente sobre ser gente? E por que quando eu falo sobre minhas experiências eu sou constantemente tratada como “o outro”?

Mesmo que o capitalismo não estivesse preocupado com minha mídia social, por eu fazer parte de uma minoria, eu sou tratada como objeto até no mundo analógico. Eu sou um estudo. Uma joia preciosa. Sou diferente. Sou consultoria simplesmente por existir.

Minha existência, por ser parte de uma minoria em público, é usada pra lucro intelectual e político de outras pessoas que me “convidam para ter um espaço de fala”. E eu não quero implicar que essas pessoas tem intenções egoístas ou de qualquer forma ruins, mas querendo ou não eles lucram com a minha simples existência da mesma forma que o Google e o Zuckerberg lucram. E me pergunto, porque há necessidade da existência de “espaços de fala”? Todas essas oportunidades podem ser boas, mas não deixo de acreditar que a necessidade dessas oportunidades existirem, e o tipo de capital social que isso gera pra quem cria esses espaços, mostra algo de muito errado no mundo.

Dia 18 eu fiz parte de uma roda de conversa sobre revisão dos mistérios mágicos na bruxaria pra incluir pessoas trans. E eu tinha um trabalho pronto ótimo pronto pra falar sobre arquétipos, yin e yang, as sete leis herméticas, trabalho elemental, etc… Mas estando cercada de gente cis (algumas completamente perdidas no assunto) eu acabei precisando jogar todo o meu conhecimento de bruxaria fora pra ter que gastar 50 minutos justificando a minha existência. E explicando que eu não tenho absolutamente nada de diferente de pessoas cis.

Por você ser uma minoria em público, as pessoas da maioria, mesmo que muito bem intencionadas, esperam que você seja o representante dessa minoria. “É uma coisa revolucionária que você está fazendo pra nossa religião hoje.” Tá, mas eu não pedi pra ser revolucionária, eu só pedi ajuda pra adorar a Deusa.

É tentador pensar que eu mesma criei essa situação pra mim mesma porque eu não sou stealth. Porque eu criei um blog. Porque eu não me escondo. Porque eu escolhi virar bruxa. Mas essas coisas não deveriam ser justificativas pra que a minha existência se tornasse moeda política.

Talia May Betcher fala sobre isso no ensaio “Quando Mesas Falam: Sobre A Existência da Filosofia Trans“. O quão absurdo que pessoas trans, quando cercadas de gente cis, tem que encontrar uma forma de se justificar por existir? Ela foi convidada para contra argumentar o discurso de uma TERF que acabou ganhando popularidade na internet, e ela fez a coisa mais corajosa que uma pessoa de minoria poderia ter feito: Se recusou a engajar na retórica cis pra falar sobre o absurdo que é existir uma retórica cis e uma retórica trans.

Meu Corpo É Político, filme de 2017 por Alice Riff com Linn da Quebrada

Não existe jargão que eu odeio mais do que “meu corpo é político” e sinto repulsa quando usam essa frase. Menos quando usam se referindo a mim. Nesse caso eu sinto vontade de socar a pessoa. É meu corpo, caralho. Eu escolho se ele é político ou não, filho da puta.

Mas eu não escolho. Eu sou uma minoria. Minha vida está sendo manipulada por forças inconscientes da sociedade, que assim como a mão invisível do mercado faz com que as pessoas se tornem produtos, faz com que eu me torne moeda política pras pessoas cis ao meu redor.

Eu não tive escolha de ter uma existência política ou um corpo político porque eu não tenho privilégios o suficiente pra não ser tratada como objeto. E me pergunto se faz diferença ser tratada ou não como objeto no mundo analógico se no digital eu já sou.

Todos os semblantes de liberdade na minha vida se esvaíram a partir do momento que eu lido com a sociedade. Dentro do armário eu era manipulada de um jeito, fora dele sou manipulada de outro. Até esses meus devaneios vão gerar dinheiro pro wordpress, pro google, pro facebook, pro twitter, pro caralho que for. E depois disso vai gerar capital político pra qualquer pessoa cis que resolver compartilhar ele por qualquer motivo que seja. Sendo parte de uma minoria em público, a minha existência se resume ao quanto eu “represento”.

Mas na percepção de que pra sociedade de forma em geral eu não passo de um produto de propaganda com a identidade visual da minoria que eu faço parte, eu posso escolher que tipo de produto eu que tipo de ideia meu símbolo vende, mesmo que não seja para meu próprio lucro.

Se eu não tenho a escolha de não ser usada pra política, eu vou me usar pras políticas que eu acredito que sejam importantes. Então eu vou continuar dando capital político pras pessoas que me convidarem pra argumentar minha existência, porque no final das contas, se a moeda certa for passada, o mundo vai mudar para melhor pra mim. Eu só preciso estar disposta a ser uma manipuladora também.

Como eu já disse no texto anterior, o capital destruiu nossa capacidade de confiar. Umas nas outras e em nós mesmas. Se tornar uma manipuladora pode até mudar o mundo de forma superficial, onde as pessoas ganham seus “direitos” e o mundo se torna mais “justo”, mas nada disso mudaria a estrutura de poder, a rede de manipulação, ou destruiria a maldita da mão invisível. Se você quer acabar com essa rede de merda, você precisa, ativamente, se desvencilhar dela. E eu não to falando de ir morar no mato, necessariamente (apesar de que esse provavelmente é o único jeito de não fazer parte disso).

Eu digo, criar outra rede, isolada da anterior, onde não existe política e você simplesmente “é”. Onde é possível encontrar seus verdadeiros desejos pra depois aplicá-los no mundo do capital. E essa rede é uma rede de confiança e amor, que não precisa ser analógica – pode ser no Telegram ou outros circuitos criptografados. Mas precisam ser redes de perfeita confiança.

Termino o texto então indicando um jogo pra treinar e refletir a ideia da confiança. E boa sorte pra gente que a gente vai precisar.

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