A encruzilhada da bruxa adolescente

O blog da Editora Penumbra Livros recentemente publicou um texto chamado “por que odeiam o jovem místico” e ele me deixou com algumas pulgas atrás da orelha.

Primeiro pelo fato de que a pessoa que resolveu escrevê-lo não parece compreender muito bem as maneiras como misoginia e racismo reverberam em todas as faces da vida, inclusive a religiosa. E nenhum dos problemas apontados pelo texto tem como resposta satisfatória a, de fato, intolerância religiosa. Os exemplos dados são casos bem claros dos dois preconceitos citados acima.

Entretanto, qualquer pessoa com linhas de pensamentos derivadas do marxismo poderia apontar esses problemas com o texto. A questão real que me veio através deste foi: quem, realmente, odeia o jovem místico?

Acredito que o texto faça uma pergunta pertinente, mas não chega a nenhuma conclusão que não possa ser explicada melhor como racismo e/ou misoginia. E como uma bruxa que faz parte de redes sociais de bruxaria nacionais e internacionais eu quero tentar explorar ela melhor.

O primeiro apontamento do texto indica uma percepção da bruxaria interpretada por jovens (presumo eu que isso signifique pessoas com menos de 30 anos de idade) como superficial e consumista. E isso é algo que de fato acontece. Entretanto, na minha percepção pessoal, não são pessoas pseudo racionalistas, cristãos ou “religiosamente” ateus, que o fazem. São os próprios místicos, em geral mais velhos, que veem os instagram de beleza de meninas bruxas de 17 anos de idade que nunca se iniciaram numa tradição descendente de Gardner ou Budapest e se apropriam de iconografia que, segundo os críticos, elas não entendem.

O ateu chato sempre vai ser o ateu chato. E o alvo principal do ateu chato sempre vai ser o cristão. O cristão chato sempre vai ser o cristão chato. E o alvo do cristão chato sempre vai ser qualquer ser humano num raio de 10 Km. Pessoas “místicas” não são um alvo pelo seu misticismo, e memes de facebook não se iguala a opressão. O que realmente se enquadra como uma figura de opressão material são as críticas feitas a essas meninas – especificamente meninas – alegando que elas não podem se chamar de bruxas pois, pasmem, elas são meninas. O mundo odeia meninas adolescentes, e tudo que elas fazem ou fizeram desde que a adolescência foi reconhecida como parte do desenvolvimento humano foi e é ridicularizado pela cultura ocidental de forma geral.

Foi assim com os primeiros artistas de rock, como os Beatles e Elvis Presley. Foi assim com My Chemical Romance, Justin Bieber e a Saga Crepúsculo. E continua sendo assim com K-Pop, Youtube de maquiagem e bruxaria.

Em uma sociedade patriarcal onde a mulher precisa ser colocada num espaço de inferioridade constante, não há nada mais “inferior” do que uma mulher jovem com os hormônios a flor da pele que ainda está se descobrindo e é perdidamente apaixonada pelas coisas que ela se interessa. Se ela se interessa por essas coisas, é porque essas coisas são patéticas, superficiais, ou falsas de alguma forma.

Mais do que ser injusto com a espiritualidade com a qual essas meninas se associam, é injusto com as próprias meninas. Bruxaria tem crescido em popularidade nos Estados Unidos principalmente entre meninas adolescentes, pois estas veem na imagem da bruxa uma construção de feminilidade muito mais forte e independente do que aquela vendida pelo patriarcado ou pelos seus pais. A manutenção do patriarcado precisa que essa construção seja vista como patética para que quando essas meninas cresçam, pensem que “isso é bobagem” e tornem aos moldes aceitáveis com a percepção de que bruxaria é algo imaturo.

E esse não é um fenômeno exclusivo dos Estados Unidos. Muitas moças brasileiras com as quais eu abordei o assunto de espiritualidade me falam com alguma frequência “eu já fui wiccana, mas…” se referindo a algum período da adolescência onde elas leram vários livros de bruxaria e ouviam o álbum do Claudiney Prieto no YouTube, e eventualmente deixaram a espiritualidade para trás pra poder lidar com a “vida adulta”.

E, me perdoem irmãos e irmãs da fé antiga, mas a Wicca adora falar que “não somos proselitistas!” enquanto esquece a parte “elitista” da palavra.

A gente ADORA ficar fiscalizando a carteirinha dos outros. Qualquer livro de Wicca dos anos 90 você vai ver alguém falando sobre a tal da “neo wicca” diferenciando ela da “wicca de verdade”, implicando que, uma delas, é falsa. Falsa no simples pretexto de ser nova e não ter ligação direta com Geralt Gardner.

