A encruzilhada da bruxa adolescente

O blog da Editora Penumbra Livros recentemente publicou um texto chamado “por que odeiam o jovem místico” e ele me deixou com algumas pulgas atrás da orelha.

Primeiro pelo fato de que a pessoa que resolveu escrevê-lo não parece compreender muito bem as maneiras como misoginia e racismo reverberam em todas as faces da vida, inclusive a religiosa. E nenhum dos problemas apontados pelo texto tem como resposta satisfatória a, de fato, intolerância religiosa. Os exemplos dados são casos bem claros dos dois preconceitos citados acima.

Entretanto, qualquer pessoa com linhas de pensamentos derivadas do marxismo poderia apontar esses problemas com o texto. A questão real que me veio através deste foi: quem, realmente, odeia o jovem místico?

Acredito que o texto faça uma pergunta pertinente, mas não chega a nenhuma conclusão que não possa ser explicada melhor como racismo e/ou misoginia. E como uma bruxa que faz parte de redes sociais de bruxaria nacionais e internacionais eu quero tentar explorar ela melhor.

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She-Ra, Marvel e As Princesas Sapatão

Final de abril vai estrear o novo filme dos Vingadores, e eu até pensei em entrar no trem do hype e fazer algo relacionado aos filmes da Marvel. Mas pra que bater em cachorro morto?

Filmes da Marvel não são nada além de bons. Filmes gostosos de ver no cinema e comentar com os amigos, mas no final das contas é o mesmo filme sendo lançado 3 vezes por ano.

Capitã Marvel, entretanto, me intrigou. Não sobre o filme em si – ele é exatamente como todo mundo esperava que ele fosse – mas sobre uma outra super heroína loira consideravelmente parecida. E o produto criado para promover essa outra super heroína é muito mais interessante pra mim como crítica midiática do que a Capitã saiya-jin.

Essa super heroína é a She-Ra de She-Ra E As Princesas do Poder, desenho animado lançado em 2018 na Netflix que ganhará uma segunda temporada na mesma semana do lançamento de Vingadores: Ultimato no final desse mês.

Então como uma boa crítica interessada em trabalhos audiovisuais envolvendo super-heroínas eu vou falar sobre She-Ra e todas as suas semelhanças e diferenças com as heroínas da Marvel, do Steven Universo e dos demais trabalhos de Noelle Stevenson.

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Sim, nem todo homem

Se você sincera e completamente acredita todo homem cis heterossexual é um monstro estuprador com tentáculos saindo das calças só esperando uma buceta pra violar… Você tem uma noção bastante limitada sobre masculinidade, hein, amigue?

Eu entendo ter nojinho de homem – eles normalmente tem cheiro de testosterona e comida presa na barba. E eu entendo ter medo de homem – eu nem consigo abraçar a maioria deles.

Mas mandar ele ficar quieto e ameaçar cortar o pênis dele só por ele estar expressando uma opinião inofensiva que você não concorda SÓ por ele ser homem é ir um pouco longe demais e é uma prática muito potencialmente transfóbica. Continuar lendo

Eu Sou Uma Mulher Trans. Estou No Armário. Não Vou Sair Dele.

Antes de vocês passarem pro texto da Jennifer, eu, a editora, Felicia Guerreiro, gostaria de fazer umas observações.

Esse texto não é a coisa mais polêmica do mundo na internet anglófona (que fala inglês), mas várias ideias apresentadas aqui provavelmente vão demolir algumas ideias de transgeneridade populares na comunidade LGBT e feminista brasileira. A autora do texto também desafia a forma como o feminismo é feito e propagado nos dias de hoje enquanto conta uma história muito íntima sobre a sua transgeneridade. E eu AMO essa autora por isso.

Não tomo as palavras dela como as minhas, mas defendê-las-ei com tudo que tenho.

E esse texto também tem uma linguagem um pouco acadêmica e difícil de entender. Eu geralmente não gosto de publicar esse tipo de texto, mas abri uma exceção pela mensagem aqui ser poderosa demais pra deixar passar.

TEXTO ORIGINAL

Eu Sou Uma Mulher Trans. Estou No Armário. Não Vou Sair Dele.

