Pais de Videogame e Masculinidade: Geralt e Kratos

Hoje é Yule, a noite mais longa do ano, onde o nascimento da Criança da Promessa coincide com a Caçada Selvagem de Odin.

Ano passado eu expliquei pra vocês os básicos do Yule e o que nós da Wicca celebramos no dia 21 de junho.[1] Mas pra quem não leu: Esse feriado se trata do nascimento da “Criança da Promessa”, onde celebramos as bênçãos da maternidade, da paternidade, e da união e amor familiares.

Naquele texto eu acabei expressando uma certa frustração por praticamente não existirem videogames sobre maternidade no mercado mainstream. Por outro lado, a Paternidade vem sido muito bem trabalhada nas últimas duas gerações. Parece lógico o motivo pelo qual isso acontece: A grande maioria dos desenvolvedores de videogame são homens e muitos deles hoje em dia tem filhos pequenos, e experiência pessoal suficiente com os desafios da paternidade que pode ser refletida nos seus trabalhos artísticos com exatidão.

Eu não sou pai nem mãe. Pretendo ter filhas algum dia na minha vida, mas eu estou muito longe da maturidade emocional e da condição financeira social para realmente criar uma criança. Entretanto, eu sou filha, já fui filho, e eu tenho pensando muito em como a relação com meu pai poderia ter sido diferente e mais sadia se ele visse os exemplos de pais que eu vejo nos videogames hoje em dia.

Spoilers de God of War III e God of War (2018) a frente.

Continuar lendo

Naughty Dog e o Fascínio Com A Morte

Você já ouviu falar num livro chamado O Diário de Turner?

É horrível. Se você não leu ainda, considere-se abençoada. Esse livro vem sido usado como inspiração para ataques terroristas da extrema direita desde os anos 90 nos Estados Unidos, e é um resumo extremamente sucinto do que a essa visão política considera uma utopia, e o que é justo de ser feito para atingir essa utopia.

Tem resumos bem curtos e diretos sobre ele na internet [1] e esses resumos são todo o engajamento que você vai precisar ter com esse livro na sua vida inteira.

Continuar lendo

Mas Naquela Época! Elfos, Fadas e Anões.

Orlando Bloom de peruca loira surfando uma escadaria com um escudo enquanto atira flechas certeiras num exército de orcs. Se Tolkien já havia solidificado uma ideia de elfos bastante particular na mente das leitoras de fantasia, Peter Jackson criou uma imagem ainda mais incrível na mente do público geral.

Elegantes, esguios, sem pelos faciais, extremamente atraentes e amantes de todas as coisas da natureza. Tolkien, Gygax, Jackson e todos os seus contemporâneos e sucessores resolveram representar elfos assim, como seres de luz e sabedoria que vieram de outro mundo. Romântico, não?
Mas essa não é a única forma de se representar elfos.

Continuar lendo

Mas Naquela Época! Raças e o Trono de Ouro

Há MUITO tempo atrás eu escrevi duas matérias sobre como preconceito sexual surgiu na história do nosso mundo e como ele acabou sendo refletido de maneiras positivas e negativas dentro da Fantasia Medieval. E eu ia continuar o assunto explicando como Dragon Age lida com esse legado do nosso mundo para criar uma experiência muito diferente e refrescante.

Mas eu e Dragon Age terminamos o nosso relacionamento. Eu olhei pra todos os abusos incentivados pelo estúdio responsável pelo meu cenário de RPG favorito; olhei para o fato de que ele logo provavelmente será abandonado pela EA Games; olhei para todos os suplementos que ainda teriam que ser lançados para tornar Dragon Age um jogo verdadeiramente bom; e olhei pra Green Ronin simplesmente desistindo de esperar e lançando Fantasy Age no lugar. Olhei pra isso tudo e me senti obrigada a olhar nos olhos de Dragon Age e dizer “sinto muito, mas não tenho como continuar desse jeito”.

Nos abraçamos com um último beijo no seu rosto e partimos para onde os ventos pudessem nos levar.

Eu não sei onde Dragon Age está agora, mas eu me senti desolada depois do nosso término. Procurei e procurei por substitutos apropriados. Terry Pratchett? Shadowlord? Nada satisfazia o vazio ideológico deixado por Dragon Age. Então eu decidi tentar o impossível: Criar meu próprio cenário!

Depois de muitas noites mal dormidas olhando pra uma tela vazia do Word, eu finalmente consegui fazer… Algumas raças pra jogar com o sistema Modern AGE. E aí eu desisti de vez porque The Witcher apareceu como um bom substituto e eu não precisava mais fritar minha cabeça criando meu próprio cenário.