Pra quem não sabe, Geralt Gardner é um cadáver homofóbico inglês que fundou a Wicca na década de 50. Aproveitou que o governo inglês deixara de ver a “bruxaria” como crime e lançou os livros “bruxaria hoje” e “o livro das sombras” que são a “base” da nossa religião. Gardner, entretanto, era um babaca escroto com complexos de inferioridade, e quem realmente construiu a Wicca foram as filhas (iniciáticas, não biológicas) dele. E por mais que essas filhas não concordem com as babaquices dele, babaquice tende a se reproduzir bem mais rápido do que gentileza. O exemplo de babaca mais famoso é o Alex Sanders que se auto intitulava “rei das bruxas” (se ele ainda tivesse vivo eu teria muita vontade de falar pra ele “tu não é rei nem do teu cu, viado”). E se você acha que a ideia de um rei das bruxas é contraditória que só a porra e potencialmente muito abusiva, bem vinda ao clube.

Mas a babaquice se reflete em pessoas bem intencionadas também por puro e simples hábito. E como tudo que vem da Europa, linhagem se tornou mais importante que princípio, e até bruxos que respeito e admiro como Raven Grimassi começam os seus livros argumentando que neo wicca pode até ser bonito, mas não é wicca de verdade se não tiver linhagem comprovada com Gardner.

Pra mim esse negócio de linhagem me parece extremamente arbitrário. A Wicca não é uma instituição como a igreja. A Wicca foi literalmente inventada na década de 50 por uma pessoa cuja única fonte real de autoridade era o fato dele ser um homem branco.

Gardner não era um enviado da Deusa. Gardner não foi um profeta. Gardner não era rei das bruxas nem tentava ser nada além de um homem praticante da sua fé. Então por que raios outras pessoas que simplesmente praticam a sua fé precisam ter carteirinha de linearidade e ter essas fés questionadas, mas não a porra do Gardner?

Porque no mundo partiarcal não existe autoridade maior do que cadáveres de homens brancos. E mesmo numa religião de protagonismo supostamente feminino, a realidade é que é o cadáver branco de macho que ainda dita as regras. E nenhum cadáver branco pode aceitar a presença de meninas adolescentes.

Existe uma preocupação de verdade quando a wicca tradicional, principalmente a brasileira, começa a “fiscalizar a carteirinha” das pessoas. Como, por exemplo, dissociar a Wicca de criminosos, como é explicado pela Elder da Tradição Diânica Nemorensis e sacerdotisa da Tradição Gardneriana, Nadini Lopes, nesse post do Facebook.

Tem pessoas, no Brasil inclusive, usando a Wicca como pretexto pra atrair principalmente adolescentes perdidas pra situações de violência, abuso emocional, abuso sexual e violência contra animais. Entretanto, quando a jovem mística, ou mais apuradamente, a bruxa adolescente se envolve com um desses grupos criminosos ou charlatões, ela acaba sendo vista como parte do problema, e não como a vítima de predadores sociais.

E mais uma vez, a vítima acaba sendo a mulher jovem, primeiro por desconfiança, depois por abuso, e depois com mais desconfiança ainda por simplesmente ser jovem.

E esse tipo de “fiscalização” seria ótimo se não se confundisse com a ridicularização da feminilidade jovem que foi citada acima, com tradições que estão fazendo tudo certo e bonitinho como a Caminho das Sombras sendo ridicularizadas simplesmente porque eles tem um canal de youtube, e pela porta voz da tradição na internet, Aileen Daw, parecer um pouco mais jovem do que outras sacerdotisas, apesar dela ter a mesma idade que outras bruxas “mais respeitadas”.

A “Jovem mística” ou a “bruxa adolescente” se encontra, portanto, em uma encruzilhada. Além de todas a afeições hormonais e emocionais naturais de se ser uma adolescente, há a pressão social para aquelas que desejam expressar a sua espiritualidade para que elas escolham o jeito certo de se expressarem.

E o que tem acontecido muito no Estados Unidos e em uma escala bem menor no Brasil, é que essas bruxas querem mostrar o dedo do meio pra todos esses caminhos e descobrir a sua própria espiritualidade nos seus próprios termos. E se de um lado temos bruxos conservadores chatos, do outro temos criminosos e do outro temos o simples abandono da espiritualidade, eu mais do que compreendo e apoio essas meninas querendo entender a sua espiritualidade por conta própria. E a última coisa q eu vou exigir de uma menina dessas é que ela tenha linhagem de sangue com um cadáver inglês que dizia que gays e lésbicas jamais poderiam ser bruxas.




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