O Sacrifício do Herói e A Jorndada da Heroína: Dark Souls e Hellblade

Se imagine no escuro. No frio. Você sabe que há um mundo lá fora esperando por você e seus colegas, mas ele é inalcançável. Mas ali você encontra uma chama. Uma chama tão forte que lhe confere o poder – não – a responsabilidade de levar o seu povo para o mundo lá fora, destruir aqueles que os aprisionaram, e tomar esse mundo como vosso.

É o que aconteceu com Gwyn no prelúdio de Dark Souls, aclamado videogame desenvolvido pelo estúdio FromStofware.

Encontrando a Primeira Chama, Gwyn e os outros Lordes saíram do abismo para derrotar os Dragões Eternos e criar um reino de luz, abundância e prosperidade. Mas na sua revolução contra os dragões, Gwyn sentiu o perigo que seus aliados trariam para o seu reino em épocas de paz.

A Bruxa de Izalith, outra das lordes que lutara ao lado de Gwyn, ganhou o status de nada mais do que uma existência tolerável no novo reino de luz. Exilada para dentro das montanhas e debaixo da terra onde seus demônios não poderiam incomodar o reino de luz.

O segundo Lorde era o Senhor dos Túmulos, Nito, aquele que infestou a carne exposta dos dragões eternos com morte e doença. Há nito foram dadas as catacumbas do mundo e num acordo com Gwyn, nem ele ou qualquer membro de sua família jamais conheceria a morte.

O terceiro dos Lordes foi Seath, o dragão sem escamas que tinha inveja dos seus irmãos. Seath traiu os dragões para lutar ao lado de Gwyn. E Gwyn, demonstrando gratidão apesar da sua natureza dracônica, presenteou para ele um pedaço da sua própria alma de Lorde, um ducado, a mão da sua filha mais velha, Gwynevere, e todos os servos que ele pudesse precisar.

E sob esses quatro lordes, a sociedade humana cresceu e prosperou. Havia, entretanto, um quinto lorde. Ou lordes. Os pigmeus furtivos que ficaram com a rejeitada Alma Escura. E estes representavam o maior perigo para Gwyn. A alma destes lordes é a antítese da chama que ele havia encontrado no abismo. Mantendo seus aliados perto e inimigos mais perto ainda, Gwyn deu para os pigmeus tudo que eles poderiam querer. Gwyn deixou que os pigmeus se espalhassem pela terra e esquecessem da sua natureza escura. Deu para eles uma religião onde o próprio Gwyn era o deus a ser adorado e mandara seu tio Lloyd como emissário. Até seu nome se perdeu, e os pigmeus passaram a se chamar de humanos.

Eventualmente a luz de Gwyn chegaria ao fim. A bruxa de Izalith começou a perder controle dos seus demônios e da sua própria mente. Seath, obcecado em fazer escamas para si mesmo exigia cada vez mais sacrifícios. Um dos seus próprios filhos começou a flertar com os dragões sobreviventes da guerra obrigando Gwyn baní-lo por esse desrespeito ao seu legado. E a humanidade agora adorava Lloyd mais do que o próprio lorde Gwyn.

Gwyn notou que se ele não era adorado por todos aqueles que o cercavam deve ser por que ele não fez sacrifício grande o suficiente. Então voltando para o berço da Primeira Chama, Gwyn sacrificou a sua própria alma para manter a era do fogo que ele havia construído.

Entretanto, mesmo com o seu sacrifício a chama voltou a enfraquecer.

Os familiares de Gwyn que dependiam do reino de luz liderado pelo seu pai espalharam a lenda entre os humanos que alguém que tenha uma alma poderosa o suficiente deve ir para o berço da Primeira Chama, destruir a carcaça de Gwyn, e se sacrificar para restaurar a luz do reino. Então, a maldição dos mortos vivos foi criada para que um humano pudesse acumular todo o poder necessário dentro de si para acender a chama e perpetuar a era de luz mesmo depois da morte de Gwyn. Mas seria mesmo essa coisa certa a se fazer?

Para o mundo em geral, sim. A grande maioria dos jogadores ouvirá a história de sacrifício de Gwyn e lutará para se sacrificar também pois essa é a narrativa pronta de uma deturpada jornada de heróis. O mito do auto sacrifício pelo bem maior é algo que todas nós convivemos todos os dias, desde histórias oriundas da religião baseada em Jesus Cristo até contos de guerra e histórias de ficção com o grande e último embate que será lembrado para sempre nos livros de história.

