Identidade Miserável – diar.pt3

Oi. Meu nome é Felicia Guerreiro, eu sou uma dedicada wiccana, blogueirinha gamer, pessoa não-binária transfeminina, ginossexual, e eu acredito que tudo que eu te falei agora significa a mesma coisa que bosta nenhuma sobre quem eu “sou”.

É. Esse vai ser mais um daqueles posts de crise existencial envolvendo o capitalismo tardio.

Mas acho que esse tipo de crise existencial acontecia também em outros sistemas político-econômicos. Então vamos falar disso. E usar Os Miseráveis como exemplo do porque “ser” é algo tão confuso.

Javert é a coisa mais próxima de um “vilão” que existe nos Miseráveis. Ele é o “braço da lei” da França napoleônica – possivelmente um dos governos mais hipócritas na história do mundo até a eleição do Donald Trump. E ele parece ter muita certeza de quem ele é, ao contrário do protagonista, Jean ValJean.

Javert e Jean ValJean existem num lugar interessante da história entre o feudalismo e o capitalismo. Victor Hugo estava na vanguarda de artistas e filósofos brancos que se perguntavam “o que significa ser X?” Com esse X não só geralmente sendo algum tipo de identidade nacional, mas também uma identidade de classe. Esse tipo de questionamento na verdade já existia desde a Grécia Antiga, mas houve uma pausa nessa crise existencial generalizada quando as pessoas começaram a ter crises existenciais sobre religião em vez de simplesmente “ser” alguma coisa.

Claro que não são só branquelos que tem crises existenciais sobre identidade. Africanos, especialmente aqueles traficados por gente branca ao redor do mundo como animais, já estavam se perguntando “o que significa ser X” bem antes do Victor Hugo aparecer, falando tanto de nacionalidade quanto classe e raça. Pessoas pretas alfabetizadas já estavam propensas a escrever sobre esse tipo de coisa antes dos branquelos porque a vida delas era constantemente feita num inferno por essas pessoas brancas.

Mas o Victor Hugo é branco. A pira é que ele existiu na época que pessoas brancas alfabetizadas começaram a realmente transformar a vida de outras pessoas brancas alfabetizadas num inferno.

Antes da Revolução Industrial era fácil dizer “eu sou X porque eu nasci em X”. Fronteiras eram o limite da sua identidade porque elas eram o limite da sua vida. Chegar até outro país, ou mesmo até outra cidade, era difícil. Você tem que pegar cavalos, caminhar pra caralho, passar frio e passar fome. Se identificar com a comunidade na qual se vive é simples e automático. E se você tem contato com outras comunidades é geralmente no contexto de troca ou guerra. Ambos os contextos tendem para a interpretação de que “minha comunidade é melhor do que as outras” porque a sua comunidade está sempre querendo tomar vantagem da outra e conseguir o melhor negócio.

Mas tudo isso mudou quando a nação do fogo atacou a gente começou a criar meios de transportes diferentes. Com a rápida aceleração das viagens ao redor do globo e a colonização europeia do resto do planeta, fronteiras foram perdendo significado.

Com pessoas de várias etnias nascendo em lugares que não eram os países de origem de tais etnias, e às vezes transando entre si e tendo filhos de etnias não tão claras, elas tinham que decidir “eu sou americana, sul africana, zulu, ou inglesa?” Considerando a relativa facilidade de ir de um lugar pra outro, a ideia da identidade de berço não colaria mais.

A revolução industrial deixou as coisas um pouco piores nos arredores da própria Europa porque nesse momento nem a nobreza tinha mais desculpas genéticas para manter algum senso de identidade (nunca teve, mas enfim). “Qualquer” pessoa podia comprar um título com as nobrezas em falência ao redor do continente e ser um duque em 30 países diferentes.

