Travestis Primaveris jogando Õkami no Imbolc de 2019

Dia 1 de Agosto, a última quinta-feira, foi o Imbolc de 2019 no hemisfério Sul. E como eu tenho feito desde o último solstício venho aqui fazer um pequeno trabalho de magia cibernética para conectar o blog com as energias da Roda do Ano. Só que dessa vez eu cheguei um pouquinho tarde porque tinha algumas outras coisinhas pra resolver antes no meu Imbolc. Tipo limpar a casa e me livrar de coisas que ex namoradas deixaram dentro do meu coraçãozinho me COMENDO VIVA.

É. É disso que Imbolc se trata. O inverno acabou e agora é hora de tirar toda essa lama do jardim e tirar as carcaças dos bichos que morreram no último inverno pra primavera poder vir.

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Lughnasadh 2019, Donkey Kong 64 & Visibilidade Trans

Sabe quando você está jogando um RPG medieval qualquer, e aí você chega num vilarejo aleatório e está tendo um “festival da colheita” cheio de jogos, brincadeiras, e quitutes deliciosos? Mas, principalmente, um campeonato que suas personagens provavelmente vão ser obrigadas a participar?

Talvez a sua narradora não saiba, mas isso provavelmente foi baseado numa celebração que os antigos irlandeses chamariam de Lughnasadh, que ainda acontece tradicionalmente no dia 1 de Agosto na Irlanda e outros lugares que herdaram essa cultura no hemisfério norte, ou no dia 2 de Fevereiro para neo pagãs do hemisfério sul.

E o Lughnasadh foi bastante especial esse ano, graças a Donkey Kong 64, sereias e um certo menino que adora soja.

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Eu Sou Um Produto – diar.pt2

Sabem como eu tava planejando terminar o hiato do blog? Com um post sobre a ContraPoints, e consequentemente, sobre a Natalie Wynn, e fazer alguns comentários sobre o que a morte do autor significa na era do youtube. Mas com toda a minha paranoia sobre privacidade e objetificação (descrita aqui, leia antes de prosseguir, por favor), eu não acho mais que eu tenho qualquer direito de me meter no trabalho da Natalie. Porque ser uma mulher trans na internet…

Não.

Ser uma mulher trans em público é uma bosta.

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Trans In Games – Overwatch – D.va & A Apropriação Agressiva

Arte por KNKL

AAHHHHHH FINALMENTE TENHO UM COMPUTADOR DE VOLTA, PORRA!

Como é agonizante ficar sem me comunicar com vocês! Yeesh.

Mas agora eu to de volta, vai rolar altas novidades (então não esquece de me seguir no Facebook). E eu decidi chegar chegando.

É muito, muito raro quando uma desenvolvedora de videogames cria protagonistas trans de propósito. Eu falei já sobre apropriação transgênera em outro momento. Mas hoje eu quero falar sobre um fenômeno que eu creio ter pego a comunidade trans gamer um pouco surpresa, mas nos fez sentir ainda mais válidas do que nos sentíamos antes e iniciou um movimento ainda mais agressivo de apropriação transgênera da nossa parte.

Edit: Esse post é sobre MEMES que fazem parte de um movimento trans anarquista. A D.va NÃO é canonicamente trans e não é isso que to querendo dizer aqui. Ok? Ok. Continuar lendo

Sim, nem todo homem

Se você sincera e completamente acredita todo homem cis heterossexual é um monstro estuprador com tentáculos saindo das calças só esperando uma buceta pra violar… Você tem uma noção bastante limitada sobre masculinidade, hein, amigue?

Eu entendo ter nojinho de homem – eles normalmente tem cheiro de testosterona e comida presa na barba. E eu entendo ter medo de homem – eu nem consigo abraçar a maioria deles.

