O que é ser mulher?

O que é ser mulher?

Essa deve ser uma das perguntas que mais me foi direcionada por mulheres cis desde que comecei minha transição.

Filósofos “clássicos” como Platão e Hegel perguntaram-se o que é ser um homem e tal, mas jamais no sentido de um homem como oposto de uma mulher. Usava-se homem como sinônimo para ser humano e oposto de animal. Até muito pouco tempo atrás mulheres nem se quer eram vistas como gente, quem dirá elas terem o direito de serem vistas por uma visão crítica do mundo além de imposições reprodutórias. Pensar na identidade, direito e existência das mulheres seria para esses filósofos a mesma coisa que pensar na identidade, direito e existência de animais.

Isso vai mudando com o tempo, é claro. E não existe uma linha óbvia que separa os períodos em que mulheres eram consideradas animais pro qual mulheres passaram a ser consideradas gente pelo discurso filosófico, mas em algum momento se tornou bem claro que ser homem é “não ser mulher” e ser mulher é “não ser homem”. Como se esses argumentos cíclicos fossem auto evidentes.

Quando discussões de Gênero eram trazidas a tona fora do âmbito filosófico, mulheres eram vistas como irracionais, histéricas, emotivas, incapazes de pensar por conta própria, dependentes, e máquinas de fazer bebês. Ao contrário dos homens que são racionais, lógicos, rígidos, independentes, violentos e viris. E não foi até o final dos anos 40 que Simone de Beauvoir começou a explorar esse tipo de discurso e publicar suas conclusões sobre a construção de gênero no patriarcado no livro O Segundo Sexo, se tornando a mãe dos estudos de gênero.

Ela observou que no mundo patriarcal ser homem deve ser o padrão. Homens sempre definiram o que significa ser humano e que tipo de qualidades um humano deveria ter para viver em sociedades construídas por eles próprios.

A mulher, portanto, sempre foi construída como um “Outro” sobre quem o homem projeta aquilo que ele não é. Feminino é aquilo que você não deve ser. E o masculino é o que é considerado o ápice da experiência humana.

Ser bem sucedido ou capaz de sobreviver por conta própria no patriarcado exige competitividade, racionalidade matemática, egoísmo, propriedade sobre terras, animais e outras pessoas. Todas características associadas ao masculino e a “força humana” que não são conferidos a mulheres. Não ser racional ou egoísta (ou qualquer que seja a característica chamada de masculina dessa vez) é ser mulher. Ser mulher, nessa teoria é complementar e/ou desafiar tudo aquilo que falta na vida do homem e ser o suporte ou o antagonismo necessário para que o homem tenha a quem possuir, tenha a quem se sentir superior, e tenha com quem se comparar para se ver como melhor.

O outro.

Dizer o que é uma mulher, portanto, é impossível, já que a construção da mulher não é nada além da opressão que ela sofre e o que ela escolhe fazer com essa opressão. Por isso uma mulher não nasce, nem simplesmente é. Uma mulher se faz pelas escolhas que ela toma.

De Beauvoir foi a primeira pessoa a apontar o quão absurda é a ideia de gênero, e que ele só existe como forma de opressão baseada em sistemas reprodutórios. Mas se gênero é só uma classificação opressora, por que existem mulheres trans?

Hourou Musuko é um anime de 2011 onde nós seguimos a vida de duas crianças da quinta série: Shuichi Nitori, uma menina trans, e Yoshino Takatsuki, um menino trans, ambos ainda dentro do armário.

No decorrer do desenho, Shuichi e Yoshino vão ganhando cada vez mais auto confiança nas suas apresentações de gênero preferidas – isto é Shuichi se vestindo como menina em vez de menino, e Yoshino se vestindo como menino em vez de menina. E no ápice dessa auto confiança, ambas decidem que vão ir com os uniformes opostos pra escola.

Quando isso acontece, ninguém presta muita atenção em Yoshino usando o uniforme masculino. As suas colegas chamam ele de legal e bonito apesar de levar uma advertência. Mas Shuichi enquanto isso é ridicularizada pelos colegas, é chamada para a sala do diretor onde ela é exposta aos pais e a escola inteira, e é obrigada a voltar pra casa e trocar de roupa antes de voltar.

