Electronic Asco, ou, Como o Capitalismo Destrói Tudo Que Você Ama Dragon Age Edition

Na manhã do dia 2 de Abril de 2019, Jason Schreirer publicou no Kotaku uma história muito interessante e dolorosa sobre como aconteceu o turbulento desenvolvimento de um dos jogos mais decepcionantes da atualidade: Anthem.

How Bioware’s Anthem Went Wrong

Eu pensei em entrar em contato com o Kotaku pra ter permissão de traduzir a história toda como ela foi realmente escrita, mas eu não tenho certeza ainda de como fazer esse contato (até porque o grupo Gizmodo já tem uma filial brasileira, mas eles parecem mais interessados em carro do que em videogame).

Enquanto isso não acontece eu preciso pelo menos tirar isso do meu sistema: Eu estou mais que decepcionada. Eu estou profundamente horrorizada.

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Tagarelando Sobre Persona 5

Persona 5 é um bom jogo. Mas só “bom” não vai tão longe quando se considera um dos seus antecessores, Persona 3, uma das obras primas do mundo do videogame.

Mas seja como for, Persona 5 é um jogo que fez a lição de casa – mesmo que não tenha sabido como implementar ela.

Não deve ser segredo pra vocês que o conceito principal da série, e seu título, foi baseado no estudo da psicologia arquetípica de Carl G. Jung, a Persona que é um tipo de arquétipo análogo a máscaras que usamos durante o dia a dia para nos apresentar para o mundo ao nosso redor. Mas enquanto em outros jogos essa ideia de arquétipos não passava de uma nota de rodapé e de um pequeno contexto para as situações mirabolantes que os adolescentes que protagonizam essa série passam, Persona 5 NÃO CALA A BOCA SOBRE ARQUÉTIPOS. Trickster, cognição, subconsciente coletivo. Você vai ouvir essas palavras durante o jogo de novo e de novo até a exaustão e depois mais um pouco.

É de se esperar, afinal de contas é o Persona que saiu depois da publicação do Livro Vermelho, o famigerado livro dos sonhos de Carl Jung, que algumas pessoas teorizavam ser o motivo do esquema de cores desse novo jogo ser vermelho. Mas será que ele faz juz a essa expectativa que o jogo coloca sobre si mesmo?

Como eu gastei mais de 120 horas da minha vida em Persona 5 e como eu tinha altas expectativas pro jogo, eu quero fazer alguns artigos envolvendo alguns aspectos literários dele. Mas antes eu queria expressar um sentimento que eu tenho em relação ao jogo…

Persona 5 é uma sequência né? Não se preocupem não tem spoilers a seguir. Continuar lendo

5 mulheres que mulheres podem namorar em videogames

Às vezes nós jogamos videogames como uma forma de auto-expressão. Eu escrevi um artigo sobre isso aqui. Mas por mais que os mundos dos jogos estejam abertos para vários tipos de interação, normalmente faltam sistemas inclusivos de romance entre pessoas do mesmo gênero.

Hoje, na semana da visibilidade lésbica, vim trazer o meu top 5 de mulheres que você pode namorar em videogames enquanto sendo uma mulher.

Essa lista NÃO tem nenhuma ordem específica ou algum critério além de “A Felicia curte muito essa personagem”. Elas simplesmente são as minhas waifus que querem dar uns chupões nas minhas avatares femininas. Continuar lendo

A Beleza do Desequilíbrio

Vamos dar uma pausa na discussão sobre gênero pra falar de algo mais técnico que eu venho querendo abordar faz tempo.

Tem uma palavra que sempre que eu ouço, fazem meus ouvidinhos de designer coçarem como se eu tivesse com sarna. “Balanceamento”. E não é só o falso cognato com a palavra balancing que me deixa louca. O principal é o quanto as pessoas dão uma importância desnecessária pra isso.

Nem todo jogo precisa ser equilibrado. A falta de equilíbrio entre as forças opostas de um jogo muitas vezes são necessárias para garantir a força do tema do jogo, e a fluidez das suas mecânicas. Tentar “equilibrar” o seu jogo para que todas as partes tenham a mesma chance de “vencer” pode ser um grande desperdício de tempo, dinheiro e energia que acaba criando algo virtualmente inútil. Continuar lendo

Trans In Games’ Spin Off – Pokémon GO, Passabilidade e Gêneros Subjetivos

Isso é um Spin Off da coluna Trans In Games que eu criei com o objetivo de falar sobre Pokémon GO. Já tem um tempo que eu queria fazer um Trans In Games sobre Pokémon, mas a verdade é que a série não tem muita coisa pra ser trabalhada na questão de gênero. Não existe ambiguidade nos gêneros dos treinadores e treinadoras Pokémon exceto talvez de uma Beauty que aparece no Pokémon X/Y.

