Assistir Netflix E Jogar Videogame Virou Trabalho

Você consome, vive, experimenta ou decodifica mídia? Mike Rugnetta fez essa pergunta em 2016, e hoje com os anúncios de que a Netflix vai te permitir assistir o seu acervo em 1.5x a velocidade normal essa pergunta volta pra minha cabeça.

Stuart Hall argumenta que o consumo de mídia não é passivo. Experimentar arte é um processo complexo de codificação e decodificação que sempre acontece de uma decisão ativa da parte consumidora de fazer parte desse processo. Esse consumo resultará em algum subproduto – geralmente na forma de opiniões, crenças, posicionamentos, sentimentos, reflexões e outras obras de arte que a própria consumidora pode criar – sob o qual as experiências, crenças e pontos de vista do próprio consumidor terão ainda mais peso do que aquilo que o próprio autor colocou sobre a mídia que foi consumida.

Existem várias formas de consumir mídia, e, a partir desse ponto de vista, Rugnetta argumenta que o ato do que nós fazemos com mídia na verdade é uma decodificação – não um consumo – que exige todas essas experiências e decisões para criar diferentes subprodutos. Por isso pessoas diferentes podem ter leituras diferentes da mesma obra, ou uma pessoa só é capaz de ler uma obra de várias formas diferentes sem que nenhuma delas esteja inerentemente “certa” ou “errada”.

A mídia, entretanto, e as obras de arte em particular, vem sido sucateadas pelo neo liberalismo que dita que todas as faces das nossas vidas devem ser produtivas de alguma maneira. Consumo ou decodificação de arte outra hora foi prazer, mas agora é um trabalho que quase todas nós tomamos parte. E não parece haver escapatória.

Um dos meus vídeos favoritos na internet tenta te ensinar como fingir que você sabe alguma coisa de arte, enquanto sutilmente te ensina como apreciar obras de arte numa galeria ou num museu de maneira mais profunda e significativa. Entretanto, não é assim que a maioria das pessoas consome arte – nem mesmo as pessoas de nariz empinado que frequentam galerias. Um estudo publicado em 2016 descobriu que, em média, as pessoas passam 28.63 segundos olhando para cada obra de uma galeria, sendo que a maioria passa cerca de 10 segundos olhando para a obra antes de ir para a próxima ou antes de demonstrar algum tipo de opinião. E fica a questão… Como pode alguém que passou tão pouco tempo na frente de uma pintura realmente apreciar ela? Existem várias teorias do porque isso acontece, mas geralmente se concorda que quanto mais tempo você se expõe à obra mais detalhes você conseguirá perceber nela. E isso inevitavelmente enriquecerá a sua experiência, pro bem ou pro mau.

Lembro de uma vez que eu estava procurando imagens de deusas, e eu encontrei uma Frigga maravilhosa sentada num trono com dois homens se curvando diante dela. Mas só depois de vários minutos eu notei que o cajado dela tinha uma suástica nazista na ponta e isso destruiu totalmente a obra pra mim.

Mas quem liga pra artes plásticas, não é mesmo? A maioria das pessoas aqui preferem passar o tempo na frente de um PC, de uma televisão ou de uma tela de cinema com um bom filme ou um videogame do que numa galeria de arte, não é mesmo? Então vamos ignorar que o feed do Facebook já é uma galeria de arte onde a gente passa menos de 5 segundos com cada obra e focar na questão de filmes e videogames.

Em teoria, não tem como alguém “dar só uma olhada por cima” de um videogame, de um filme ou de um seriado. Ou será que tem?

Netflix é uma das empresas que mais tem lucrado com o “medo de ficar de fora”, tornando cada uma das suas novas séries um evento social que será conversado no Twitter, no Facebook e na pausa pro almoço do seu trabalho. E você não quer ficar de fora. As séries precisam ser maratonadas no dia que elas saem porque sem isso você não vai poder fazer parte do discurso. Mesmo que você não goste do seriado e não veja motivo nenhum pra ver ele além da pressão social, a pressão social é o suficiente. Mas você consegue realmente lembrar todos os episódios de Demolidor quando você já tava morrendo de sono lá pelo 8 e só continua assistindo porque tem que terminar tudo HOJE?

Uma das teorias do porquê pessoas passam tão pouco tempo olhando as obras de uma galeria de arte é que quando alguém vai pra uma galeria essa pessoa tem pouco tempo, quer olhar várias coisas e não sabe no que manter o seu foco. Querendo ou não, isso acaba acontecendo com os seriados que a gente se obriga a assistir simplesmente pra fazer parte do discurso. Histórias se misturam com a nossa falta de atenção, com os feeds do facebook, com o que mais acontece ao nosso redor e a gente se recusa a pausar pra poder terminar logo o seriado.

E agora a própria Netflix vai nos dar uma ferramenta para tornar o nosso medo de ficar para trás ainda mais eficiente. Acelerar os vídeos em 1.5 vezes.

O problema em particular de fazer isso com cinema, é que a apreciação profunda de filmes e séries geralmente acontece com observação de quadros, do tempo de cada cena, dos momentos de silêncio, das entonações de cada fala e dos movimentos sutis dos atores. Se você não liga pra essas coisas, pra que você está assistindo o seriado ou o filme? Uma novela ou um audiolivro parecem estar bem mais próximos das suas prioridades artísticas, então seria mais proveitoso ouvir essas obras, se o objetivo fosse realmente apreciar a obra.