Eu não vou nem fingir que entendo Hegel, porque a maioria das pessoas graduadas em Filosofia não entendem Hegel. Mas eu sei o que o Oliver Thorn tentou me traduzir sobre Hegel nesse vídeo maravilhoso. E todo esse papo da mentalidade de Mestre contra Escravo me faz pensar que… Europeus dependem muito de agressividade pra determinar as suas identidades. A história da Europa é feita ao redor de guerras que só existem por conta de identidades arbitrárias baseadas em raça e nascimento em um pedaço de terra específico que alguém decidiu demarcar antes das pessoas em questão nascerem.

Essa história de violência basicamente é a fundação de todas as identidades que surgiram daquele cuzinho do planeta ao redor do mediterrâneo que adorava se matar.

Voltando pros miseráveis, Javert é francês. Ele se considera francês, entretanto, não por ter nascido no barro que a gente chama de “França”, mas pela sua lealdade à bandeira e por lutar contra qualquer pessoa que desafie a lei da… Bandeira.

Identidade nacional, em algum ponto na história do “ocidente” deixou de ser sobre terra pra ser sobre um sentimento impossível de se definir, mas possível de se ilustrar com símbolos. E isso era o suficiente para o povo que não andaria de trem ou carruagens tão cedo nas suas vidas. Ainda mais soldados que eram obrigados a fazer algum tipo de juramento a esses símbolos e criar significados em cima deles que garantissem lealdade, não à autoridade, mas ao símbolo.

Mas isso ainda não resolve as ansiedades da burguesia. Burgueses são pessoas nojentas que merecem virar comida? Sim, mas ainda são pessoas. E como todas as pessoas, eles são seres sociais que tem necessidade de fazer parte de uma comunidade e se sentir especiais. Mas a noção de “especial” na Europa e nos lugares observados por Hegel sempre envolvem fazer outra pessoa se sentir miserável.

HAH! Botei o nome do livro no meio do parágrafo de forma natural!

Pra quem identidade nacional não faz mais sentido, identidade de classe começou a entrar em voga. Algumas pessoas são donas dos meios de produção, e outras produzem. As donas dos meios de produção, entretanto, na necessidade de identificação começaram a criar justificativas para o seu sucesso. Se tornando assim capazes de se masturbar mentalmente em conjunto com seus colegas podres de ricos.

“Nós não temos sangue azul, obviamente. Mas somos claramente superiores às massas. Nossos narizes finos e crânios desenvolvidos provam nossa superioridade sobre o povo” era a narrativa popular entre os séculos XVIII e XIX pra burguesia que sentia falta de fazer parte de uma terra propriamente dita. A sensação de superioridade cria agressão contra outros grupos. Combina isso com a necessidade da burguesia de controlar o povo, e o framework para iniciar o abuso emocional e as manipulações características do capitalismo surge. O mestre e o escravo estão claros.

Os papeis de “mestre” e “escravo” continuaram tão bem definidos quanto sempre foram desde as primeiras monarquias. Mas com a revolução industrial, mais pessoas são capazes de ler e escrever, e a classe trabalhadora também ganha acesso a trens e navios. Quando você sabe o que a palavra “escravo” significa – e quando você se toca quando você é um – não costuma ser uma notícia muito bem vinda. E nesse momento, um milhão de escravas negras nas Américas tocaram um milhão de violinos minúsculos pras trabalhadoras europeias.

Mas é mais fácil controlar a escravidão quando ela não é tão jogada na cara quanto era como com as africanas. O soldado já foi conquistado com o cultivo da identidade nacional e os seus símbolos na forma de juramentos de lealdade. Mas o resto da classe trabalhadora precisaria de outra história. E a história escolhida foi a de que com trabalho suficiente, qualquer pessoa poderia subir na vida e se tornar parte da elite. É assim que, mesmo cientes das suas situações de escravas, as trabalhadoras do capitalismo foram mantidas dóceis.

Peter Coffin, um filósofo marxista moderno que não só tem um canal no YouTube como também um livro (e todo mundo sabe que ter um livro publicado legitima os seus argumentos) chama esse processo de usar identidades que já existem para alimentar uma agenda elitista de “cultivo de identidade”.