E aí veio Pokémon GO. E quando você chega no nível 5 nesse jogo, você deve escolher de qual time você fará parte: Você tem coragem e força do time Valor, sabedoria e inteligência do time mystic, ou intuição e instinto selvagem do time Instinct?

Não é de se impressionar que quando revelaram quem seriam os líderes dos vindouros times de Pokémon GO, a comunidade trans escolheu TODOS ELES.

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Arte por Mico/Lu

Muita gente pirou nesses líderes porque… Eles parecem com a gente.

Spark, um menino de feições “afeminadas” e postura relaxada foi pego pela comunidade como, não apenas um guri trans, mas também o Senhor dos Memes. Esse moleque ficou tão epicamente zuado nas redes sociais que ele passou a ser conhecido como um garoto que quer mais se divertir e não liga muito pra brigas (nem pra relacionamentos). Muitas pessoas vêem o spark tanto como um guri trans como um ace.

A Blanche, minha waifu eterna, saiu com roupas azuis, brancas e roxas – cores muito próximas da bandeira trans. Isso em combinação com suas feições ambíguas fez a galera pegar Blanche como uma pessoa não-binária.

E a Candela já se imprimiu na cabeça das pessoas como uma sapatrans pronta pra pegar.

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Arte por POM

Eu pessoalmente gosto de ver a Blanche como uma mulher transfeminina que nem eu, e a Candela como uma sapatrans atleta e as duas estão num namoro lésbico. E eu gosto de ver um spark como um carinha amigo das duas que fica fora disso (não é importante se ele é trans ou não por que eu quero saber é das duas).

Mas nem tudo são flores, né?

A um tempo atrás eu postei algo na página do Facebook sobre esse jogo que eu vou parafrasear aqui:

Ontem eu estava ouvindo um podcast (cooptional podcast, do total biscuit) onde foi comentado sobre como eles odeiam as pessoas atribuindo identidades de gênero não-binárias aos líderes dos três times de Pokémon Go, e eu senti necessidade de me posicionar sobre o assunto e esclarecer umas coisas pra galera cis.

É péssimo quando as pessoas brigam por causa de uma personagem fictícia – ainda mais quando o motivo da briga é a identidade de gênero da personagem – isso diminui o valor artístico dessa personagem e usa pessoas trans de verdade como token pra uma discussão sem sentido.

Agora, se eu quiser dizer que a Candela é uma mulher trans lésbica ou whatever, isso não é da sua conta.

A maior parte do meu trabalho aqui gira em torno da morte do autor – uma teoria filosófica que muita gente não concorda, o que é de boa, mas não vamos brigar por conta disso – que fala sobre como, depois que uma obra é publicada, o autor perde toda a autoridade sobre a sua obra e ela passa a pertencer ao público, que através da apreciação e de diferentes interpretações, dão a essa obra o status de arte.

Videogames não são exceção. E a visão de cada pessoa sobre essas personagens vale mais do que a visão da Nintendo. São interpretações individuais que tornam arte, arte.

A beleza em particular das fandoms é o quanto essas interpretações individuais tomam vida na forma de fanart, fanfic, e discussão saudável.

Vendo que a internet nos permite dividir nossas próprias opiniões sobre obras de arte, no meu blog eu proponho interpretações políticas que desafiam papéis de gênero, expõe transfobia, e desfia a importância do “canon” (e sendo completamente sincera, do direito autoral também).

E eu também defendo que a discussão sobre a natureza dessas obras pode ser pacífica. Muita gente veio brigar comigo pra defender o fato de que o Naoto de Persona 4 é uma menina cis, que a Gwyndolin de Dark Souls é um homem cis e que a Linkle de Hyrule Warriors Legends é uma menina cis. E eu sinceramente acredito que as pessoas que vieram brigar comigo por causa disso não sabem o que arte significa, e eu simplesmente sinto pena delas. Será que dói pensar que suas personagens favoritas podem não ter a mesma identidade de gênero que você gostaria que elas tivessem?