Entretanto, não há apreciação nesse método. Não há experiência que transformará a obra num subproduto que enriquecerá alguma parte da sua vida. Só há o discurso. Nesse tipo de consumo de mídia você substituí completamente o subproduto descrito por Hall – que, novamente, envolve opiniões, crenças, posicionamentos, sentimentos, reflexões e talvez até outras obras de arte – por capital social.

Com esse capital social você garantirá sua permanência no grupo o qual você faz parte. Mas através desse tipo de consumo, o subproduto gerado é simplesmente capital. Poder. Moeda de troca para manter ou adquirir algo na sociedade ou no grupo o qual você faz parte. Portanto, quando você consome a arte pelo bem de dizer que consumiu, você não experimentou nem decodificou nada. Você trabalhou. O tempo que você poderia ter gasto relaxando e fazendo algo pelo seu próprio prazer, por causa da pressão para ter esse capital social de estar sempre por dentro das coisas, se tornou um trabalho para manter ou elevar seu lugar num determinado grupo. E o pior é que você provavelmente pagou com dinheiro de verdade para fazer esse trabalho e nem tem consciência disso.

Eu mesma fui presa desse medo de ficar de fora recentemente quando resolvi assistir Coringa no cinema só pra entender do que todos os meus amigos estavam falando. E foi uma das piores experiências que eu tive esse ano.

A mesma coisa tem acontecido com videogames. Torulf Jernström na sua palestra Let’s Go Whaling descreveu a aplicação dos três Hs para a monetização de videogames: Hook (Gancho), Habit (Hábito), Hobby. E durante a sua explicação ele basicamente argumenta que o objetivo de um jogo de sucesso não é trazer uma experiência para as jogadoras que elas possam decodificar e transformar em um subproduto relevante para algum aspecto da vida da jogadora. O objetivo dos jogos de Jernström é criar algo que só seja engajante o suficiente para criar um hábito sem a necessidade de decisões ativas de leitura. Hábito que, idealmente, levará ao vício. James Stanton provavelmente explica isso melhor do que eu.

Stanton, na verdade, tem denunciado há muito tempo o sucateamento dos jogos AAA em benefício de engajamento contínuo e perpétuo que não gera nada além de lucro para as empresas que produzem esses jogos – Engajamento aqui significando o ato de jogar os jogos e gastar dinheiro dentro deles.

Activision Blizzard, Electronic Arts e até a Nintendo – três das maiores publicadoras de videogames do mundo – conseguiram transformar o ato de jogar num trabalho de acumulação de capital social. Jernström na tal palestra, inclusive, fala como suas jogadoras ideais devem ver jogar e gastar dinheiro no seu jogo como uma obrigação social, pois só assim elas serão induzidas a jogar e gastar cada vez mais.

No meu texto Apesar de Tudo, Jogos Ainda São Arte, eu argumentei que apesar da arte ser impossível de se definir, é possível definir o seu objetivo: Suprir as necessidades da alma. Nesse caso, o consumo da arte está em oposição ao trabalho, que supre as necessidades da comunidade, ou, no caso do trabalho capitalista, do mercado.

No mundo neo liberal, tudo é capital. Tudo pode ser trocado por outras coisas, inclusive nossas experiências. E em lugar nenhum isso é mais claro do que nas redes sociais.

Tudo que você faz – os filmes que você assiste, as viagens que você participa, as peças que você vê. Tudo isso acaba indo pro Twitter, Instagram ou Facebook onde você “troca” essas experiências por capital social na forma de seguidores, curtidas e comentários. Até seus encontros, romances e comidas acabam virando alguma forma uma moeda trocada por influência social através da internet.

As tecnologias neo liberais conseguiram transformar todos os aspectos da nossa vida em trabalho. Trabalho que nós mesmas pagamos para fazer porque ninguém nos avisou que essas maratonas de Netflix e idas pro cinema só pra se atualizar em vez de aproveitar são trabalho.

E ninguém teve tempo de avisar que os novos videogames AAA também são trabalho, só que mais baseado no seu tédio do que na sua vontade de participar do discurso.

Mas Felicia. Há solução para esse problema? Como podemos nós, meros milenares no ápice do neo liberalismo, retomar a nossa independência estética? Superar o medo de ficar para trás e não deixar o nosso lazer se transformar em trabalho?

Eu sinceramente não sei. Eu caí nessa armadilha anos atrás e ainda não saí dela. E nem posso já que esse blog é a minha única fonte de renda no momento. Eu não tenho escolha se não transformar o meu hobby em trabalho. Se eu não fizer isso eu não tenho como sobreviver porque as únicas oportunidades de trabalho que existem nesse país pra uma jovem trans sem treinamento superior são aquelas que ela faz pra si mesma. E isso é tudo que eu tenho pra oferecer.

No final das contas, poder apreciar arte simplesmente por apreciar se tornou um privilégio. E essa deve ser a coisa mais triste pra mim sobre o neoliberalismo em que nós vivemos. E eu não tenho uma resposta que não seja derrubar o sistema.

Talvez você possa encontrar outros hobbies que você saiba que não tem como ser capitalizado e não postar sobre ele em lugar nenhum. Mas isso exige tempo livre que mais ninguém tem hoje em dia.

Então me perdoem por não ter nenhuma resposta hoje. Mas se vocês quiserem me ajudar a sobreviver nessa distopia cyberpunk de consumo desenfreado que a gente vive, vocês podem doar dinheiros em qualquer uma das plataformas de financiamento coletivo abaixo.

Amo vocês. Até a próxima.

Espero voltar logo com menos pessimismo.




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