Coffin é um dos meus filósofos favoritos, e ele é o motivo de eu estar escrevendo esse texto, mas eu sou obrigada a discordar da ideia de que não existem identidades artificiais. A elite não simplesmente cultiva identidades, ela às cria.

No musical, quando ValJean e Javert estão lutando no hospital onde Fantine morre, os dois homens tem uma discussão onde é revelado que ambos tem basicamente a mesma história de vida, mas por circunstâncias maiores que eles mesmos, um deles acabou preso. ValJean subiu na vida graças as bênçãos de Deus, e Javert acredita que o mesmo aconteceu com ele. ValJean reconhece que eles são pessoas extremamente parecidas, e Javert o odeia por isso.

ValJean é um homem pobre, escravizado pelo sistema que por sorte literalmente recebe dinheiro jogado no seu colo pelas mãos de Deus. Com esse dinheiro, ele muda a sua identidade. Troca de nome, roupas, faz a barba, compra uma fábrica e se torna prefeito de uma cidadezinha perto de Paris sob o título de “Monsieur Madeleine”.

Nos olhos de uma burguesia menos… fictícia, Jean ValJean seria visto como um homem inferior, o seu nariz seria grande demais e seu crânio muito pequeno para fazer parte da Elite. Mas quando ele ganha o nome de Monsieur Madeleine, seu nariz magicamente “diminui” e o seu crânio “cresce”. Ele faz parte da elite agora, e todos os atributos fictícios associados à elite da época são atribuídos a ele, mesmo que na realidade absolutamente nada tenha mudado a não ser a quantidade de dinheiro na sua conta bancária e que agora ele é dono de um meio de produção.

A identidade de Monsieur Madeleine foi construída ao redor de ValJean. Ele não é um homem de “raça pura”, mas é identificado pela burguesia francesa como um dos seus. O que indica que essa identidade… É merda de vaca. 171. Abobrinha.

O presente dado por Deus pra Javert foi menos material e resultou numa mudança menos radical, mas ainda foi a criação de uma identidade que não existia antes.

Ele era um menino miserável, exatamente igual a ValJean, mas foi manipulado a entrar para o exército e se tornar um oficial da lei. Ele tinha todas as condições necessárias para se tornar um ladrão, exatamente igual a ValJean, e nos olhos da sociedade ele era um homem de crânio pequeno e nariz grande demais para ascender socialmente, exatamente igual à sua contraparte. Mas Javert ganhou uma narrativa: Dever divino para com a sua nação e promessa de ascensão social.

Ele é um pobre fodido, mas ele acha que merece ser um pobre fodido, e que as pessoas acima dele merecem ser ricaços poderosos. Então, se ele lamber botas o suficiente, ele pode ganhar poder o bastante pra deixar de ser simplesmente um escravo e se tornar um escravo com outros escravos. Ele sabe que não é parte da elite, mas é levado a acreditar que é parte de algum tipo de “sub elite” que fica entre os trabalhadores e os líderes da nação. Isso não é estranhamente familiar?

Fazer pessoas de um grupo oprimido, mas nem tanto, acreditarem que na verdade eles fazem parte da elite é fascismo básico. Antes da igreja se tornar irrelevante, as narrativas de dever divino e ascensão social se misturavam muito bem, e foi, na verdade, a fundação da ideia de “Destino Manifesto” e do Ku Klux Klan nos Estados Unidos. E de alguma maneira assustadora está voltando no Brasil na forma do movimento bolsonarista.

Seres humanos precisam fazer parte de um grupo, e precisam se sentir especiais. A elite fabrica identidades para si mesma e para as pessoas que não fazem parte dela que precisam suprir essas necessidades. O governo francês fabricou a ideia de ascensão social e do “braço da lei” para Javert. E o próprio DEUS CRISTÃO – a maior elite de todas – fabricou riqueza e um nome novo para ValJean.