Mas aí eu pensei. Criar um cenário pode ser útil como exercício para analisar algumas problemáticas comuns dos mundos de Fantasia Medieval. Então, nesse texto, além de trazer pra vocês a problemática das Raças na Fantasia Medieval, introduzirei pra vocês O Trono de Ouro, uma fantasia da era das navegações sobre luta de classes e conflitos culturais.

E como eu comecei a escrever o cenário pelas suas dinâmicas raciais, acredito que esse seja o melhor ponto para começarmos nossa jornada.

Continuar lendo

Apesar de tudo, jogos ainda são arte.

Eu to tentando falar sobre videogames como arte desde que a Thais Weiller publicou “Jogos Não São Arte” (texto que você provavelmente deveria ler), e eu queria muito elaborar um contra ponto pra mostrar o quanto eu discordo do seu ponto, mas, no final das contas, depois de 2 anos de deliberação, eu noto que ela está certa… Mais ou menos.

Continuar lendo

Identidade Miserável – diar.pt3

Oi. Meu nome é Felicia Guerreiro, eu sou uma dedicada wiccana, blogueirinha gamer, pessoa não-binária transfeminina, ginossexual, e eu acredito que tudo que eu te falei agora significa a mesma coisa que bosta nenhuma sobre quem eu “sou”.

É. Esse vai ser mais um daqueles posts de crise existencial envolvendo o capitalismo tardio.

Mas acho que esse tipo de crise existencial acontecia também em outros sistemas político-econômicos. Então vamos falar disso. E usar Os Miseráveis como exemplo do porque “ser” é algo tão confuso.

Continuar lendo

Mas Naquela Época! História do Preconceito Sexual na Fantasia Medieval

Trigger Warning: Weird Tales. As Crônicas de Gor. Não tente satisfazer sua curiosidade mórbida.

Enrolei pra caralho. Mais de um mês, mas aqui estou de volta ao reino dos mortais para falar de Fantasia Medieval e do porque eu gosto tanto de Dragon Age e não consigo calar a boca sobre esse negócio. Mas antes de falar da desconstrução do gênero, é bom a gente falar da construção dele. Em específico sobre a relação dele com preconceitos sexuais.

Da última vez nós falamos da origem dos preconceitos sexuais no nosso mundo. E aquela foi uma discussão extremamente interessante e elucidativa, mas por que ela é importante pra falar de fantasia? Fantasia é o que quer que surja nas nossas imaginações, não é mesmo? Então por que isso deveria importar? Continuar lendo

Mas Naquela Época! Introdução & História do Preconceito Sexual

Fantasia Medieval. Meu gênero de ficção favorito pra ser honesta. Ele nos da dragões, magia, e uma base semelhante o suficiente a história do nosso próprio mundo pra explorar problemas mais pé no chão que talvez não sejam possíveis nos gêneros de ultra-high-fantasy ou sci-fi.

Okay, talvez isso seja só uma desculpa pra um certo fetichismo nórdico criado por Tolkien. Mas é um gênero MUITO popular! Principalmente no mundo do RPG. E justamente por ser tão popular ninguém pensa muito sobre. “Ah, é só mais um D&D” pensam os céticos quando olham pra uma caixa de Dragon Age. Mas o conteúdo dessas caixas escondem muito mais do que cavaleiros e dragões.

John R. R. Tolkien, Robert E. Howard, Dave Arneson e Gary Gygax criaram todas as regras silenciosas da Fantasia Medieval que ninguém questiona ou põe a prova. E os seus trabalhos eram abertos o suficiente (principalmente do Gygax) pra que qualquer suposição que o seu publico alvo tenha sobre a realidade acaba entrando ainda mais silenciosamente dentro desse léxico fantástico.

E eu quero desafiar esse léxico. Muita gente gosta de usar esse gênero de fantasia pra justificar comportamentos preconceituosos, usando principalmente do argumento “MAS NAQUELA ÉPOCA”. E é disso que se tratará essa série de textos. Eu quero desafiar a noção do público da Fantasia Medieval. De o que “aquela época” significa. E com isso talvez você saia daqui aprendendo alguma coisa nova. Continuar lendo

Representando a expressão não binária

Deusa abençoe a desenvolvedora que apareceu pra falar comigo ante-ontem pedindo conselhos sobre inclusão não-binária pro jogo dela.

Sério, amiga. Sem você eu não teria o que postar esse mês no  blog (mentira, teria sim, mas eu to enrolando o máximo possível pra falar sobre o assunto que eu tenho guardado aqui comigo).

Então vamos falar sobre expressão de gênero e o que fazer pra incluir pessoas não-binárias na sua obra. Continuar lendo