Apropriação Transgênera (Um Resumo) – SBGames 2017

Nos dias 2, 3 e 4 de Novembro desse ano (2017) aconteceu a 13ª SBGames, um evento nacional sobre a pesquisa acadêmica e o desenvolvimento de videogames. E foi uma SBGames bastante especial por que a Thais Weiller – mulher mais incrível deste planeta – estava lá e resolveu montar um espaço pra gente falar de diversidades nos jogos, prontamente chamado de Jogos Diversos.

Este espaço foi ocupado por palestras maravilhosas de projetos e pesquisas que estão acontecendo ao redor desses temas, junto com rodas de conversa contando com a participação de algumas pessoas bastante incríveis como a Letícia Rodrigues, Beatriz Blanco, Lucas Goulart, Tainá Félix, Luiz Bragança, Tathiana Sanches, e mais um mundo de pessoas que eu não tenho como lembrar o nome e/ou linkar os seus projetos.

Tiveram duas mesas das quais eu participei, e eu quero falar das minhas apresentações nessas mesas aqui no blog porque muita gente tem me falado “nossa, que legal, Felicia. Do que você falou?” e eu posso simplesmente linkar este post para elas. Sem falar que na primeira apresentação eu estava nervosa que só o diabo e não consegui falar tudo que eu queria. Espero poder compensar aqui.

Mas uma dessas apresentações não será necessário falar sobre por que no Dia 4 eu basicamente só repeti as coisas que estão escritas no post recente Um Caso de Consequências – Hellblade, The Cat Lady, Downfall e Atipicidades Mentais.

A apresentação do Dia 3 foi uma compilação de outros assuntos que tratei no blog, mas eles estão espalhados de forma confusa. Então por que não fazer um post no blog resumindo essa história da mesma forma que fiz na SBGames?

Vamos lá! Continuar lendo

Trans In Games – Overwatch – D.va & A Apropriação Agressiva

Arte por KNKL

AAHHHHHH FINALMENTE TENHO UM COMPUTADOR DE VOLTA, PORRA!

Como é agonizante ficar sem me comunicar com vocês! Yeesh.

Mas agora eu to de volta, vai rolar altas novidades (então não esquece de me seguir no Facebook). E eu decidi chegar chegando.

É muito, muito raro quando uma desenvolvedora de videogames cria protagonistas trans de propósito. Eu falei já sobre apropriação transgênera em outro momento. Mas hoje eu quero falar sobre um fenômeno que eu creio ter pego a comunidade trans gamer um pouco surpresa, mas nos fez sentir ainda mais válidas do que nos sentíamos antes e iniciou um movimento ainda mais agressivo de apropriação transgênera da nossa parte.

Edit: Esse post é sobre MEMES que fazem parte de um movimento trans anarquista. A D.va NÃO é canonicamente trans e não é isso que to querendo dizer aqui. Ok? Ok. Continuar lendo

Trans In Games’ Spin Off – Pokémon GO, Passabilidade e Gêneros Subjetivos

Isso é um Spin Off da coluna Trans In Games que eu criei com o objetivo de falar sobre Pokémon GO. Já tem um tempo que eu queria fazer um Trans In Games sobre Pokémon, mas a verdade é que a série não tem muita coisa pra ser trabalhada na questão de gênero. Não existe ambiguidade nos gêneros dos treinadores e treinadoras Pokémon exceto talvez de uma Beauty que aparece no Pokémon X/Y.

E aí veio Pokémon GO. E quando você chega no nível 5 nesse jogo, você deve escolher de qual time você fará parte: Você tem coragem e força do time Valor, sabedoria e inteligência do time mystic, ou intuição e instinto selvagem do time Instinct?

Não é de se impressionar que quando revelaram quem seriam os líderes dos vindouros times de Pokémon GO, a comunidade trans escolheu TODOS ELES.

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Arte por Mico/Lu

Muita gente pirou nesses líderes porque… Eles parecem com a gente.

Spark, um menino de feições “afeminadas” e postura relaxada foi pego pela comunidade como, não apenas um guri trans, mas também o Senhor dos Memes. Esse moleque ficou tão epicamente zuado nas redes sociais que ele passou a ser conhecido como um garoto que quer mais se divertir e não liga muito pra brigas (nem pra relacionamentos). Muitas pessoas vêem o spark tanto como um guri trans como um ace.

A Blanche, minha waifu eterna, saiu com roupas azuis, brancas e roxas – cores muito próximas da bandeira trans. Isso em combinação com suas feições ambíguas fez a galera pegar Blanche como uma pessoa não-binária.

E a Candela já se imprimiu na cabeça das pessoas como uma sapatrans pronta pra pegar.

