As várias origens de Godzilla – De 1954 a 2016

O ser imortal que a cada dois anos surgia das profundezas do oceano pacífico para espalhar terror (ou impedir o terror de se espalhar, é bem inconsistente) através do Japão morreu aquilo que parecia ser a sua morte definitiva em 1995 no filme Godzilla vs. Destroyah, mas um Deus, como sugere o nome do monstro (God, Deus em inglês), nunca realmente morre. Ele simplesmente torna às profundezas da Terra para acordar novamente.

A primeira aparição de Godzilla (originalmente, Gojira) na costa de Tóquio e nos cinemas de Nagoya aconteceu em 1954, e desde então foi criado todo um gênero de filmes de monstros gigantes cujo único semelhante em toda a ficção teriam sido os contos de dragões nos primórdios da história escrita. E bem como os grandes dragões orientais, o Godzilla é sábio, vingativo e efetivamente imortal.

A produção por trás do filme original de Godzilla foi deveras interessante, já que a ideia por trás do filme veio de duas influências um tanto quanto diferentes se unindo. Inclusive, é seguro dizer que a história por trás da criação do Godzilla muda muito de acordo com qual parte do mundo você está.

Aqui no ocidente nós ouvimos sobre a genialidade única de Honda Ishirou, que ao ter visto O Monstro do Mar, decidiu extrapolar ainda mais a sua mensagem anti guerra para mostrar para o mundo todos os horrores causados por bombas nucleares.

Entretanto, se você está no Japão, você ouvirá sobre a genialidade injustiçada de Tsubaraya Eiji, um propagandista do período Showa, especialista em efeitos especiais para filmes de guerra, que se sentiu inspirado por King Kong para criar um monstro que demonstraria o poder e a superioridade da cultura japonesa.

E a problemática que a maioria das pessoas que vai assistir os filmes dos monstrões gigantes dando porrada não parece estar ciente, é que ambas histórias estão certas.

Godzilla (1954) foi um dos principais propulsores do que hoje nós conhecemos como “tokusatsu”, tirando a verba e as técnicas usadas para efeitos especiais em filmes de guerra e trazendo elas para a ficção especulativa. E sim, Tsubaraya de fato era o homem que mais desenvolveu todas as tecnologias capazes de trazer o monstro das profundezas à vida.

Entretanto, o que fez com que esse filme se tornasse um clássico do cinema internacional e colocasse o nome de Honda junto com todos os outros grandes cineastas internacionais, e não Tsubaraya, foi o tema anti nuclear do longa.

O equilíbrio da natureza está sendo destruído pela humanidade, e a natureza precisa revidar! Nada mais sensato, portanto, do que um lagarto gigante.

O que mais chocou as audiências que foram assistir esse filme, foi a destruição causada por Godzilla, retratada de maneira exatamente igual. Há uma sequência musical no filme, onde crianças cantam por paz, e a câmera nos mostra todos os horrores deixados pelo Godzilla no povo de Tóquio – pessoas em hospitais, mulheres chorando nos túmulos dos seus filhos, desespero social generalizado e o povo tentando se reconstruir sem ter como saber quando o Godzilla atacará novamente. E eu choro toda vez que assisto.

Esse filme joga na sua cara, sem cerimônia alguma, todo o horror que a população civil do japão teve que enfrentar por conta da Guerra, e nele você vê com toda a clareza do mundo de onde surgiram as inspirações para artistas como Miyazaki Hayao.

O tema anti guerra, entretanto, não existe simplesmente nas mãos da direção, mas dos atores também. Hirata Akihiko atua como Dr. Serizawa, um cientista em conflito extremo com a sua própria criação – uma arma de destruição tão poderosa que poderia até matar o Godzilla – mas ele não quer usá-la, pois foi esse tipo de arma que causou o problema em primeiro lugar. O seu dilema e conflito e interpessoal são demonstrados em acessos de raiva e frustração tão pesados de emoção que você teme o personagem e pelo personagem.

Mas convenhamos, quais as chances de uma pessoa que não estuda cinema parar pra assistir um filme japonês da década de 50? Ou qualquer outro filme da série original de Godzilla?

Depois desse filme, o personagem entrou em uma flutuação moral e estética digna de personagens de quadrinhos de super herói ocidentais. Horas sendo um vilão, horas sendo um herói que salvaria o japão de algum outro monstro gigante. E em outros momentos só estando por alí brigando com outros bichos, por acaso tendo umas pessoas embaixo deles.