Mas mandar ele ficar quieto e ameaçar cortar o pênis dele só por ele estar expressando uma opinião inofensiva que você não concorda SÓ por ele ser homem é ir um pouco longe demais e é uma prática muito potencialmente transfóbica. Continuar lendo

Trans In Games’ Spin Off – Pokémon GO, Passabilidade e Gêneros Subjetivos

Isso é um Spin Off da coluna Trans In Games que eu criei com o objetivo de falar sobre Pokémon GO. Já tem um tempo que eu queria fazer um Trans In Games sobre Pokémon, mas a verdade é que a série não tem muita coisa pra ser trabalhada na questão de gênero. Não existe ambiguidade nos gêneros dos treinadores e treinadoras Pokémon exceto talvez de uma Beauty que aparece no Pokémon X/Y.

E aí veio Pokémon GO. E quando você chega no nível 5 nesse jogo, você deve escolher de qual time você fará parte: Você tem coragem e força do time Valor, sabedoria e inteligência do time mystic, ou intuição e instinto selvagem do time Instinct?

Não é de se impressionar que quando revelaram quem seriam os líderes dos vindouros times de Pokémon GO, a comunidade trans escolheu TODOS ELES.

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Arte por Mico/Lu

Muita gente pirou nesses líderes porque… Eles parecem com a gente.

Spark, um menino de feições “afeminadas” e postura relaxada foi pego pela comunidade como, não apenas um guri trans, mas também o Senhor dos Memes. Esse moleque ficou tão epicamente zuado nas redes sociais que ele passou a ser conhecido como um garoto que quer mais se divertir e não liga muito pra brigas (nem pra relacionamentos). Muitas pessoas vêem o spark tanto como um guri trans como um ace.

A Blanche, minha waifu eterna, saiu com roupas azuis, brancas e roxas – cores muito próximas da bandeira trans. Isso em combinação com suas feições ambíguas fez a galera pegar Blanche como uma pessoa não-binária.

E a Candela já se imprimiu na cabeça das pessoas como uma sapatrans pronta pra pegar.

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Arte por POM

Eu pessoalmente gosto de ver a Blanche como uma mulher transfeminina que nem eu, e a Candela como uma sapatrans atleta e as duas estão num namoro lésbico. E eu gosto de ver um spark como um carinha amigo das duas que fica fora disso (não é importante se ele é trans ou não por que eu quero saber é das duas).

Mas nem tudo são flores, né?

A um tempo atrás eu postei algo na página do Facebook sobre esse jogo que eu vou parafrasear aqui:

Ontem eu estava ouvindo um podcast (cooptional podcast, do total biscuit) onde foi comentado sobre como eles odeiam as pessoas atribuindo identidades de gênero não-binárias aos líderes dos três times de Pokémon Go, e eu senti necessidade de me posicionar sobre o assunto e esclarecer umas coisas pra galera cis.

É péssimo quando as pessoas brigam por causa de uma personagem fictícia – ainda mais quando o motivo da briga é a identidade de gênero da personagem – isso diminui o valor artístico dessa personagem e usa pessoas trans de verdade como token pra uma discussão sem sentido.

Agora, se eu quiser dizer que a Candela é uma mulher trans lésbica ou whatever, isso não é da sua conta.

A maior parte do meu trabalho aqui gira em torno da morte do autor – uma teoria filosófica que muita gente não concorda, o que é de boa, mas não vamos brigar por conta disso – que fala sobre como, depois que uma obra é publicada, o autor perde toda a autoridade sobre a sua obra e ela passa a pertencer ao público, que através da apreciação e de diferentes interpretações, dão a essa obra o status de arte.

Videogames não são exceção. E a visão de cada pessoa sobre essas personagens vale mais do que a visão da Nintendo. São interpretações individuais que tornam arte, arte.

A beleza em particular das fandoms é o quanto essas interpretações individuais tomam vida na forma de fanart, fanfic, e discussão saudável.

Vendo que a internet nos permite dividir nossas próprias opiniões sobre obras de arte, no meu blog eu proponho interpretações políticas que desafiam papéis de gênero, expõe transfobia, e desfia a importância do “canon” (e sendo completamente sincera, do direito autoral também).