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Arte por POM

Eu pessoalmente gosto de ver a Blanche como uma mulher transfeminina que nem eu, e a Candela como uma sapatrans atleta e as duas estão num namoro lésbico. E eu gosto de ver um spark como um carinha amigo das duas que fica fora disso (não é importante se ele é trans ou não por que eu quero saber é das duas).

Mas nem tudo são flores, né?

A um tempo atrás eu postei algo na página do Facebook sobre esse jogo que eu vou parafrasear aqui:

Ontem eu estava ouvindo um podcast (cooptional podcast, do total biscuit) onde foi comentado sobre como eles odeiam as pessoas atribuindo identidades de gênero não-binárias aos líderes dos três times de Pokémon Go, e eu senti necessidade de me posicionar sobre o assunto e esclarecer umas coisas pra galera cis.

É péssimo quando as pessoas brigam por causa de uma personagem fictícia – ainda mais quando o motivo da briga é a identidade de gênero da personagem – isso diminui o valor artístico dessa personagem e usa pessoas trans de verdade como token pra uma discussão sem sentido.

Agora, se eu quiser dizer que a Candela é uma mulher trans lésbica ou whatever, isso não é da sua conta.

A maior parte do meu trabalho aqui gira em torno da morte do autor – uma teoria filosófica que muita gente não concorda, o que é de boa, mas não vamos brigar por conta disso – que fala sobre como, depois que uma obra é publicada, o autor perde toda a autoridade sobre a sua obra e ela passa a pertencer ao público, que através da apreciação e de diferentes interpretações, dão a essa obra o status de arte.

Videogames não são exceção. E a visão de cada pessoa sobre essas personagens vale mais do que a visão da Nintendo. São interpretações individuais que tornam arte, arte.

A beleza em particular das fandoms é o quanto essas interpretações individuais tomam vida na forma de fanart, fanfic, e discussão saudável.

Vendo que a internet nos permite dividir nossas próprias opiniões sobre obras de arte, no meu blog eu proponho interpretações políticas que desafiam papéis de gênero, expõe transfobia, e desfia a importância do “canon” (e sendo completamente sincera, do direito autoral também).

E eu também defendo que a discussão sobre a natureza dessas obras pode ser pacífica. Muita gente veio brigar comigo pra defender o fato de que o Naoto de Persona 4 é uma menina cis, que a Gwyndolin de Dark Souls é um homem cis e que a Linkle de Hyrule Warriors Legends é uma menina cis. E eu sinceramente acredito que as pessoas que vieram brigar comigo por causa disso não sabem o que arte significa, e eu simplesmente sinto pena delas. Será que dói pensar que suas personagens favoritas podem não ter a mesma identidade de gênero que você gostaria que elas tivessem?

O quê eu proponho aqui é uma desconstrução da cisgeneridade compulsória e é o que eu espero que minhes outres irmãs e irmãos trans fãs de Pokémon Go também estejam fazendo.

Mas agora eu tenho que admitir, tem algo além do desafio à cisgeneridade compulsória acontecendo aqui.

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Arte por Monmon

Vocês notaram como as minhas visões pessoais (meus head-cannons) divergem do consenso geral da comunidade trans sobre essas personagens? Eu chego até a ser um pouco misândrica em relação ao Spark por não conseguir ver ele como nada além do Senhor dos Memes.

E acho que isso tem a ver com as nossas noções de gênero e passabilidade.

Gênero é uma construção social – difícil negar isso – e como toda construção social, ela depende de um consenso. Mas quando a maioria das teorias sobre gênero que nós temos hoje surgiu, não existia o Tumblr nem todos esses gêneros que hoje estão além do masculino e do feminino e não se limitam apenas à variação “queer” ou outras variações regionais. E o gênero, hoje em dia, é visto como um papel que nós damos a nós mesmos.

Mas vamos ser realistas por um segundo. Se você tem barba, está usando calças e camiseta larga e está cruzando a rua comigo quando eu preciso desesperadamente perguntar as horas eu vou dizer “moço, você pode me dizer as horas?”, mesmo que você seja, por dentro, uma moça.

Gênero é identidade, mas gênero também é performance, e eu vou soar muito babaca por dizer isso, mas sendo completamente sincera, nós não podemos esperar respeito à nossa identidade a não ser que performemos essa identidade. E a performance de barba, camisa larga e calças me diz, imediatamente, homem. Essa não é nem de longe a única maneira de expressar masculinidade , mas esses significadores vão dizer para mim e para todo o mundo ao redor dessa pessoa: homem. Junto com todos os privilégios que isso acarreta.