O quê eu proponho aqui é uma desconstrução da cisgeneridade compulsória e é o que eu espero que minhes outres irmãs e irmãos trans fãs de Pokémon Go também estejam fazendo.

Mas agora eu tenho que admitir, tem algo além do desafio à cisgeneridade compulsória acontecendo aqui.

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Arte por Monmon

Vocês notaram como as minhas visões pessoais (meus head-cannons) divergem do consenso geral da comunidade trans sobre essas personagens? Eu chego até a ser um pouco misândrica em relação ao Spark por não conseguir ver ele como nada além do Senhor dos Memes.

E acho que isso tem a ver com as nossas noções de gênero e passabilidade.

Gênero é uma construção social – difícil negar isso – e como toda construção social, ela depende de um consenso. Mas quando a maioria das teorias sobre gênero que nós temos hoje surgiu, não existia o Tumblr nem todos esses gêneros que hoje estão além do masculino e do feminino e não se limitam apenas à variação “queer” ou outras variações regionais. E o gênero, hoje em dia, é visto como um papel que nós damos a nós mesmos.

Mas vamos ser realistas por um segundo. Se você tem barba, está usando calças e camiseta larga e está cruzando a rua comigo quando eu preciso desesperadamente perguntar as horas eu vou dizer “moço, você pode me dizer as horas?”, mesmo que você seja, por dentro, uma moça.

Gênero é identidade, mas gênero também é performance, e eu vou soar muito babaca por dizer isso, mas sendo completamente sincera, nós não podemos esperar respeito à nossa identidade a não ser que performemos essa identidade. E a performance de barba, camisa larga e calças me diz, imediatamente, homem. Essa não é nem de longe a única maneira de expressar masculinidade , mas esses significadores vão dizer para mim e para todo o mundo ao redor dessa pessoa: homem. Junto com todos os privilégios que isso acarreta.

Quando a gente entra no espectro não-binário de expressões de gênero as coisas ficam mais complicadas pois não há consenso. O que é masculino pra uma pessoa é feminino pra outra. O meu cabelo curto novo me rendeu elogios sobre a minha feminilidade no curso que eu faço. O mesmo cabelo me rendeu um atendente de lanchonete me chama de “rapaz” e um grupo de jovens preocupados no ônibus a me perguntar se “você tá bem, bróder?”, mesmo que em todas essas situações eu estivesse de saia.

Quando eu vi Blanche, eu imediatamente li nessa personagem uma mulher. E a maior parte das pessoas também parece ter tido a mesma impressão com a líder do time Mystic. Mas o meu irmão (cis) leu essa personagem imediatamente como homem; e uma amiga minha fica legitimamente confusa com o gênero dessa personagem e não sabe o que dizer quando se trata dela. E enquanto isso várias outras pessoas vêem Blanche como sendo de vários outros gêneros não-binários diferentes.

A Candela é uma mulher de curvas expressivas, e muitas pessoas pensam que ela não tem como ela ser trans com todas essas curvas. Enquanto que outras pessoas argumentam que ela é trans JUSTAMENTE por causa dessas curvas.

E o Spark… É o Senhor dos Memes.

(dá pra ver que eu sou Mystic só pelo tamanho dos parágrafos né?)

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Arte por Merkymerx

O que era claramente feminino pra mim, era claramente masculino pro meu irmão. O que era claramente transfeminino para alguns, era claramente cisfeminino para outros.

A verdade é que existem pessoas de todos os tipos de corpos e aparências em todos os gêneros. E a forma como nós lemos os outros nem sempre vai bater com a forma como a própria pessoa se vê ou como a pessoa do seu lado vê ela. Como eu disse nesse outro post, passabilidade é um conceito que logicamente não tem como existir, pois cada pessoa construiu ideias de gênero na sua cabeça de forma diferente da outra. E eu jamais poderia criminalizar o atendente da lanchonete por me chamar de moço, afinal, ensinaram ele desde criança que qualquer pessoa com cabelo curto é homem; enquanto que eu aprendi que pessoas como a Blanche são sempre mulheres; e outras pessoas nem tanto.

E até que a pessoa que é assunto desses julgamentos se manifeste, nenhum de nós está errado.

E como eu duvido que algum dia a Niantic se manifeste sobre os gêneros e sexos canônicos de cada personagem, a blanche e a candela vão continuar sendo sapatrans lindas, e o spark vai continuar sendo um menino bobo e divertido provavelmente assexual.