E eu também defendo que a discussão sobre a natureza dessas obras pode ser pacífica. Muita gente veio brigar comigo pra defender o fato de que o Naoto de Persona 4 é uma menina cis, que a Gwyndolin de Dark Souls é um homem cis e que a Linkle de Hyrule Warriors Legends é uma menina cis. E eu sinceramente acredito que as pessoas que vieram brigar comigo por causa disso não sabem o que arte significa, e eu simplesmente sinto pena delas. Será que dói pensar que suas personagens favoritas podem não ter a mesma identidade de gênero que você gostaria que elas tivessem?

O quê eu proponho aqui é uma desconstrução da cisgeneridade compulsória e é o que eu espero que minhes outres irmãs e irmãos trans fãs de Pokémon Go também estejam fazendo.

Mas agora eu tenho que admitir, tem algo além do desafio à cisgeneridade compulsória acontecendo aqui.

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Arte por Monmon

Vocês notaram como as minhas visões pessoais (meus head-cannons) divergem do consenso geral da comunidade trans sobre essas personagens? Eu chego até a ser um pouco misândrica em relação ao Spark por não conseguir ver ele como nada além do Senhor dos Memes.

E acho que isso tem a ver com as nossas noções de gênero e passabilidade.

Gênero é uma construção social – difícil negar isso – e como toda construção social, ela depende de um consenso. Mas quando a maioria das teorias sobre gênero que nós temos hoje surgiu, não existia o Tumblr nem todos esses gêneros que hoje estão além do masculino e do feminino e não se limitam apenas à variação “queer” ou outras variações regionais. E o gênero, hoje em dia, é visto como um papel que nós damos a nós mesmos.

Mas vamos ser realistas por um segundo. Se você tem barba, está usando calças e camiseta larga e está cruzando a rua comigo quando eu preciso desesperadamente perguntar as horas eu vou dizer “moço, você pode me dizer as horas?”, mesmo que você seja, por dentro, uma moça.

Gênero é identidade, mas gênero também é performance, e eu vou soar muito babaca por dizer isso, mas sendo completamente sincera, nós não podemos esperar respeito à nossa identidade a não ser que performemos essa identidade. E a performance de barba, camisa larga e calças me diz, imediatamente, homem. Essa não é nem de longe a única maneira de expressar masculinidade , mas esses significadores vão dizer para mim e para todo o mundo ao redor dessa pessoa: homem. Junto com todos os privilégios que isso acarreta.

Quando a gente entra no espectro não-binário de expressões de gênero as coisas ficam mais complicadas pois não há consenso. O que é masculino pra uma pessoa é feminino pra outra. O meu cabelo curto novo me rendeu elogios sobre a minha feminilidade no curso que eu faço. O mesmo cabelo me rendeu um atendente de lanchonete me chama de “rapaz” e um grupo de jovens preocupados no ônibus a me perguntar se “você tá bem, bróder?”, mesmo que em todas essas situações eu estivesse de saia.

Quando eu vi Blanche, eu imediatamente li nessa personagem uma mulher. E a maior parte das pessoas também parece ter tido a mesma impressão com a líder do time Mystic. Mas o meu irmão (cis) leu essa personagem imediatamente como homem; e uma amiga minha fica legitimamente confusa com o gênero dessa personagem e não sabe o que dizer quando se trata dela. E enquanto isso várias outras pessoas vêem Blanche como sendo de vários outros gêneros não-binários diferentes.

A Candela é uma mulher de curvas expressivas, e muitas pessoas pensam que ela não tem como ela ser trans com todas essas curvas. Enquanto que outras pessoas argumentam que ela é trans JUSTAMENTE por causa dessas curvas.

E o Spark… É o Senhor dos Memes.

(dá pra ver que eu sou Mystic só pelo tamanho dos parágrafos né?)

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Arte por Merkymerx

O que era claramente feminino pra mim, era claramente masculino pro meu irmão. O que era claramente transfeminino para alguns, era claramente cisfeminino para outros.