Quando a gente entra no espectro não-binário de expressões de gênero as coisas ficam mais complicadas pois não há consenso. O que é masculino pra uma pessoa é feminino pra outra. O meu cabelo curto novo me rendeu elogios sobre a minha feminilidade no curso que eu faço. O mesmo cabelo me rendeu um atendente de lanchonete me chama de “rapaz” e um grupo de jovens preocupados no ônibus a me perguntar se “você tá bem, bróder?”, mesmo que em todas essas situações eu estivesse de saia.

Quando eu vi Blanche, eu imediatamente li nessa personagem uma mulher. E a maior parte das pessoas também parece ter tido a mesma impressão com a líder do time Mystic. Mas o meu irmão (cis) leu essa personagem imediatamente como homem; e uma amiga minha fica legitimamente confusa com o gênero dessa personagem e não sabe o que dizer quando se trata dela. E enquanto isso várias outras pessoas vêem Blanche como sendo de vários outros gêneros não-binários diferentes.

A Candela é uma mulher de curvas expressivas, e muitas pessoas pensam que ela não tem como ela ser trans com todas essas curvas. Enquanto que outras pessoas argumentam que ela é trans JUSTAMENTE por causa dessas curvas.

E o Spark… É o Senhor dos Memes.

(dá pra ver que eu sou Mystic só pelo tamanho dos parágrafos né?)

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Arte por Merkymerx

O que era claramente feminino pra mim, era claramente masculino pro meu irmão. O que era claramente transfeminino para alguns, era claramente cisfeminino para outros.

A verdade é que existem pessoas de todos os tipos de corpos e aparências em todos os gêneros. E a forma como nós lemos os outros nem sempre vai bater com a forma como a própria pessoa se vê ou como a pessoa do seu lado vê ela. Como eu disse nesse outro post, passabilidade é um conceito que logicamente não tem como existir, pois cada pessoa construiu ideias de gênero na sua cabeça de forma diferente da outra. E eu jamais poderia criminalizar o atendente da lanchonete por me chamar de moço, afinal, ensinaram ele desde criança que qualquer pessoa com cabelo curto é homem; enquanto que eu aprendi que pessoas como a Blanche são sempre mulheres; e outras pessoas nem tanto.

E até que a pessoa que é assunto desses julgamentos se manifeste, nenhum de nós está errado.

E como eu duvido que algum dia a Niantic se manifeste sobre os gêneros e sexos canônicos de cada personagem, a blanche e a candela vão continuar sendo sapatrans lindas, e o spark vai continuar sendo um menino bobo e divertido provavelmente assexual.

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Blanche, me possua <3 | Arte por Aurahack

Trans In Games – Hyrule Warriors: Legends – Linkle

Essa elfa é uma humana!

E pior que é mesmo. Não existem elfas na lore de The Legend of Zelda. Assim como aparentemente não existe lugar pra uma Link mulher; e mulheres heroínas só no jogo spin-off da Omega-Force que não é nem considerado canon.

Sexismo vindo da Nintendo não é novidade pra ninguém. É um monte de senhores de 50+ anos fazendo jogos pra crianças e adolescentes japoneses de acordo com as suas próprias visões de mundo antiquadas e machistas. Um ex empregado da Nintendo contou para o Kotaku (infelizmente não consegui achar a fonte; quem conseguir, me manda) um relato bem detalhado falando sobre inovação é impossível na empresa que funciona mais como um feudo japonês da era Sengoku do que uma desenvolvedora de videogames.

E quando os primeiros trailers do, agora conhecido como Breath of The Wilds saíram, todomundo estava super animade pra ver uma link menina num jogo principal da série. E o lançamento da Linkle em Hyrule Warriors só deixou a gente ainda mais animade!

Mas aí a E3 aconteceu e toda possibilidade de um dia podermos ver Link como menina caiu por terra… Ou será que caiu mesmo? Continuar lendo

20 Mulheres ALBT fictícias que inspiram a Felicia

Okay, eu sei que faz um tempo que o dia da mulher já passou, mas, ei! Antes tarde duke nukem.

Me inspirei num texto da Clarice do Ideias em Roxo e resolvi fazer uma lista de um monte de minas fictícias que eu curto pra caramba, mas a lista ficou grande demais, então eu fiz uma lista de personagens que me inspiram, e ainda assim ela ficou longa pra caralho, então eu encurtei mais ainda pra mulheres ALBT fictícias que me inspiram!

Isso inclui mulheres cis lésbicas, assexuais e bi/pan/poli/multi/omnissexuais, mulheres trans e pessoas transfemininas de todas as sexualidades, e pessoas com gênero fluído que passam boa parte do tempo se apresentando como mulheres.

