Travestis Primaveris jogando Õkami no Imbolc de 2019

Dia 1 de Agosto, a última quinta-feira, foi o Imbolc de 2019 no hemisfério Sul. E como eu tenho feito desde o último solstício venho aqui fazer um pequeno trabalho de magia cibernética para conectar o blog com as energias da Roda do Ano. Só que dessa vez eu cheguei um pouquinho tarde porque tinha algumas outras coisinhas pra resolver antes no meu Imbolc. Tipo limpar a casa e me livrar de coisas que ex namoradas deixaram dentro do meu coraçãozinho me COMENDO VIVA.

É. É disso que Imbolc se trata. O inverno acabou e agora é hora de tirar toda essa lama do jardim e tirar as carcaças dos bichos que morreram no último inverno pra primavera poder vir.

Na Irlanda esse feriado – tradicionalmente celebrado no dia 1 de fevereiro – é associado à Deusa Brigit, ou à Santa Brígida. A mulher que carrega o fogo purificador que traz de volta o calor necessário para que as plantas voltem a crescer e a neve derreta.

O Imbolc é um dos Sabbaths mais complexos da Roda do Ano, com tantos mitos associados a ele que é difícil falar de apenas uma reconstrução moderna do mito. Ainda mais com todas as confusões que a comunidade neo pagã tem por trás de “qual mito é de Imbolc e qual é de Equinócio de Primavera?”

Mas mantendo as coisas simples pra quem não é pagão, vamos partir logo pro jogo que vamos associar a essa época do ano? E trabalhar com a construção do mito a partir do jogo? É um jogo bem conveniente.

Por que se Brigit traz a primavera de volta na Irlanda, Core também faz o mesmo em Roma. E Perséfone na Grécia. E Inanna na Mesopotâmia. E Amaterasu no Japão. E coincidentemente essa última Deusa tem um jogo todo sobre ela! Esse trabalho podia ser mais dado na mão?

Õkami foi um videogame de ação e aventura desenvolvido pelo Clover Studio para o Playstation 2 e eventualmente para o Nintendo Wii onde você toma controle de Amaterasu enquanto ela limpa a terra da corrupção de demônios reencarnados pela burrice de um homem.

Amaterasu-Õmikami.

Ohirume-No-Muchi-No-Kami.

A porra da Deusa da porra do Sol que ainda é cultuada na porra Japão e deu a origem mitológica pra porra da Família Imperial que ainda tem poder religioso na porra do Japão! Porra! Tu é literalmente a rainha de todos os deuses!

E como se não fosse o suficiente, você é a rainha de todos os deuses na forma de uma cadelinha linda, e toda vez que um humano te vê eles te chamam de “boa menina” e fazem carinho na sua cabeça! Esse é ou não é o jogo dos sonhos?

Em listas de “top jogos de todos os tempos” você com certeza vai ver Õkami, e se não ver pode questionar a legitimidade da lista. O jogo foi e ainda é aclamado pela crítica e pelo público de forma basicamente unânime graças ao seu estilo artístico único e mecânicas revolucionárias que ainda não foram reutilizadas por nenhum outro jogo de grande porte.

O jogo era tradicional e revolucionário de maneira que não existia em 2006 e ainda não existiu em pleno 2019. E eu recomendo jogar esse jogo para comemorar o seu Imbolc porque:

  1. Ele é incrível e da pra jogar a versão remasterizada com um preço bem baixo na Steam
  2. A história sobre a Deusa trazer de volta a primavera através da purificação da terra e das pessoas com o calor do Sol é história mais clássica de Imbolc.
  3. Uma das principais mecânicas do jogo é sobre purificar a terra e as pessoas com o poder da primavera. A sua lobinha literalmente planta flores com cada pegada que ela deixa no chão.
  4. Seriously, só vá jogar a porra do jogo.

Então sim! Imbolc é sobre esperança, e sobre a Deusa jovem que desce na Terra e começa a espalhar flores e calor por aí do mesmo jeito que a Ammy faz no joguinho. Mas o retorno da primavera significa que em algum momento a primavera não esteve lá. Alguém precisou tirar a primavera do seu esconderijo. Quem, então, foi pedir ajuda de Amaterasu quanto todo mundo com tanto frio que começou a literalmente virar pedra? Quem tirou a deusa da primavera do seu sono pra trazer cura urgente pra todas as criaturas na terra?

No videogame, essa personagem é representada por Issun, um artista e samurai do tamanho de uma pulga que por acaso conhecia os segredos de onde encontrar Amaterasu.

Essa personagem conhecedora dos segredos é alguém comum em histórias sobre o retorno da primavera. As vezes essa personagem pode ser óbvia, como a mãe de Perséfone, Deméter, fazendo um acordo com Hades para que possa ainda ver sua filha todo ano. Ninguém conhece uma filha melhor do que a própria mãe.

Outras vezes essa personagem não é tão óbvia, como a deusa japonesa da diversão e do álcool, Ame-No-Uzume, fazendo strip-tease na frente da caverna onde Amaterasu estava escondida, trazendo a luz do Sol de volta com a promessa de colação de velcro risadas e felicidade.

Todas essas histórias mostram formas diferentes de curar nossas feridas mais profundas. Com o amor das nossas mães, com risadas e bebida entre amigos, ou literalmente cauterizando com fogo no caso de Brigit.

A mais interessante dessas histórias para mim, entretanto, é de Asu-Shu-Namir e eu não tenho como recomendar algum jogo que retrate esse mito específico porque ele não existe. Afinal ele trata de algo que ainda é muito mal visto na sociedade ocidental moderna: Intersexo e não-binaridade.