Darkstalker Kaathe discorda desse mito criado por Gwyn.

Darksalter Kaathe é um NPC extremamente escondido dentro do jogo que você só vai encontrar se souber onde procurar. E para ele, essa história toda de sacrifício humano é uma mentira criada por Gwyn para manter a humanidade dócil e continuar alimentando seu reino que já devia ter morrido há muito tempo.

Se você encontrar Kaathe, ele te contará a verdade sobre a humanidade. Sobre a alma escura. Sobre ela ser a antítese da chama de Gwyn. E sobre a inevitabilidade de que um dia um Lorde Escuro apagará a chama e trará com ele a Era da Humanidade.

Isso também é uma manipulação, entretanto. Dark Souls II mostra que não importa se a jogadora escolheu se sacrificar pela chama e tomar o lugar do Lorde Gwyn ou se ela escolheu usurpar a chama e iniciar a era da humanidade. Outra pessoa vai ter que acender a chama de novo, e usurpar de novo, e acender de novo, e usurpar de novo, e assim sucessivamente pelo resto da eternidade até que em algum momento não exista mais uma primeira chama para alguém fazer qualquer coisa sobre.

Numa visão Jungiana a Primeira Chama é o que se conhece no reino mitológico como Santo Graal. Aquilo que de alguma forma o homem almeja ou precisa conquistar para trazer paz e prosperidade para o seu domínio. Este pode ser um reino, um vilarejo ou simplesmente sua família. E muitos homens morreram pelo santo graal. Da Távola Redonda à Sociedade do Anel o sacrifício masculino é fetichizado como o destino inevitável do grande homem que queira fazer o bem pela sua comunidade. Seja lá qual for esse bem, qual seja essa comunidade, e qualquer que seja o santo graal.

Na história do mundo real, algumas pessoas viram o Santo Graal na conquista de Jerusalém. Outras na pureza da raça ariana. Outras na revolução da classe trabalhadora. E por mais que pelo menos a última dessas coisas seja extremamente importante, não é só de guerra que vive o homem. E não é exatamente como o santo graal “deveria” funcionar.

Líderes com frequência usam o mito do sacrifício heroico para coagir seus seguidores a fazer coisas questionáveis como lutar em guerras sabendo que eles vão morrer ou cometer crimes hediondos em nome do seu país ou religião. E como homens foram tradicionalmente escalados como soldados no decorrer da história esse mito afeta homens quase exclusivamente. Homens morrem com muito mais frequência do que mulheres por causa da narrativa do sacrifício. Para demonstrar a sua força, muitos homens se metem em situações perigosas que poderiam ser evitadas – como Gwyn fez ao não aceitar o término da sua era de luz – mas o heroísmo masculino exige sacrifício.

Temos que lembrar, entretanto, que o sacrifício heroico não faz parte da Jornada do Herói de Joseph Campbell.

A Jornada do Herói é uma forma de estudar a estrutura de vários mitos heroicos criados pela humanidade. A estrutura é bem conhecida e eu não vou entrar em detalhes sobre ela. Se você não conhece a estrutura sugiro essa série de videos aqui ou qualquer outro material sobre na internet. Quando você tiver uma base firme sobre o que essa jornada significa pode voltar aqui.

Durante a jornada o herói encontrará algum tipo de tesouro. E tesouro de Campbell, muitas vezes chamado de Elixir da Vida ou de Santo Graal, é aquilo que se encontra num mundo desconhecido pelo herói. O herói precisará passar por uma morte meramente metafórica para conseguir esse tesouro. Em vez dele sacrificar o seu corpo e sua alma literalmente para conseguir esse graal ele sacrifica a sua antiga visão de mundo. O seu antigo eu. Os seus antigos medos, amores, sentimentos e certezas para “renascer” como alguém melhor. Muitas vezes esse processo de melhoria pessoal pode ser o próprio graal como é o caso em vários rituais iniciáticos de várias religiões.

Já que estamos falando em termos Jungianos, parece que no sacrifício heroico há um desequilíbrio masculino obcecado com guerra, destruição e morte que prejudica a vida dos homens que entram em contato, consciente ou inconsciente, com esses mitos. E Jung acreditava no equilíbrio entre ambos os gêneros dentro de cada pessoa. Anima e Animus. Todas nós somos interiormente homens e mulheres ao mesmo tempo. Aqui portanto há a necessidade de reequilibrar esses valores dentro do mito do herói.