Mulher, segundo a teoria apresentada, é ser oposta e inferior aquilo que se considera masculino. Por isso Shuichi levou uma bronca muito pior do que Yoshino. Na visão do patriarcado, uma mulher querer se elevar ao status de homem para poder competir é admirável e ela provavelmente será usada como bode espiatório para dizer que o patriarcado não existe, já que em vez dela desafiar o sistema ela tenta se integrar a ele. Na visão desse mesmo patriarcado, entretanto, aquele que já nasceu homem querer se rebaixar para o status de mulher é uma afronta à própria masculinidade.

Quando homens se identificam primariamente pelo seu pênis eles acreditam que todos aqueles que tem pênis devem agir como homens, ou seja, com todas aquelas características que descrevi acima. Expressar empatia, emoções, ou se quer usar roupas fora da estética apropriada é visto como um ato violento e será respondido com mais violência ainda.

Quando um homem chora, ele muito provavelmente será chamados pelos seus colegas de mulherzinha. Quando ele demonstra afeto pelos outros ele é chamado de veado (um animal que por conta do filme Bambi da Disney é visto como feminino no Brasil). Quando alguém demonstra fraqueza física, incerteza, ou qualquer aspecto que seja diferente daquela lista de qualidades, essa pessoa será associada imediatamente com o gênero feminino.

Todo mundo já foi chamada por algum adjetivo feminino uma vez na vida, implícito ou explícito. E no caso das pessoas denominadas homens no nascimento isso geralmente faz parte do jogo de poder que existe para que clube dos “homens” continue a ser exclusivamente feito de “homens”. Homens estes viris, violentos, heterossexuais, “racionais” e bem-sucedidos. O resto será classificado como mulherzinha quer se identifique dessa forma ou não.

Por que diabos alguém iria querer ser mulher numa situação dessas?

Pra homens cis gays é fácil. Se ser mulher é uma piada que seja a piada deles. Se todo mundo que não é “Homem” com “H” maiúsculo é mulher, então que haja ridicularização dessa ideia. Que se torne parte da identidade desses homens rejeitados pela masculinidade. Que se torne parte da cultura que faz esses homens menores serem quem eles são. Daí surgem drag queens que se apropriam do ridículo de associar tudo “não masculino” ao feminino. Mas tirando isso não há nada.

Por que alguém legitimamente iria querer ser mulher numa situação dessas? Ser literalmente definida pela opressão que sofre? Saber que a sua simples existência pode ser respondida por alguém com um ato de violência? Mulheres trans TEM que saber de alguma coisa que mulheres cis não sabem sobre ser mulher. Não?

O mecanismo opressor que tira agência das mulheres cis também tira agência de todos os homens que não se encaixam. Quando tudo que não se encaixa é chamado de feminino a sua percepção do que é ser mulher começa a mudar.

Eu e algumas amigas trans minhas passamos por processos semelhantes de primeiro negar nossa própria masculinidade pra depois aceitar feminilidade. Quem passa por isso acaba confirmando o que De Beauvoir diz: Que a mulher é o Outro do homem. Que ser mulher é sinônimo de não ser homem. Mas essa não é a única experiência trans que existe.

Algumas sabiam ser meninas desde o nascimento, antes dos papéis de gênero se quer se assimilarem na cabeça da criança. E homens trans não transicionam simplesmente pra ter um espaço melhor na sociedade patriarcal. Porra, a maioria dos homens trans que eu conheço fazem drag. Não tem homem cis que seja mais afeminado que alguns homens trans que eu conheço. Há algo aí além da mulher como negação ao masculino.

Existem várias teorias. Das performáticas do lado de Judith Butler às espirituais do lado de Zsuzsanna Budapest às neurológicas do lado de Talia Mae Bettcher. Mas, do meu ponto de vista, ninguém sabe o que é ser mulher por que não há como saber.

Nem mesmo pode-se ter certeza o que é ser um homem. Vários homens podem dizer que eles sabem o que é ser um homem – mencionando desde a sua heterossexualidade até o fato de não limpar a bunda. Mas existem vários homens por aí com senso de higiene que não deixam de ser homens.

Tudo na vida existe em espectros. Ao contrário do que você pode ter aprendido no ensino fundamental, seres humanos não tem só 2 cromossomos sexuais. A grande maioria sim, tem 2, mas outras pessoas tem 3 ou até 4 desses cromossomos em todas as combinações de X e Y que você puder imaginar, que podem ou não resultar em diferentes formações genitais capacidades reprodutivas. Se não existem apenas dois sexos, por que haveriam de existir apenas 2 gêneros?