Não demorou para que Godzilla deixasse de ser uma série de monstros como analogia pros pecados da humanidade contra a Terra para se tornar uma série de super heróis gigantes que eventualmente dariam origem pros megazords dos power rangers. E dezenas de sequências e reboots foram feitas para o monstro ao longo das décadas.

Inclusive, o documentário Bringing Godzilla Down to Size (2008) da a entender que “Quando a Toho (o estúdio responsável pela série) não tinha um filme de verdade pra fazer, fazia um Godzilla” se tornou uma piada recorrente entre críticos de cinema japoneses. Dada a qualidade questionável da maioria dos longas que menos queriam passar uma mensagem e mais queriam vender brinquedos pra crianças.

A história do Godzilla no cinema japonês, se divide em quatro eras, identificadas com a era política do japão onde eles foram lançados.

A primeira geração de filmes do Godzilla foi também a mais longa, indo de 1954 até 1984, chamada de Período Showa. A grande maioria dos monstros mais recorrentes e reconhecidos da série, como Mothra e Rodan, surgiram na era Showa como inimigos e eventualmente aliados do lagartão favorito do Japão.

O período seguinte, o Heisei, que foi de 1985 até 1997, tentopu se levar mais a sério do que os períodos anteriores. Tentanto trazer mais a tona o simbolismo de Honda do que simplesmente os efeitos especiais de Tsubaraya.

E em 1999 se iniciou o Período Millenium, onde alienígenas, zumbis e robôs gigantes dividiriam as telonas com os monstros gigantes japoneses até 2004, com Godzilla: Final Wars seguida da destruição do estúdio em piscina que havia sido usada para gravar esses filmes desde os anos 50.

Depois de Final Wars, os direitos de filmagem do personagem estavam mais ou menos em aberto, e foi quando alguns cabeças do estúdio norte americano Legendary resolveram capitalizar nessa morte oficial da franquia.

Mas a Legendary é norte amerciana. E essa galera notoriamente não sabe fazer filme bom de monstro gigante. Existe um motivo pelo qual todos eles pararam de ser feitos com a televisão a cores, e os poucos que ainda existiam foram morrendo vagarosamente durante a guerra fria. Eles são todos muito toscos, violentos pelo bem da violência, e não passam nenhum tipo de mensagem que os filmes japoneses pelo menos tentavam tratar.

Estado-unidenses já tentaram adaptar Godzilla para o próprio mercado em 1998, mas foi um fracasso tão grande que a maioria das pessoas prefere não falar sobre ele e fingir que aquele filme nunca existiu.

Mas ele existiu. É um fato inegável que nos ajuda a entender a trajetória dos filmes de ação desse país.

Não existe nada mais antitético a Godzilla quanto Independence Day. Em Independence Day a destruição é divertida, a morte é trivial, qualquer coisa é vista como piada e… MURICAH FUCK YEAH!

Enquanto isso, em Godzilla, toda morte é uma tragédia. Mesmo nos filmes mais queijudos da série, existe um sentimento muito forte de preocupação com as vidas civis. E se for um dos filmes onde o Godzilla é um herói ele vai fazer questão de tirar a briga do meio da cidade e levar pro campo onde tem menos gente.

No filme de destruição japonês, a destruição é algo que eles sofrem. No filme de destruição norte americano, a destruição é algo que eles infligem. Com essa afirmação, ficaria bem claro o porque a mesma equipe de produção por trás de Independence Day jamais conseguiria fazer juz ao nome Godzilla. E nenhum filme norte americano poderia fazer um filme parecido com os japoneses até que eles mesmos sofressem esse tipo de destruição em vez de só causar nos outros.

É conhecido que os atentados terroristas de 11 de Setembro de 2001 foram uma mudança chave pra indústria do cinema norte americano. Da noite pro dia, filmes como Independence Day não eram mais viáveis porque destruição em massa agora era algo real e a destruição que os Estados Unidos espalhava ao redor do mundo finalmente chegaram em uma pequena fração dentro das suas próprias fronteiras.

Pra entender em mais detalhes como o 11/9 afetou o cinema norte americano eu recomendo esse vídeo da Lindsay Ellis.

Entender como o filme de 1998 só fica pior quanto mais a gente pensa sobre ele, ainda mais depois do 11/9, é essencial para compreender o quão melhor foi a tentativa mais genuína de 2014 pela Legendary e pelo diretor Gareth Edwards.

Godzilla (2014) foi recebido na época com respostas bastante mistas. Mas acredito eu que pela falta de contexto ao redor da produção da série.