Em simbologia mitológica o graal costuma representar um útero. E o elixir da vida costumam representar os fluidos vaginais que para povos primitivos eram a fonte de toda a vida na Terra. Através de uma lente Jungiana, portanto, lendas onde homens buscam por um graal mágico ou por um elixir de vida eterna eles estão na realidade procurando por sua própria capacidade “feminina” de gerar vida.

O arquétipo da Anima – a personalidade feminina interior em todas as pessoas – envolve vários aspectos. Alguns mais problemáticos do que outros. Mas eu quero focar agora no aspecto da criação que alguns julgam como sendo o principal.

Se Dark Souls aponta a doença que infectou o mito do herói para criar homens complacentes com a ideia de sacrifício, há outro jogo que tenta curar essa narrativa através de uma lente caracteristicamente feminina. Hellblade: Senua’s Sacrifice.

Morte é o que inicia a jornada de Senua, a protagonista de Hellblade. Ninguém tentou compreender a forma como ela via o mundo antes de Dillion. E agora Dillion foi arrancado da vida dela por monstros chegando pela praia em barcos apertados. Os monstros abriram o peito de Dillion enquanto ele estava amarrado entre dois postos e obrigaram Senua a assistir.

O antigo mestre de Senua, Druth, conhecia esses monstros. Eles são o povo do norte. Adoradores da morte e da guerra que sacrificam almas para deuses estrangeiros chamados de Odin, Hel, e vários outros.

Sendo guiada por Druth, Senua viaja até a terra dos mortos do povo do norte – Helheimr – para roubar a alma do seu amado de volta e voltar a sentir paz na sua vida. Pois sá havia paz quando Dillion estava por perto.

Senua sofre de sintomas psicóticos. Alucinações vívidas são parte da vida cotidiana dela. A mente dela é capaz de criar coisas totalmente fora do seu controle. Isso pra ela é uma maldição.

Ninguém mais no seu vilarejo é capaz de ver as coisas que ela vê. “Ela está possuída!” gritam os fazendeiros. Menos Dillion. Dillion fez ela ver a beleza na forma dela ver o mundo. Ver o que mais ninguém enxerga? Para Dillion isso é uma bênção divina e com ele por perto Senua quase acreditava na mesma coisa.

Na sua jornada por Helheimr, Senua usa o poder de ver mais do que os olhos comuns conseguem enxergar para reconhecer padrões na natureza ao seu redor. Os desenvolvedores do jogo trabalharam com médicos e pessoas que sofrem de vários sintomas psicóticos para construir mecânicas de jogo que se assemelhassem à sua condição. As vozes dentro da cabeça de Senua, por exemplo, com frequêncioa xingam ela e denigrem qualquer conquista que ela tenha realizado. Mas essas vozes também darão dicas sobre puzzles e serão suas maiores aliadas para sobreviver os combates contra os vikins que moram nessa terra.

A capacidade de reconhecer padrões de pessoas com psicose também está presente na forma como os próprios puzzles funcionam, sempre sendo uma questão de perspectiva que somente alguém como Senua poderia observar.

Senua é uma criadora tão poderosa que ela perde o controle da suas criações. E mesmo assim ela é capaz de usar essas criações para o benefício da sua jornada.

Ela passa por todos os aspectos clássicos da Jornada do Herói. Mas nunca encontra o graal que ela procura – a alma da sua pessoa amada. Em vez disso, ela encontra outro graal. Paz interior. O conhecimento de que quem morreu morreu, e ela não precisa sofrer por toda a eternidade por isso.

A jornada foi sua forma de se curar, outro aspecto da força da criação. De renascer como uma Senua melhor que aceita sua condição psicótica e arruma alguma forma de ficar em paz com as vozes e as visões.

Mitos como os de Hellblade são importantes num mundo cheio de Gwyns e Kaathes querendo seduzir homens para que morram em favor dos seus próprios ideias. Senua traz consigo uma história curadora. Dela mesma e do próprio mito do herói que há muito havia sido relegada exclusivamente aos homens.

Se Dark Souls traz o diagnóstico, Hellblade traz a cura. E me resta desejar e incentivar mais narrativas que tentem curar o que significa realmente o heroísmo.

Blessed be.

E por favor, deem uma força nos meios de financiamento coletivo!




Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.