Jornadas ao Inferno no Samhain de 2019

Feliz ano novo, filhas da Deusa!

Sou eu mais uma vez lhes trazendo bênçãos celestiais em forma de joguinhos e mitos modernos que recontextualizam a Roda do Ano neo pagã para a vida urbana da lésbica milenar. E hoje é dia de Samhain, o último e o primeiro dos Sabbaths. O mais famoso de todos, e o mais complexo na nossa mitologia.

Quando cai a última noite de outono, os espíritos visitam o mundo dos vivos. Espectros choram e gritam de dentro das florestas escuras e dos cemitérios vazios. As pessoas botam lanternas assustadoras feitas de nabos e abóboras ao redor das suas casas junto com velas e simpatias pra que nenhum espírito invada os seus lares. Ninguém sai de casa, e ninguém ousa perturbar essa noite de festa no inferno… Bom, ninguém exceto as bruxas.

Os celtas chamavam essa noite de Samhain, mas os cristãos chamavam pelo nome mais conhecido nos dias de hoje – véspera de todos os santos, ou, Halloween.

Os dias 31 de outubro e 1 de maio são os momentos onde os véus entre esse mundo e o mundo além estão mais fracos, e com frequência, aquelas com capacidade de enxergar o véu, atravessam ele de sua própria vontade.

Quando isso acontece ao fim do outono, são os mortos que surgem para interagir conosco. Por isso bruxas do hemisfério sul comemoram o Samhain no dia 1 de maio.

E não é a toa que esse dia ficou conhecido como Dia das Bruxas. Provavelmente é a noite onde nós somos mais ativas o ano todo. Muitos significados mitológicos são atribuídos ao Samhain, e os quatro principais são: o sacrifício, o culto aos ancestrais, a jornada pelo inferno, e a perda.

O sacrifício

Talvez você tenha notado que os dois sabbaths anteriores tratavam de colheitas. Primeiro houve a colheita dos grãos, onde o Deus se sacrificou, na forma destes grãos, para criar o pão que sustenta a nossa vida.

Depois, houve a colheita das frutas. Mais tranquila e menos energética que a anterior, colhendo os alimentos mais fáceis de comer e tomando proveito da sua luta.

E agora no Samhain temos a última colheita. A colheita da carne.

Muitos animais não sobreviverão o inverno, e nós não sobreviveremos o inverno também sem uma dieta rica em gordura. Os animais mais fracos – e com gordura o suficiente para nos aquecer durante o inverno – serão caçados e sacrificados pelo nosso sustento. E aqui o Deus, que é todas as coisas selvagens que vivem da terra, se sacrifica pela última vez. O Deus está morto agora, e não haverá colheita até o seu renascimento.

Neste mito da última colheita aprendemos uma das lições mais difíceis da vida: Tudo um dia há de morrer. E com frequência, é nossa responsabilidade escolher o que morre e o que vive. Essa vaca mais velha não sobreviverá o inverno e nós precisamos da gordura dela. É triste, mas é a realidade.

Talvez a realidade do sacrifício rural não seja uma boa ilustração pra lésbica urbana, mas ainda existem sacrifícios dolorosos que com frequência precisamos fazer.

Você sacrificará a sua vida tranquila na casa dos seus pais para morar sozinha? Sacrificará o namoro que não está mais dando certo pelo seu próprio bem estar? Sacrificará seu animal de estimação pois o sofrimento dele chegou num ponto insuportável? Sacrificará seus valores pelo bem de um emprego? Ou seu emprego pelo bem dos seus valores?

Não existe resposta fácil para esse sacrifício final. Os grãos sempre se clonam. As frutas sempre crescem de volta. Uma vida, entretanto, jamais retornará. E algumas coisas simplesmente precisam terminar para que possamos seguir em frente.

O Culto aos Ancestrais

No Samhain os mortos visitam os vivos, e os vivos (que tem coragem para tal) visitam os mortos.

Cultuar os ancestrais é importante para que compreendamos as nossas origens, e aprendamos com os erros e acertos dos nossos antepassados. O que passou passou e não temos como voltar atrás, mas temos como olhar para trás e aprender a fazer melhor.