Texto por Jennifer Coates; Traduzido por Felicia Guerreiro

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Terrorismo Doméstico e Sofrimento Empático

TW: Todos. Esse post é horrível.

As meninas das fotos são Keyla França e Leelah Alcorn, ambas mulheres trans vítimas de suicídio. A foto da esquerda foi tirada no desastre de Orlando.

Primeiramente: Pra quem acha que isso é mimimi GGGG branco: Vai se foder. A hostess do evento era uma mulher transgênera porto-riquenha negra e teve outras mulheres, trans e cis, entre as vítimas feridas, mortas e aterrorizadas; e a grande maioria das pessoas na boate eram latinas. E mesmo que as vítimas fossem todas homens gays cis, o que tornaria a situação menos trágica?

No dia 12 de junho de 2016, um cara aparentemente gay que não queria sair do armário estava tão frustrado com a própria sexualidade que decidiu entrar numa das principais boates LGBT de Orlando nos EUA, com um rifle AR-15, pra provar que era macho. Este mentecapto fruto de uma cultura homofóbica matou 49 pessoas e feriu gravemente outras 53. Este imbecil foi morto pela polícia antes que pudesse matar mais alguém.

No dia 27 de maio, 33 homens coletivamente estupraram uma garota de 16 anos no Rio de Janeiro. Muitas outras garotas vítimas de abuso sexual cometeram suicídio quando viram a população brasileira negar o acontecimento diante de provas irrefutáveis. Ninguém ouviria essas garotas e a morte se provou mais atraente do que a luta pela verdade.

E misturando as duas tragédias? Bom, sites de notícia paranaenses cobrem as suas necessidades: No dia 14 de abril, 4 moleques de 15 a 17 anos estupraram e mataram uma jovem travesti de 14 aninhos de idade no interior do Paraná. Eles esconderam o corpo da criança que só foi encontrado uma semana depois. E a morte dessa menina é apenas uma nas mais de 85 mortes de pessoas trans e travestis no brasil que aconteceram SÓ NESSE ANO que não chegou nem na metade ainda. Isso sem contar os suicídios.

E eu chorei com cada uma dessas violências… Continuar lendo

#GiveElsaAGirlfriend e porquê Frozen é meu filme favorito

Dia 12 de março desse ano foi confirmado que um Frozen 2 será produzido, mas ele não será lançado até 2018. Jennifer Lee e Chris Buck vão voltar pra dirigir o filme  e a Idina Meznel e Kristen Bell voltarão como Elsa e Anna.

E tudo isso é maravilhoso e coisa e tal, mas o que todomundo quer saber é: A Elsa vai vai ganhar uma namorada?!

Pequenos spoilers de Frozen, Mulan e Star Wars Episódio VII à seguir. Continuar lendo

Terra-Média: Sombras de Sexismo

Nunca teve muitas personagens femininas em Senhor dos Anéis, e eu serei a primeira fã da série a admitir isso. Mas as poucas que estão lá são muito legais: Galadriel, Arwen, Éowyn (que é a personagem mais foda da série, diga-se de passagem). Nenhuma personagem é trans, mas o livro foi escrito em 1937~45. Vamos dar um desconto pro autor né?

Acontece, que em 1937 o Tolkien já tinha noção de que mulheres não precisam ser troféus pra história de um cara ou estar sempre em perigo. Mesmo a Arwen, que é a personagem mais sem sal dos filmes (eu detesto os livros de Senhor dos Anéis. Me crucifiquem), tem seus vários momentos de heroísmo.

Mesmo assim em pleno ano 2014, escritores da Monolith Games que trabalharam em Terra-Média: Sombras de Mordor não conseguem escrever UMA porra de uma personagem feminina que não seja uma donzela em perigo.

Em um jogo baseado na obra do Tolkien, ainda por cima.

Eu me senti particularmente ofendida com isso.

Aqui tem spoilers de O Senhor dos Anéis e Terra-Média: Sombras de Mordor (mas sério, a história desse jogo é uma bosta. Não ligue pra spoilers de histórias bostas). Continuar lendo