Lughnasadh 2019, Donkey Kong 64 & Visibilidade Trans

Sabe quando você está jogando um RPG medieval qualquer, e aí você chega num vilarejo aleatório e está tendo um “festival da colheita” cheio de jogos, brincadeiras, e quitutes deliciosos? Mas, principalmente, um campeonato que suas personagens provavelmente vão ser obrigadas a participar?

Talvez a sua narradora não saiba, mas isso provavelmente foi baseado numa celebração que os antigos irlandeses chamariam de Lughnasadh, que ainda acontece tradicionalmente no dia 1 de Agosto na Irlanda e outros lugares que herdaram essa cultura no hemisfério norte, ou no dia 2 de Fevereiro para neo pagãs do hemisfério sul.

E o Lughnasadh foi bastante especial esse ano, graças a Donkey Kong 64, sereias e um certo menino que adora soja.

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Apesar de tudo, jogos ainda são arte.

Eu to tentando falar sobre videogames como arte desde que a Thais Weiller publicou “Jogos Não São Arte” (texto que você provavelmente deveria ler), e eu queria muito elaborar um contra ponto pra mostrar o quanto eu discordo do seu ponto, mas, no final das contas, depois de 2 anos de deliberação, eu noto que ela está certa… Mais ou menos.

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Solstício de Dezembro de 2018

Esse post se trata da religião Wiccana. Mas também tem anúncios e esclarecimentos em uma segunda parte para a qual quem não tem interesse em religião poder pular só pra se manter atualizada.

Desde que a página do Facebook começou lá em 2015 eu tenho feito um leve trabalho de feitiçaria cibernética junto com esse projeto. Esse trabalho consistia em escrever textos na página para refletir sobre os 8 Sabbaths da Roda do Ano druídica e wiccana (algumas pessoas chamam ela de Roda do Ano Celta, mas eu não acho que seja possível afirmar o contexto histórico que justifique esse termo).

Esses textos haviam sido delegados ao Facebook, pois é um lugar casual onde eu não necessariamente preciso manter algum tipo de “tema”. Mas com um novo ano gregoriano chegando e a perspectiva da minha provável iniciação se aproximando, eu decidi que a conexão do meu trabalho profissional e acadêmico é importantíssima. Com o desejo de mudar algumas coisas por aqui, trago então esses textos também, que ao decorrer do projeto serão escritos conforme novos temas e reflexões sobre essas importantes épocas do ano forem surgindo.

Gostaria de lembrar antes de começar que as histórias que eu trarei aqui geralmente não fazem parte do consenso que as pessoas chamam de “celta”. Eu vou estar falando de vários mitos e interpretações que acabam fugindo das leituras clássicas de Gardner e Farrar porque a Roda do Ano é pra ser algo pessoal. Se algo que eu disser aqui ressoar contigo, mais poder pra nós. Se não, vida que segue e incentivo você a encontrar seus próprios mitos.

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Eu Sou Um Produto – diar.pt2

Sabem como eu tava planejando terminar o hiato do blog? Com um post sobre a ContraPoints, e consequentemente, sobre a Natalie Wynn, e fazer alguns comentários sobre o que a morte do autor significa na era do youtube. Mas com toda a minha paranoia sobre privacidade e objetificação (descrita aqui, leia antes de prosseguir, por favor), eu não acho mais que eu tenho qualquer direito de me meter no trabalho da Natalie. Porque ser uma mulher trans na internet…

Não.

Ser uma mulher trans em público é uma bosta.

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Não Existe Liberdade no Capitalismo Tardio – diar.pt1

Cigarros tem gosto de liberdade. Poucas coisas se igualam ao sabor do tabaco queimando. Se você tá fumando você tá pouco se fodendo pras consequências, principalmente no Brasil onde você tem que fazer um esforço ativo para ignorar os avisos violentos atrás da carteira. Mesmo assim é uma prisão da qual 34% da população brasileira não consegue sair. Eu posso pensar que cigarro tem gosto de liberdade, mas o que é liberdade memso?

Desde o primeiro turno das eleições de 2018 eu tenho estado extremamente paranoica com produção e exposição algorítmica em redes sociais. Tentando fazer o melhor possível do ativismo de internet eu me senti recebendo um milhão de socos na barriga, um seguido do outro, pela forma como eu percebi que a internet foi roubada das usuárias há muito tempo pelas grandes corporações.

Eu sempre usei o Facebook como uma ferramenta de expressão pessoal. Todos os meus sentimentos, conquistas, derrotas e vitórias eram meticulosamente registrados em forma de texto (porque eu não gosto de fotografias) no Facebook, no meu blog; e no orkut e nos fóruns quando esses existiam. Em um mundo material onde eu me sentia presa ao meu próprio corpo a internet era o gosto de liberdade. Onde eu podia ser o que eu quisesse ser e falar o que eu quisesse. E é daí que vem a comparação com cigarros. Só tem gosto de liberdade, mas na verdade se tornou uma prisão.