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Blanche, me possua <3 | Arte por Aurahack

Calculando e Distorcendo Distâncias em RPG

PdJ = Personagem de Jogadore

RPGs de mesa são jogos de mundo aberto com o maior-fodendo-mapa que você consegue imaginar. Afinal as fronteiras desse mundo aberto não estão limitadas por tecnologia, memória e mecânicas inconsistentes. E sim na sua imaginação.

É o maior círculo mágico que você poderia traçar. E é responsabilidade da pessoa que está narrando traçar este círculo; e PUTA QUE PARIU que círculo difícil de traçar. Vou te contar, narrar RPG é um trampozinho desgraçado. Gostoso, mas desgraçado. Continuar lendo

Dark Souls Não É Tão Difícil

Eu não sou o tipo de pessoa que fica por aí nos Reddits e nos fóruns de videogame procurando discutir os últimos lançamentos da indústria. Esses ambiente já são suficientemente nocivos para quem já faz parte deles faz tempo. Pra uma mulher trans que acabou de chegar seria a mesma coisa que se jogar numa jaula de hienas famintas: Desnecessário.

Mas sempre que eu converso nos poucos círculos gamers que eu possuo, há uma atitude em relação a Dark Souls que eu só consigo entender como fazendo parte do machismo que existe no mundo dos jogos e de uma suposta “meritocracia” que divide “gamers de verdade” e “casuais”.

Porque a maioria das pessoas não tem interesse em jogar Dark Souls? Ele é muito difícil. Um amigo meu uma vez me falou que não entende “como alguém pode querer jogar um jogo difícil só por ser difícil?” Todomundo fala sobre o quanto você vai morrer jogando Dark Souls, de novo e de novo, e até o nome da edição especial do primeiro jogo se chama “Prepare to Die”. “Prepare-se para morrer”.

Entretanto, tudo isso não passa de uma barreira psicológica. Um estigma social que foi colocado ao redor da série pelos fãs e pela desenvolvedora. Dark Souls não é tão difícil assim. Continuar lendo

20 Mulheres ALBT fictícias que inspiram a Felicia

Okay, eu sei que faz um tempo que o dia da mulher já passou, mas, ei! Antes tarde duke nukem.

Me inspirei num texto da Clarice do Ideias em Roxo e resolvi fazer uma lista de um monte de minas fictícias que eu curto pra caramba, mas a lista ficou grande demais, então eu fiz uma lista de personagens que me inspiram, e ainda assim ela ficou longa pra caralho, então eu encurtei mais ainda pra mulheres ALBT fictícias que me inspiram!

Isso inclui mulheres cis lésbicas, assexuais e bi/pan/poli/multi/omnissexuais, mulheres trans e pessoas transfemininas de todas as sexualidades, e pessoas com gênero fluído que passam boa parte do tempo se apresentando como mulheres.

E mesmo assim a lista ficou gigantesca. São 20 mulheres divididas em 16 itens e 4 categorias. E ainda tem mensões honrosas.

Antes de prosseguirmos com a lista, alguns esclarecimentos:
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Aqun-Athlok, Transgeneridade Sob O Qun

Acabei de acordar de um sonho com um homem com a palavra Aqun-Athlok tatuada no peito.

Eu ando focando tanto em Dragon Age nessas últimas semanas que eu acho que está afetando meus sonhos, mas eu imaginei que seria uma boa hora de falar sobre O aspecto mais chato de Dragon Age: Inquisition: As contradições do Iron Bull sobre o Qun.

E também vou aproveitar e fazer um questionamento sobre inclusividade trans e apagamento intersexo.

Spoilers de Dragon Age: Origins, Dragon Age: Inquisition e Dragon Age: Those Who Speak. Continuar lendo

Trans In Games – Dragon Age – Maevaris Tilani

Aproveitando o climão de Dragon Age, eu resolvi falar sobre uma das personagens mais lindas da história da fantasia medieval. E também uma das poucas personagens no mundo dos jogos eletrônicos que é canonicamente trans.

CUIDADO, pois esse post contém spoilers de Dragon Age: Those Who Speak, Dragon Age: Until We Sleep, Dragon Age: Inquisition, Dragon Age: Inquisition: Trespasser  e…. Sense 8? Pois é.

Eu já falei dela em outro artigo (que eu recomendo que leiam antes de ler esse), mas agora eu quero entrar em mais detalhes sobre a vida, a magia e a beleza de… Continuar lendo