Quando Ishtar, a deusa suméria do Sexo, desce para o mundo dos mortos para reencontrar o seu marido, ela é supreendida por Ereshkigal, a rainha dos mortos, que não permite que ela jamais retorne ao mundo dos vivos e joga 60 doenças mortais sobre ela. Isso acaba fazendo com que todas as criaturas vivas parem de fazer sexo. Sabendo da situação, Ea, o deus da sabedoria, cria Asu-Shu-Namir, uma pessoa intersexo, que entraria nos portões do submundo e libertaria Ishtar.

Lá, Asu-Shu-Namir convence Ereshkigal a deixà-la ver a Taça de Água da Vida (algumas versões dizem que foi através de sedução, outras através de alguma regra arbitrária dos deuses sumérios). E quando Ashu-Shu-Namir coloca as mãos na taça, “acidentalmente” deixa cair um pouco da água em Ishtar, que imediatamente cura ela de todas as 60 doenças e as duas imediatamente fogem das garras de Ereshkigal.

Ereshkigal, furiosa, lança uma maldição sobre Asu-Shu-Namir fazendo com que ela e todas as pessoas como ela vivam para sempre na margem da sociedade. Sabendo disso, Ishtar resolve dar para Asu-Shu-Namir e todas as suas semelhantes o poder da cura e da profecia.

Essa é a origem das Gala, uma classe de sacerdotisas sumérias – cis, trans e intersexo – dedicadas a Ishtar e Ea que cantavam as lamentações de Ishtar pelo seu marido perdido para garantir o retorno da primavera.

E por mais que não exista um equivalente exato de Asu-Shu-Namir em Õkami, é interessante que o jogo adapta em suas primeiras horas um dos mitos mais antigos do Japão que não se encaixam com os ideais ocidentais modernos de gênero.

Nesse mito, o dragão Yamata-no-Orochi assola um vilarejo que precisa sempre sacrificar uma de suas meninas todo ano para que ele não destrua toda a sua plantação. Então o deus e herói, Sozanoo-no-Mikoto, se disfarça de uma jovem donzela para servir de sacrifício para o dragão. Mas antes de ser devorado, ele flerta com o dragão, e o embebeda com o saquê mais forte que os deuses poderiam criar. E com o dragão devidamente bêbado, Susanoo corta as suas 8 cabeças e livra o vilarejo desse mal.

O mito de Orochi também pode ser interpretado como um mito de preservação da primavera, sendo a primavera simbolizada pela juventude das mulheres que ele salvou e poderão continuar vivendo vidas plenas e felizes e espalhando essa felicidade.

Com toda essa informação, como vamos criar um mito pra lésbica moderna mãe de gatos no meio da cidade grande fazer sentido do Imbolc?

A Deusa agora tem três faces. A primeira é a mãe que cuida do Deus ainda muito pequeno e faz tudo em seu poder para garantir que ele cresça forte. Ela limpa a sua casa, joga todas as coisas que não lhe servem mais fora, e transforma o seu reino num reino de pureza, a espera da felicidade que virá. A segunda é a donzela, a jovem deusa criança que finalmente pode sair de casa depois daquele frio infernal e curtir um pouco a vida com os seus próprios dois pés. E quem sabe até pode visitar aquela tia que tem um filho quase da mesma idade mas que ainda não fala direito e estava esperando pra poder conhecer. A terceira é o elo curador entre as três personagens dessa história, que se manifesta explicitamente como uma pessoa não binária, conhecedora daquilo que as três outras deidades não conhecem sobre umas as outras.

Por questão de liberdade poética eu vou chamar esse elo que ainda não tem nome de “A Travesti”. A Travesti sabe quem é a Mãe pois ela própria é mãe de mais gente do que ela consegue contar. A Travesti aconselha a Mãe em como melhor cuidas da sua criança. Ela ajuda a Mãe a deixar o passado para trás, e deixar de lado a dor que ela sentiu com a perda do marido. A Travesti ajuda na limpeza da casa, das memórias, e da Alma da Mãe. Pois perceba que como Ishtar criou Asu-Shu-Namir para auxiliar na sua cura, também a Travesti fora criada pela Deusa para ajudar na sua própria cura.

A Travesti também conhece a Criança da Promessa pois ela mesma já foi tal criança. Sabe do que essa criança precisa, sabe o que ela quer, e conhece o seu destino melhor do que a própria Mãe pois como Ishtar deu para Asu-Shu-Namir o poder da profecia, a Deusa deu para a Travesti o poder da clarividência.

E a Travesti também conhece a Donzela pois ela própria é uma donzela. Ela própria é a felicidade e a esperança no coração da humanidade de sua forma mais madura.

A Travesti é aquilo que une a deidade nessa época do ano em uma entidade só. Mãe de tudo e todas que a cercam. Donzela de felicidade e esperança. E criança da promessa de potencial infinito por reconhecer sua infinitude em todas as suas etapas da vida.

A Travesti é a conhecedora de todos os aspectos da vida. É a complitude do divino. É o Grande Espírito que une Deusa e Deus em todas as suas 8 faces. Todo mundo tem uma Travesti dentro da sua alma. E honestamente mais gente na Wicca deveria reconhecer isso.

Então nesse Imbolc invoca a sua travesti interna pra saber como se livrar de coisas que não precisa. Pra te tirar de qualquer inferno emocional em que você tenha se colocado. Limpa sua casa. Dá espaço pra coisas boas virem. E quando terminar, vá relaxar com um pouco de Õkami.

Blessed be.

PS: Pra quem não entendeu oq eu quis dizer com 8 faces da Deusa e do Deus:

Contribua!

Se você gosta do conteúdo, considere dar uma força.

.

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.