O capitalismo tem uma tendência de destruir as coisas que a gente gosta e transformar elas em produtos. Nada mais justo, então, do que ele seguir o seu curso natural e transformar as pessoas em produtos. A Souza Cruz vende cigarros. O Mark Zuckerberg vende gente.

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Para nos tornarmos melhores do que nós mesmas

Ontem a noite, muitas de nós pensamos em desistir. Foi coisa demais pra uma noite só. Nossas famílias parentes e amigos – mais de 49 milhões de pessoas – nos traíram.
A gente se sente derrotada. O Bolsonaro nem venceu ainda e as redes sociais estão borbulhando com crimes de ódio contra nós.

As mais vulneráveis entre nós pensam em fugir pro Uruguai, Argentina ou Europa. E eu empatizo com elas, e desejo sorte no que decidirem fazer, mas A Onda do fascismo não parou nas fronteiras da Alemanha, não parou nas fronteiras dos Estados Unidos, e certamente não vai parar nas fronteiras do Brasil.

Não vou dizer pra ninguém fazer algo que se sinta desconfortável fazendo, mas estamos todas no mesmo barco, e a luta contra o fascismo é maior do que qualquer uma de nós. Mais do que nunca é hora da gente se unir, e militar como nunca militamos antes.

Existem duas coisas que nós devemos fazer agora que o segundo turno mais importante da história do país está há semanas de distância: Continuar lendo

Representando a expressão não binária

Deusa abençoe a desenvolvedora que apareceu pra falar comigo ante-ontem pedindo conselhos sobre inclusão não-binária pro jogo dela.

Sério, amiga. Sem você eu não teria o que postar esse mês no  blog (mentira, teria sim, mas eu to enrolando o máximo possível pra falar sobre o assunto que eu tenho guardado aqui comigo).

Então vamos falar sobre expressão de gênero e o que fazer pra incluir pessoas não-binárias na sua obra. Continuar lendo

Persona 5 Um Problema de Idades?

CW: Discussão sobre pedofilia.

Persona 5 é um joguinho complicado né? Não, não mecanicamente. Ele é complicado de se falar sobre os temas. E não, não é por causa que os temas são pesados. E sim porque as mensagens que ele passa são contraditórias.

E dependendo do seu olhar, o jogo parece ter umas definições um pouco maleáveis demais do que é ou não é uma relação sexual aceitável. É uma questão complicada de um jogo complicado vindo de uma cultura complicada. E eu quero falar dessas complicações.

Spoilers adiante. Continuar lendo

Tagarelando Sobre Persona 5

Persona 5 é um bom jogo. Mas só “bom” não vai tão longe quando se considera um dos seus antecessores, Persona 3, uma das obras primas do mundo do videogame.

Mas seja como for, Persona 5 é um jogo que fez a lição de casa – mesmo que não tenha sabido como implementar ela.

Não deve ser segredo pra vocês que o conceito principal da série, e seu título, foi baseado no estudo da psicologia arquetípica de Carl G. Jung, a Persona que é um tipo de arquétipo análogo a máscaras que usamos durante o dia a dia para nos apresentar para o mundo ao nosso redor. Mas enquanto em outros jogos essa ideia de arquétipos não passava de uma nota de rodapé e de um pequeno contexto para as situações mirabolantes que os adolescentes que protagonizam essa série passam, Persona 5 NÃO CALA A BOCA SOBRE ARQUÉTIPOS. Trickster, cognição, subconsciente coletivo. Você vai ouvir essas palavras durante o jogo de novo e de novo até a exaustão e depois mais um pouco.

É de se esperar, afinal de contas é o Persona que saiu depois da publicação do Livro Vermelho, o famigerado livro dos sonhos de Carl Jung, que algumas pessoas teorizavam ser o motivo do esquema de cores desse novo jogo ser vermelho. Mas será que ele faz juz a essa expectativa que o jogo coloca sobre si mesmo?

Como eu gastei mais de 120 horas da minha vida em Persona 5 e como eu tinha altas expectativas pro jogo, eu quero fazer alguns artigos envolvendo alguns aspectos literários dele. Mas antes eu queria expressar um sentimento que eu tenho em relação ao jogo…

Persona 5 é uma sequência né? Não se preocupem não tem spoilers a seguir. Continuar lendo

Um Caso de Consequências – Hellblade, The Cat Lady, Downfall e Atipicidades Mentais

Eu tava demorando muito já pra tratar desse assunto por que surgiram alguns problemas essa semana, que por acaso foi a mesma semana que eu terminei de jogar Hellblade: Senua’s Sacrifice.

E que jogo do caralho. A música, os sons, a arte. Quase tudo sobre Hellblade é incrível, mas eu sinto a necessidade de tratar um assunto específico em relação a esse jogo e outros dois jogos famosos sobre atipicidades mentais que por acaso também foram um marco grande na minha vida: Downfall e The Cat Lady.

Vou tentar manter o texto sem spoilers de Hellblade, mas de Downfall e The Cat Lady serão inevitáveis. Continuar lendo