Eu acredito que existem basicamente dois tipos de filme entre os da série original do Godzilla – os filmes inspirados por Honda que tentam passar uma mensagem anti guerra ou ambiental, e os filmes inspirados por Tsubaraya que só são porrada. Godzilla (2014) tenta ser os dois ao mesmo tempo ALÉM de ser um filme militar obrigatório de qualquer desastre se passando nos Estados Unidos. Mas no fim ele acaba não sendo nenhum. Godzilla (2014) é uma série de cenas de ação sem nenhum objetivo final em questão de trama, com o intuito de fazer a audiência olhar pros ovários expostos de um inseto gigante e falar “puta que pariu, que negócio foda”. Não é um filme de muito significado, nem muita porrada, mas cheio de momentos “uau” onde você tenta medir o que tá acontecendo na tela mas não consegue porque você e a câmera são muito pequenos. É um filme sobre se sentir pequeno diante de Deuses, o que é uma novidade muito grande pro cinema norte americano!

O cinema norte americano sempre tenta mostrar a humanidade (ou melhor dizendo, o homem) como capaz de fazer qualquer coisa que ele quiser! O homem é capaz de superar todos os limites! Todas as fraquezas e todas as crises! E aqui estamos, olhando pra unha de um dinossauro radioativo incapazes de fazer qualquer coisa além de… Olhar. Eu acho isso particularmente incrível, e no final das contas, algo diferente mas não menos váliada de “ou Honda, ou Tsubaraya”.

E ao contrário da maioria dos filmes de ação até hoje *cough*batmanvs.superman*cough* que ficam revivendo de novo e de novo as imagens do 11/9, Godzilla (2014) tentou ser um pouco mais criativo com as ansiedades norte americanas sobre desastres de destruição em massa. E em vez do 11/9, resolvem, em várias cenas, reproduzir aquele Tsunami super famoso de 2004 na Tailândia onde vários turistas americanos foram mortos, e a história de alguns até virou filme.

Godzilla (2014) foi um sucesso de bilheteria, e a Toho resolveu fazer um filme próprio sobre o Godzilla, pegando todas as ideias antigas do Honda e fazendo de novo, só que dessa vez com mais CGI e menos efeitos especiais. E em 2016 foi lançado Shin Godzilla, também conhecido como O MELHOR FILME DE GODZILLA DE TODOS OS TEMPOS?!?!?!

Okay, talvez essa seja só minha opinião.

Shin Godzilla é um filme EXTREMAMENTE japonês, e se você já não tá acostumada a assistir dramédias japonesas com certa frequência, é bem provável que você vai se sentir perdida nesse filme. Eu fiquei mega perdia na primeira vez que assisti, e a segunda tive que ver pausando pra conseguir absorver toda a informação que aquele filme simplesmente joga na sua cara.

Sim, Shin Godzilla é um filme de drama, e um filme de desastre, mas ele também é um filme de comédia. E se você não nasceu no Japão vai exisgir bastante treinamento pra se ligar nas piadas que o filme joga na sua cara, que são MUITAS.

Principalmente contra o próprio governo.

Algo que muitas pessoas japonesas parecem concordar, mas não sabem direito em que direção ir em relação a isso, é que o seu governo é muito desnecessariamente burocrático e ineficiente. E o que aconteceria se o Godzilla realmente aparecesse no Japão atual que nem forças armadas tem? Shin Godzilla é uma paródia sobre as relações internacionais japonesa e não perde um segundo pra tirar sarro do fato de que políticos ficam tentando resolver problemas com mais política, quando só ação direta realmente faria diferença.

E mesmo assim, nenhum dos personagens políticos é tratado com desrespeito. Em todo momento onde aparece o primeiro ministro ele é tratado com total reverência, sendo o alvo da piada o sistema em si, e não as pessoas que trabalham dentro dele.

Quando uma divisão especial é feita com sanção do governo pra lidar com o Godzilla ela é feita de pessoas estranhas com conhecimentos diversamente diferentes. Entre eles políticos, engenheiros, secretários, médicos, cientistas e até um poeta. Que trabalham juntos incansavelmente sem necessidade de supervisão governamental pra deter o monstro de destruir ainda mais a cidade.

É interessante como essa divisão é criada no filme quando os Estados Unidos ameaçam jogar bombas nucleares no monstro. E a questão nem é que isso tornaria o Godzilla mais forte e sim que a ideia de jogar OUTRA bomba no Japão depois do que aconteceu em Hiroshima e Nagasaki é simplesmente inaceitável.

E quando o grupo de pessoas deslocadas descobre a técnica que eventualmente derrotará o monstro, eles descobrem fazendo a coisa mais japonesa possível: Origami.