Além de tudo existir em espectros, tudo também existe em intersecções. Eu não sou apenas uma mulher trans. Eu sou uma mulher trans E branca E de classe média E brasileira E mais um monte de coisas. Assim como você e todo mundo no mundo não é simplesmente humano, mas tem um milhão de coisas que fazem você ser quem você é. Sua cultura, sua história, seus traumas, suas conquistas. Seu gênero pode ser apenas uma dessas intersecções. Ou o agrupamento de algumas dessas intersecções.

Gênero é complicado porque humanos são complicados.

Quando mulheres cis observam que mulheres trans ainda existem apesar das pressões patriarcais, causa a impressão de que as trans sabem mais sobre o que é ser mulher do que as cis. Mas ninguém sabe de nada. A gente só vê gênero de um ângulo diferente e isso não quer dizer que um ângulo está mais certo do que o outro. E esse ângulo costuma ser bastante diferente entre nós trans também. Eu decidi transicionar por motivos bem diferentes das minhas colegas, e cada uma delas tem sua própria história pra contar. O gênero de nenhuma de nós veio pronto e enlatado. Por isso nós somos trans. Nós transicionamos. E por mais que o gênero da pessoa cis tenha vindo pronto, ele não precisa ser enlatado, e vem sendo desconstruído e reconstuído com o passar do tempo na vida de cada indivíduo.

Ninguém pode dizer com 100% de certeza o que é ser mulher. Você só pode dizer o que é ser mulher pra você. Ou qualquer que seja o seu gênero.

E seria muito fofo eu terminar a história por aqui, mas o meu lado marxista não consegue ficar quieto e ignorar os problemas sociais causados pelo gênero.

Você pode se identificar da forma como você quiser, mas dizer-se quadrigênero, não vai fazer a menor diferença pra forma material como você é tratada pelo resto da sociedade. Nós vivemos numa sociedade patriarcal que vê tudo na forma de binários, portanto a sociedade é dividida de maneira binária. Homens e mulheres. Aqueles que não se encaixam em nenhuma das duas categorias são jogados para os lados simplesmente como “queer” ou “viados” ou “depravados”. Efetivamente excluídos da sociedade.

Isso cria uma situação semelhante à luta de classes, onde há opressores e oprimidos com interesses opostos. Onde querendo ou não há o sujeito (o homem ultra masculino) e o outro (todo o resto). A diferença entre ser lida como homem, mulher ou travesti pode ser a diferença entre a vida e a morte, principalmente no Brasil. A demonstração de inconformidade com as estruturas de gênero patriarcais como elas existem causam traumas em garotos sensíveis, violência sexual impune contra meninas, e coisas inimagináveis com pessoas de todos os gêneros.

Se a compreensão do gênero só pode existir a partir de um ponto de vista pessoa, a ideia de gênero se torna uma classificação arbitrária, antiquada e completamente desnecessária. As classificações de gênero dentro do sistema patriarcal só existem para separar as pessoas em grupos de controle, e mesmo que essas classificações sejam repensadas, qualquer maneira de separar seres humanos em grupos inevitavelmente trará de novo uma luta entre grupos com menos ou mais poder que os outros.

É muito fofo dizer que você pode se identificar da forma que você quiser afinal só você entende o seu gênero, mas o mundo lá fora tá pouco se fodendo pra como nós nos entendemos como indivíduos. A única forma de criar uma sociedade verdadeiramente livre para que nos compreendamos como seres únicos e especiais fora de sistemas de opressão é um mundo livre de gênero. Onde ninguém precisa se preocupar em explicar a sua identidade nos termos da opressão.

Mas isso não vai acontecer da noite pro dia. A minha esperança, para a utopia onde gênero não existe está nas pessoas não binárias. Onde as classificações de gênero se tornam tão abstratas que elas perdem totalmente o sentido social e enfraquecem a ideia do próprio gênero como uma construção válida.

Então prazer, eu sou Felicia, uma pessoa trans-feminina não binária de gênero fluído ginossexual. E meu sonho é poder me apresentar simplesmente dizendo “Prazer, eu sou Felicia” e foda-se o resto.

Eu fiz esse texto porque uma amiga minha perguntou o que é ser mulher pra mim. E no final das contas eu não respondi. Mas será que essa resposta é tão relevante assim?

Pra mais textos como esse, me ajuda lá nos meios de financiamento coletivo!

Nos vemos depois. Mil beijos pra todxs.




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