Quem nos ensina sobre mensturação geralmente são nossas mães, e as mães delas ensinaram elas, e as mães delas também ensinaram elas e assim foi desde que a humanidade começou a andar em duas patinhas sobre o solo africano milhões de anos atrás. Nossos ancestrais nos ensinaram tudo que faz a nossa sociedade boa nos dias de hoje. Nos ensinaram sobre remédios, ferramentas, como olhar o movimento das estrelas, plantar nossas comidas e organizar nossas sociedades. Entretanto nossos ancestrais também nos trouxeram as piores coisas da vida moderna. Guerra, hierarquias, dinheiro, escravidão.

Cultuamos nossos ancestrais afim de nos comunicarmos com eles. Aprender onde eles acertaram e onde eles erraram. Para melhorar o nosso próprio futuro e o futuro daqueles que virão depois de nós quando nós mesmos nos tornarmos ancestrais.

Com frequência, procurando a história da sua família, você provavelmente encontrará histórias incríveis de superação, histórias ainda mais incríveis de declínios, livros de receitas, superstições que sua bisavó acreditava, alguma fofoca que nunca foi resolvida, e as vezes até alguma riqueza material.

Na Wicca, entretanto, não acreditamos que a família de sangue são os nossos únicos ancestrais. Temos os ancestrais de sangue, é claro, mas também existem os ancestrais da arte que são aquelas bruxas que praticavam bruxaria antes de nós e continuam nos ensinando além da vida. Os ancestrais da Terra, que cuidavam do lugar onde nós nascemos muito antes da gente se quer existir e nos ensinam a respeitar a terra. E finalmente, os ancestrais do coração, que são aqueles que já se foram com quem compartilhamos um sentimento especial.

Os que vieram antes de nós sempre terão algo que nos ensinar. Seja para o bem ou para o mau. Em particular, meus ancestrais de sangue me ensinam sobre a história desse país, sobre os escravos pretos e pretas que foram torturados e massacrados por pessoas que compartilhavam da minha pele pálida. Os meus ancestrais da arte me ensinam sobre a magia indo-européia e mediterrânea sobre acender velas e incensos e clamar pelos poderes dos deuses antigos. Meus ancestrais da terra me ensinam a amar o lugar de onde vim e protegê-lo de quem poderia vir a destruí-lo com seu imperialismo. E meus ancestrais de coração me ensinam que jogar tijolo na cabeça de policial é belo e moral.

A Jornada Pelo Inferno / Iniciação

O samhain é quando as bruxas e os heróis visitam o inferno – a parte mais escura da realidade, onde todas as partes mais horríveis da humanidade são armazenadas – para recuperar o elixir da vida. Adquirir um grande conhecimento que trará luz para o seu povo mais uma vez depois de um período de grande sofrimento.

A gente costuma desejar um Feliz Samhain pras pessoas, mas o Samhain não é exatamente o que pode ser chamado de feliz. É, afinal de contas, o sabbath da morte. E a morte, do que quer que seja – de uma vida ou se um conceito – causará sofrimento. Na escuridão do Samhain, nós procuramos reconhecer as nossas dores. Abraçar elas. E ninguém passa por essa jornada pelo submundo intacto. É onde desenterramos traumas para aprender com eles. É onde olhamos bem fundo nos olhos do nosso sofrimento e dizemos “eu sou mais do que você”.

Uma vez por ano todos os fantasmas do passado se fazem presentes diante dos nossos olhos, e nós não temos escolha se não encarar esses fantasmas com dignidade, se não, é bem capaz que eles nos levem com eles de volta para o lugar de onde nenhuma alma escapa.

E sobreviver esse encontro com a morte – encarar os portais do passado e voltar viva para o mundo real – te torna forte e poderosa como poucas coisas fazem na vida.

A Perda

Mas no final das contas, tudo isso tem a ver com perda. Perdemos coisas nas nossas vidas, pois a experiência humana acontece em linearidade do passado para o futuro, e somos simplesmente incapazes de compreender empiricamente todas as dimensões do tempoespaço. O que está no passado está no passado, e o que está no passado não poderá retornar. Perdemos aquela vida, aquele amor e aquela oportunidade para todo o sempre. O único caminho que temos a percorrer é para frente, e isso é extremamente doloroso quando temos consciência de que poderíamos ter feito melhor.

Mas não podemos.

