Assistir Netflix E Jogar Videogame Virou Trabalho

Você consome, vive, experimenta ou decodifica mídia? Mike Rugnetta fez essa pergunta em 2016, e hoje com os anúncios de que a Netflix vai te permitir assistir o seu acervo em 1.5x a velocidade normal essa pergunta volta pra minha cabeça.

Stuart Hall argumenta que o consumo de mídia não é passivo. Experimentar arte é um processo complexo de codificação e decodificação que sempre acontece de uma decisão ativa da parte consumidora de fazer parte desse processo. Esse consumo resultará em algum subproduto – geralmente na forma de opiniões, crenças, posicionamentos, sentimentos, reflexões e outras obras de arte que a própria consumidora pode criar – sob o qual as experiências, crenças e pontos de vista do próprio consumidor terão ainda mais peso do que aquilo que o próprio autor colocou sobre a mídia que foi consumida.

Existem várias formas de consumir mídia, e, a partir desse ponto de vista, Rugnetta argumenta que o ato do que nós fazemos com mídia na verdade é uma decodificação – não um consumo – que exige todas essas experiências e decisões para criar diferentes subprodutos. Por isso pessoas diferentes podem ter leituras diferentes da mesma obra, ou uma pessoa só é capaz de ler uma obra de várias formas diferentes sem que nenhuma delas esteja inerentemente “certa” ou “errada”.

A mídia, entretanto, e as obras de arte em particular, vem sido sucateadas pelo neo liberalismo que dita que todas as faces das nossas vidas devem ser produtivas de alguma maneira. Consumo ou decodificação de arte outra hora foi prazer, mas agora é um trabalho que quase todas nós tomamos parte. E não parece haver escapatória.

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O que é o gamer?

  • 18 de Outubro de 1985. Nintendo resolve lançar o NES nos Estados Unidos como um brinquedo para meninos. Toda a indústria de videogames segue o barco.
  • 8 de Outubro de 1992. Mortal Kombat é Lançado e a política conservadora vai a loucura. A indústria do videogame é processada pelo governo estadounidense.
  • 3 de Fevereiro de 1994. Representantes da indústria provam em corte que videogames não causam problemas comportamentais nas crianças e merecem o mesmo nível de regulamentação que todas as formas de arte e entretenimento. A Enterteinment Software Association (ESA) e a Entertainment Software Rating Board (ESRB) são criadas.
  • 20 de Abril de 1999. Dois estudantes do colégio de Columbine, Estados Unidos, entram na escola com armas automáticas e matam 15 pessoas. A mídia de massa culpa os videogames.
  • Anos se passam. Pessoas que cresceram com videogames em casa se tornam cidadãos comuns da sociedade. Ninguém com exceção de alguns jornais sensacionalistas realmente acredita que videogames causam violência.
  • 1 de fevereiro de 2013. Simon Parkin lança um artigo investigativo no Eurogamer denunciando como videogames são usados para financiar fabricantes de armas de fogo.
  • Entre 2014 e 2016. Fucking Gamergate.
  • 1 de Janeiro de 2019. Jair Bolsonaro assume a presidência do Brasil, e expressa ser um explícito aliado de Donald Trump.
  • 13 de Março de 2019. Vice-presidente Mourão culpa o tiroteio em Suzano-SP, que acontecera algumas horas antes, nos videogames que os assassinos jogavam. A mídia de massa segue o bonde.
  • 15 de Março de 2019. No maior atentado terrorista na história da Nova Zelândia, 51 pessoas morrem nas mãos de um homem gritando “subscribe to pewdiepie”.
  • 24 de Junho de 2019. Gabriela Cattuzzo perde o apoio da Razer por dizer que homem é lixo, a empresa prioriza a segurança dos homens em vez da revolta das mulheres.
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A encruzilhada da bruxa adolescente

O blog da Editora Penumbra Livros recentemente publicou um texto chamado “por que odeiam o jovem místico” e ele me deixou com algumas pulgas atrás da orelha.

Primeiro pelo fato de que a pessoa que resolveu escrevê-lo não parece compreender muito bem as maneiras como misoginia e racismo reverberam em todas as faces da vida, inclusive a religiosa. E nenhum dos problemas apontados pelo texto tem como resposta satisfatória a, de fato, intolerância religiosa. Os exemplos dados são casos bem claros dos dois preconceitos citados acima.

Entretanto, qualquer pessoa com linhas de pensamentos derivadas do marxismo poderia apontar esses problemas com o texto. A questão real que me veio através deste foi: quem, realmente, odeia o jovem místico?

Acredito que o texto faça uma pergunta pertinente, mas não chega a nenhuma conclusão que não possa ser explicada melhor como racismo e/ou misoginia. E como uma bruxa que faz parte de redes sociais de bruxaria nacionais e internacionais eu quero tentar explorar ela melhor.

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She-Ra, Marvel e As Princesas Sapatão

Final de abril vai estrear o novo filme dos Vingadores, e eu até pensei em entrar no trem do hype e fazer algo relacionado aos filmes da Marvel. Mas pra que bater em cachorro morto?