E mesmo assim a lista ficou gigantesca. São 20 mulheres divididas em 16 itens e 4 categorias. E ainda tem mensões honrosas.

Antes de prosseguirmos com a lista, alguns esclarecimentos:
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Trans In Games – Dragon Age – Maevaris Tilani

Aproveitando o climão de Dragon Age, eu resolvi falar sobre uma das personagens mais lindas da história da fantasia medieval. E também uma das poucas personagens no mundo dos jogos eletrônicos que é canonicamente trans.

CUIDADO, pois esse post contém spoilers de Dragon Age: Those Who Speak, Dragon Age: Until We Sleep, Dragon Age: Inquisition, Dragon Age: Inquisition: Trespasser  e…. Sense 8? Pois é.

Eu já falei dela em outro artigo (que eu recomendo que leiam antes de ler esse), mas agora eu quero entrar em mais detalhes sobre a vida, a magia e a beleza de… Continuar lendo

Apropriação Transgênera

Falar sobre personagens transgêneras em videogames é algo extremamente complicado porque elas não existem.

A maior parte de vocês sabe que isso é provavelmente a coisa que eu mais faço nesse blog: Falar de personagens trans em jogos de videogame. Mas tirando o Krem, a Erica e a Sya, nenhuma dessas personagens é canonicamente transgênera. Na verdade eu tenho uma lista enorme de personagens das quais falar na coluna Trans In Games, mas sabem quantas dessas personagens são canonicamente trans?

Quatro…

Então porque eu falei de tantas outras personagens falando que elas são trans, sendo que elas não são canonicamente trans?

É algo que eu tenho pensado muito comigo mesma e com algumas amigas trans minhas. E acho que isso seria algo chamado de “Apropriação Transgênera”. E isso é uma coisa boa e necessária pra gente conseguir criar o nosso próprio espaço na comunidade gamer.

E se você for um homem cis vindo aqui dizendo que a gente não pode se apropriar das personagens, nem se dê ao trabalho de ler o resto. Vai fazer algo útil tipo alimentar seus bichinhos de estimação. Eles precisam de ti. A gente não. Continuar lendo

Trans In Games – Kirby

Esse provavelmente será o último Trans In Games do ano, e eu queria fechar o ano com uma coisa fofinha e cor de rosa. E não existe nada mais fofinhe E cor de rosa que e próprie Kirby!

Mas agora você deve estar pensando “What the fuck, Felicia? Desde quando Kirby é trans?”

Okay, você tem razão. Kirby não é trans no sentido de que recebeu um gênero no seu nascimento, mas no decorrer da sua vida se viu como sendo de um gênero diferente… ENTRETANTO, não existe maior desafio a normas de gênero no mundo dos jogos do que essa bolinha cor de rosa que gosta tanto de comer!

Possíveis Spoilers de Kirby’s Avalanche, Kirby’s Dream Land 3 e Kirby 64: The Crystal Shards (mas nada demais) a seguir~

Eu não to conseguindo evitar o sorriso enquanto faço a pesquisa pra essa matéria! Kirby é a coisinha mais fofa do mundo! Continuar lendo

Trans In Games – Persona 4 – Naoto Shirogane

Eu fiquei enrolando esse post acho que por mais de um mês. Esse assunto, Naoto e Persona 4, é um assunto muito delicado pra mim. Principalmente porque ele era meu jogo favorito na minha pré-adolescência, mas aí eu fui jogar ele de novo depois de ter começado a minha transição e eu chorei toda vez que via o Naoto, e fiquei com um desgosto enorme pelo Kanji e pelos demais personagens homens cis do jogo.

A misoginia e a homofobia reproduzida por essas personagens é de doer no peito. Ainda mais em um jogo com uma história tão profunda e complexa quanto esse. Eu me sinto triste toda vez que penso em Persona 4. Eu sinto que vou ter um ataque de pânico toda vez que ouço alguém se referir ao Naoto usando pronomes, artigos e adjetivos femininos.

Meu objetivo nesse post já deixou de ser desafiar o canon e provar que o Naoto é homem. Também já deixou de ser denunciar a misoginia, a transfobia, e a homofobia que existe no jogo. Agora é só um desabafo. Preciso tirar essa pedra do meu caminho pra poder continuar com as demais personagens trans maravilhosas que o nosso mundo de videogames tem pra oferecer.

Se eu vou chorar toda vez que abro o editor desse arquivo, vamos chorar pra valer, e chorar tudo de uma vez. Eu nem comecei a falar dele e já estou chorando. Esse assunto é super trigger, então, por favor, gente. Sem comentários babacas dessa vez.

Spoilers de Persona 4 adiante.

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