Em relação às cenas do Godzilla em si, eles são Horríveis. Não no sentido de mal feitas, mas você sente a angústia das pessoas que passam pelo desastre. Não existe nada nessa terra mais aterrorizante do que a forma de girino do Shin Godzilla (que nessa versão é um anfíbio gigante, não um dinossauro) que simplesmente sai da água DO NADA com guelras inchadas soltando jorrando sangue em tudo que ele chega perto.

Desde o início Godzilla foi desenhado para parecer um tumor na Terra. Para que, mesmo que ele ainda seja um dinossauro, é um dinossauro que sobreviveu a destruição nuclear então ainda tem todas as mesmas cicatrizes que os sobreviventes de Hiroshima tinham.

O Shin Godzilla é produto de uma violência ainda mais terrível e visceral. Ele não é só um lagarto. Todo o corpo dele é feito de pura podridão, sangue e violência. E os poucos momentos que você consegue ver a ponta do seu rabo gigantesco em detalhes você vê a parte mais terrível de todas: Ele é feito de pessoas mortas fossilizadas no seu corpo sinistro. Esse monstro em particular jamais poderá ser um herói. Ele não conhece nada além de morte e destruição pois ele é feito de morte e destruição.

Eu nunca botei muita fé em Evangelion. Pra mim era só um anime pretensioso que gente chata ficava me obrigando a ver e eu só cada vez tendo menos saco pra assistir. Mas depois que eu descobri que foi Anno Hideki quem dirigiu Shin Godzilla eu PRECISO dar uma chance pra Evangelion.

Toda vez que o Godzilla aparece em Shin Godzilla eu não consigo respirar direito. Toda vez que um poder novo dele é revelado eu me sinto ainda mais sem ar. E todas as personagens, apesar de terem a profundidade de um desenho animado dos anos 80, tão carismáticas o suficiente pra eu, mesmo assim, torcer por eles, e me importar com eles, porque eu to vendo a destruição acontecer diante dos meus olhos da maneira mais realista possível.

Assim como Godillza (2014) resolveu reproduzir imagéticas do desastre na Tailândia em 2004, Shin Godzilla estava reproduzindo cenas do desastre nuclear de Fukushima em 2011 e do ataque terrorista com gás sarin no metrô de Tóquio em 1995. Tudo com uma estética extremamente jornalística como se você estivesse vendo esse tipo de coisa acontecendo no jornal local onde você mora com gente que você conhece.

Acredito que Shin Godzilla é meu filme favorito da série porque, mais do que todos os outros ele é quintessencialmente japonês.

As piadas são o tipo de piada que você só vai pegar sendo bem familiar com política e cultura japonesa. As formas de cortar as cenas e mostrar os nomes das personagens são coisas que acontecem tão frequentemente e tão rápido que só conseguem remeter outros filmes japoneses que fazem o mesmo. Os atores estão lidando com um tema extremamente sério mas agem como se estivessem em um episódio de Kamen Rider. A única personagem estado unidense não sabe falar inglês. É Godzilla sendo dirigido pelo cara que fez Evangelion. E finalmente, eles derrotam, temporariamente, o Godzilla do jeito mais japonês possível: Com planos feitos em origami e execução feita pelo corpo de bombeiros. Sem uma vez se quer depender dos Estados Unidos ou da Força de Defesa Pessoal.

Shin Godzilla mostra que o Japão é um país independente que consegue ser forte graças a diligência do seu povo, mesmo com a mão dos Estados Unidos só esperando a oportunidade de jogar mais uma bomba nuclear neles.

É uma mensagem meio bosta, porque nacionalismo é um cocô. Mas qualquer obra que perceba os Estados Unidos como o opressor que ele realmente é ganha pelo menos alguma pontuação comigo.

Mas será que com isso nós conseguimos chegar a uma conclusão do que significa o Godzilla? Nós falamos de alguns filmes bem diferentes aqui, com o único elo em comum entre eles sendo o monstro em si. Acho que para se chegar numa conclusão de verdade sobre “o que é o Godzilla” exisge mais pesquisa do que foi apresentada aqui. Mas com certeza foi um ótimo começo, e esses três filmes (54, 2014 e Shin) são os principais que qualquer pessoa que queira entrar na série precisa assistir.

E aí? Gostaram do meu ensaiozinho sobre Gojira? Bom, acontece que eu assisti Godzilla Rei dos Monstros esses tempos e eu queria falar sobre. Que tal me ajudar com uma doação mensal no Catarse ou uma doação individual no Paypal? Qualquer centavinho ajuda e eu seria eternamente grata!



Amo vocês. Blessed be.

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