Perdemos coisas constantemente. E quando essa coisa tem valor emocional, lágrimas tomam conta dos nossos olhos, soluços dos nossos pulmões, e sofrimento nas nossas cabeças.

Samhain nos ensina a sacrificar coisas que não podemos mais ter de volta. Samhain nos ensina a reverenciar as histórias que aconteceram no nosso passado. Samhain nos ensina a encarar os fantasmas do passado e sair disso mais fortes. E no final das contas, o Samhain nos ensina que definitivamente, o que está no passado jamais poderá retornar. E tá tudo bem.

A vida é feita de perdas e conquistas. Se só existissem conquistas, eventualmente não existiria mais nada a ser conquistado.

O Mito Moderno

A Deusa e o Deus estão ficando inevitavelmente mais velhas no decorrer do seu relacionamento. Mas o tempo tudo consome. O Deus fará seu sacrifício final esta noite.

Ele arruma a casa, bota comida pros gatos, faz um banquete pra ele e a esposa com tudo que ambos tem direito, e beija ela pela última vez. Elas dançam, e fazem seu último amor. Mas a Deusa não consegue controlar suas lágrimas. Ela sabe o que isso significa.

Elas se retiram para a cama. O último “boa noite” é dado. Mas a Deusa não dorme. Ela fica olhando para o seu esposo, em prantos, enquanto ele vagarosamente vai deixando este mundo.

Nesta noite a Deusa sofre. Ela perde o seu amor. Aquela que ela havia criado para expressar o seu amor infinito por si mesma e toda a sua criação.

Ela compreende, entretanto, que por mais que o Deus seja temporário, o Seu amor é eterno. E ele há de retornar logo para que mais uma vez ela possa reconhecer seu próprio amor.

Até lá, ela senta numa cadeira e começa a tricotar, sozinha, enquanto cuida dos seus gatos. E espera que o ciclo comece mais uma vez, como fez todas as vezes, e como continuará fazendo.

Hellblade: Senua’s Sacrifice

A parte que mais me toca no mito de Samhain é o sofrimento da Deusa pelo amor perdido. E é justamente por esse sofrimento que passa Senua no jogo Hellblade: Senua’s Sacrifice, lançado independentemente em Agosto de 2017 pela Ninja Theory para Windows PC, Playstation 4, e eventualmente Xbox One.

Em uma invasão viking, Senua perde o amor da sua vida, Dillion. O único homem em todo o vilarejo que compreendia o quão diferente ela era sem jogar desculpas em espíritos malignos invadindo a sua mente. Então, ela decide ir até o próprio inferno viking, Helheimr, para recuperar a alma do seu amante.

É um jogo de horror psicológico, extremamente difícil de se jogar se você não está mentalmente preparado. E considerando que a protagonista sofre de vários sintomas psicóticos, talvez não seja o jogo mais apropriado para pessoas que sofrem de psicose já que pode ser um gatilho para que os sintomas se apresentem na realidade.

Muitos jogos tratam de morte, mas poucos deles tratam da tragédia que a morte de um ente querido pode realmente ser na vida de uma pessoa da forma como Hellblade faz.

Hellblade toca não apenas no sentimento de perda, mas em todos os aspectos que dizem respeito ao Samhain.

Pra começar, ela é uma picta – um povo antigo que vivia no norte da Escócia e servia como ponte cultural entre celtas e nórdicos. Durante todo o jogo, ela se lembra de histórias contadas por Druth, um homem celta que ela conheceu numa das suas fugas pra floresta que outrora havia sido um escravo dos vikings. E essas histórias que ele conta não são sobre os seus deuses celtas, mas sobre os deuses dos seus opressores, que Senua poderia usar para resgatar a alma do seu amado.

Então ela sofre a perda do seu amante, venera as histórias ancestrais para aprender o que fazer dali pra frente, viaja pelo próprio inferno enquanto encara todos os fantasmas do seu passado, e eventualmente, realiza um sacrifício (que é spoiler, mas se você conhece a Jornada do Herói, já sabe do que se trata).

Se você gostaria de encapsular a experiência do Samhain em apenas um videogame, eu não posso recomendar Hellblade: Senua’s Sacrifice o suficiente.

Cuidem dos seus corações, mas não tenham medo de tomar decisões difíceis e encarar os fantasmas do seu passado.

Que as bênçãos de Samhain caiam sobre nós. Blessed be.




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