Filmes da Marvel não são nada além de bons. Filmes gostosos de ver no cinema e comentar com os amigos, mas no final das contas é o mesmo filme sendo lançado 3 vezes por ano.

Capitã Marvel, entretanto, me intrigou. Não sobre o filme em si – ele é exatamente como todo mundo esperava que ele fosse – mas sobre uma outra super heroína loira consideravelmente parecida. E o produto criado para promover essa outra super heroína é muito mais interessante pra mim como crítica midiática do que a Capitã saiya-jin.

Essa super heroína é a She-Ra de She-Ra E As Princesas do Poder, desenho animado lançado em 2018 na Netflix que ganhará uma segunda temporada na mesma semana do lançamento de Vingadores: Ultimato no final desse mês.

Então como uma boa crítica interessada em trabalhos audiovisuais envolvendo super-heroínas eu vou falar sobre She-Ra e todas as suas semelhanças e diferenças com as heroínas da Marvel, do Steven Universo e dos demais trabalhos de Noelle Stevenson.

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Liberdade no capitalismo tardio?

Eu estava escrevendo uma série de textos chamada “diar.ptx” um tempo atrás, e… Eles são textos péssimos. Extremamente reacionários e assustados com o mundo sem nenhum tipo de conclusão útil. É só eu tendo medo de viver.

Eu quero corrigir isso.

Eles vão continuar ali pelo bem do arquivamento e por me lembrar do quanto eu fiquei girando em círculos sobre minhas próprias convicções por simplesmente estar com medo. Mas vamos tentar fazer algo mais útil com isso.

Uma pessoa importante na minha vida me disse outro dia que eu to patinando. Não acertou exatamente o motivo das minhas patinações, mas me fez pensar… O que eu to fazendo de errado na minha vida? Porque parece que eu só to correndo atrás do meu próprio rabo a tanto tempo?

Eu achei que essa corrida tava acontecendo desde dezembro, mas na verdade começou em novembro, extremamente bem ilustrado pelo meu texto “não existe liberdade no capitalismo tardio – diar.pt1“. Irônico né? Em todo meu medo do que o capitalismo estaria fazendo pra me manipular eu fui manipulada, igual um patinho.

Se por algum motivo depois dessas eleições ou depois de qualquer evento traumático associado ao sistema que a gente vive fez com que você ficasse com medo de existir ou apavorada com qualquer coisa como eu fiquei, eu quero aproveitar essa oportunidade pra te pegar pelos ombros e dizer “Sai dessa. Tá tudo bem”.

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Apesar de tudo, jogos ainda são arte.

Eu to tentando falar sobre videogames como arte desde que a Thais Weiller publicou “Jogos Não São Arte” (texto que você provavelmente deveria ler), e eu queria muito elaborar um contra ponto pra mostrar o quanto eu discordo do seu ponto, mas, no final das contas, depois de 2 anos de deliberação, eu noto que ela está certa… Mais ou menos.

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Trabalhe Como Um Gato: O Motivo Pelo Qual Você Deveria Relaxar No Trabalho

Esse texto foi originalmente escrito em inglês por Emerican Johnson no site non-compete sob o título Work Like a Cat: Here’s Why You Should Slack Off At Work. Esta é uma tradução livre para o português brasileiro, com algumas adaptações culturais (churrasco no lugar de piquenique por exemplo) para que o texto faça sentido no nosso contexto. E seguindo o padrão linguístico do blog de usar o gênero feminino como neutro, exceto quando se referindo a entidades opressoras ou quando a masculinidade do sujeito esteja explícita.

O texto precisa, entretanto, de contextualização sobre cultura de sabotagem, que você pode conseguir com esse vídeo caso não esteja familiarizada com o contexto.

Agora sem mais delongas…

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Tomem os meios de comunicação

Você quer que a revolução aconteça? Sim? Eu também. E Marx já dizia que para que a revolução acontecesse, a classe trabalhadora deveria tomar os meios de produção. E no mundo pós apocalíptico neoliberal distópico cyberpunk de capitalismo tardio que a gente vive, comunicação também é produção, e nós podemos e devemos tomar os meios de comunicação.

Na verdade, tomar os meios de comunicação será o primeiro passo da revolução do séxculo XXI pois a revolução não pode ser organizada em meios de comunicação controlados pelo capitalismo.

Existem várias formas de tomar os meios de comunicação, mas a primeira dela é rejeitando a comunicação por meios burgueses. Nesse post eu vou tratar justamente de como evitar os serviços de mensagem burgueses e tornar a sua internet o melhor possível para VOCÊ e não para o capital.

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Identidade Miserável – diar.pt3

Oi. Meu nome é Felicia Guerreiro, eu sou uma dedicada wiccana, blogueirinha gamer, pessoa não-binária transfeminina, ginossexual, e eu acredito que tudo que eu te falei agora significa a mesma coisa que bosta nenhuma sobre quem eu “sou”.

É. Esse vai ser mais um daqueles posts de crise existencial envolvendo o capitalismo tardio.

Mas acho que esse tipo de crise existencial acontecia também em outros sistemas político-econômicos. Então vamos falar disso. E usar Os Miseráveis como exemplo do porque “ser” é algo tão confuso.

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