No final do primeiro ato, entretanto, ValJean realiza que essa identidade é uma mentira. E que na verdade todos os títulos que ele poderia usar para interagir com a sociedade são mentiras porque, querendo ou não, independente da construção feita ao redor dele pelo dinheiro de Deus, ele ainda é Jean ValJean. Não Monsieur Madeleine.

Enquanto ValJean tem uma epifania de identidade pessoal no final do primeiro ato, Javert tem uma epifania de identidade social no final do segundo ato.

Ele nota que não há absolutamente nada de diferente entre ele e ValJean. Ambos são servos de Deus com as melhores das intenções, e ambos são trabalhadores sendo explorados por uma classe elitista.

Ao contrário de ValJean, entretanto, que aceita que a sua nova identidade é uma mentira e jura se tornar uma pessoa honesta diante da injustiça do mundo, Javert simplesmente se mata.

Javert não recebeu um presente repentino que criou uma identidade ao seu redor. Ele recebeu uma narrativa que moldou a sua identidade de dentro pra fora. Realizar que isso é uma mentira, significa realizar que a própria vida é uma mentira. Morte é a única certeza da vida, então se ela é uma mentira, a morte deve ser a única verdade. Morte, portanto, é a única resposta para a sua crise existencial.

Eu não sei quem disse isso, e eu não to conseguindo achar a fonte, mas existe a frase “O homem branco encontra liberdade no nazismo”. Obviamente a França napoleônica não era nazista, mas as táticas usadas para coagir uma classe semiprivilegiada para os ideais da militarização são os mesmos em todo governo autocrata.

A liberdade de Javert é a liberdade de não precisar pensar. De ser validado pelos símbolos da sua nação e pelas leis que nela existem. A sua identidade de um homem europeu com baixos níveis de melanina que nasceu num lugar chamado “França” é cultivada para criar lealdade. A lealdade é usada para criar uma identidade de “braço da lei”, que cultiva ainda mais símbolos, do exército, e nos dias de hoje, da polícia, para ser cultivada mais tarde na forma de violência contra quem não se conformar com esses símbolos.

O que o nazismo e o fascismo de forma geral fazem é transformar a cor da sua pele em uma identidade igualável a das pessoas da elite, mas sem realmente te deixar entrar na elite. A forma como o fascismo extrapola todas essas táticas já foi explicada por Ian Danskin e ele fez um trabalho melhor do que eu jamais faria, então não quero simplesmente repetir o que ele disse.

Mas é interessante lembrar que essas táticas não são exclusivas do fascismo. O cultivo e a criação de identidades existe onde quer que existe gente com poder e motivos para controlar gente sem poder.

Enquanto ter pouca melanina no corpo não é uma performance, ser branco é. A definição de “branco” mudou com o decorrer dos anos. E o que é considerado branco hoje é muito diferente do que era considerado branco nos Estados Unidos em 1860. E o que é branco no Brasil definitivamente ainda não é branco pra lá.

Claro que com a Segunda Guerra Mundial, essas identidades baseadas em violência contra grupos diferentes dos seus acabaram saindo de moda. Mas outra coisa acabou acontecendo para mudar a percepção das pessoas de identidade. E tem muita coisa que eu quero falar sobre identidades cultivadas no capitalismo moderno onde existe tecnologia da informação e marketing, mas vai fugir totalmente do tema dos Miseráveis. Vamos deixar pra falar sobre crises existenciais no capitalismo moderno outra hora.

Obrigada por me acompanhar na minha reflexão sobre como os jogos de poder, acabam definindo nossas identidades. Se esse tipo de assunto te interessa, considere dar uma olhada no meu catarse ou fazer uma doação individual no PayPal. Qualquer um dos dois ajuda pra caramba.

Ou mostre pros seus amigos. É sempre legal ser reconhecida.

Seja como for, vejo vocês na próxima crise existencial. Beijos. Amo vocês.




PS: Ah, a propósito. Vocês provavelmente notaram que eu to investindo pesado no visual de glitch art e VHS. O que acham? Comentem aí.

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