A verdade é que existem pessoas de todos os tipos de corpos e aparências em todos os gêneros. E a forma como nós lemos os outros nem sempre vai bater com a forma como a própria pessoa se vê ou como a pessoa do seu lado vê ela. Como eu disse nesse outro post, passabilidade é um conceito que logicamente não tem como existir, pois cada pessoa construiu ideias de gênero na sua cabeça de forma diferente da outra. E eu jamais poderia criminalizar o atendente da lanchonete por me chamar de moço, afinal, ensinaram ele desde criança que qualquer pessoa com cabelo curto é homem; enquanto que eu aprendi que pessoas como a Blanche são sempre mulheres; e outras pessoas nem tanto.

E até que a pessoa que é assunto desses julgamentos se manifeste, nenhum de nós está errado.

E como eu duvido que algum dia a Niantic se manifeste sobre os gêneros e sexos canônicos de cada personagem, a blanche e a candela vão continuar sendo sapatrans lindas, e o spark vai continuar sendo um menino bobo e divertido provavelmente assexual.

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Blanche, me possua <3 | Arte por Aurahack

Eu Sou Uma Mulher Trans. Estou No Armário. Não Vou Sair Dele.

Antes de vocês passarem pro texto da Jennifer, eu, a editora, Felicia Guerreiro, gostaria de fazer umas observações.

Esse texto não é a coisa mais polêmica do mundo na internet anglófona (que fala inglês), mas várias ideias apresentadas aqui provavelmente vão demolir algumas ideias de transgeneridade populares na comunidade LGBT e feminista brasileira. A autora do texto também desafia a forma como o feminismo é feito e propagado nos dias de hoje enquanto conta uma história muito íntima sobre a sua transgeneridade. E eu AMO essa autora por isso.

Não tomo as palavras dela como as minhas, mas defendê-las-ei com tudo que tenho.

E esse texto também tem uma linguagem um pouco acadêmica e difícil de entender. Eu geralmente não gosto de publicar esse tipo de texto, mas abri uma exceção pela mensagem aqui ser poderosa demais pra deixar passar.

TEXTO ORIGINAL

Eu Sou Uma Mulher Trans. Estou No Armário. Não Vou Sair Dele.

Texto por Jennifer Coates; Traduzido por Felicia Guerreiro

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Sobre Passabilidade E Disforia

Arte por Tessa Black

Aí a Felicia aparece aqui pra vocês dizendo “passabilidade não existe e pessoas cis são bobonas”. E aí? Como é que fica esse abalo das estruturas da ideia de transgeneridade? Provavelmente não vai abalar porra nenhuma pra você porque eu não sou a primeira pessoa trans no Brasil apontando o quão ridícula é essa ideia de passabilidade.

Mas quanto mais vozes melhor né? E algo meio besta aconteceu comigo uns dias atrás pra provar que passabilidade cisgênera simplesmente não existe. Continuar lendo

Diário Aelatório no Dia do Orgulho

#NoFilter é uma campanha da organização do Orgulho LGBT em Londres sobre ser você mesme, sem filtros. E eu achei que tinha tudo a ver com o post de hoje.

Por enquanto esse texto não tem título (vai ter quando ele for publicado, mas sei lá qual vai ser, eu to improvisando aqui). E… Nossa. Eu to feliz nessa noite de aniversário de Stonewall porque eu sinto que uma parede de pedra acabou de ser derrubada (ha! Tendeu?). E eu me sinto mais lésbica agora do que eu me senti durante a maior parte da minha transição.

É. Acho que o post vai ser sobre isso. Minha identidade lésbica. Sabe porque? Porque eu sou trans, mas eu também sou sapata! E vai tomar no cu, que sapata gostosa eu sou! Continuar lendo

Trans In Games – Hyrule Warriors: Legends – Linkle

Essa elfa é uma humana!

E pior que é mesmo. Não existem elfas na lore de The Legend of Zelda. Assim como aparentemente não existe lugar pra uma Link mulher; e mulheres heroínas só no jogo spin-off da Omega-Force que não é nem considerado canon.

Sexismo vindo da Nintendo não é novidade pra ninguém. É um monte de senhores de 50+ anos fazendo jogos pra crianças e adolescentes japoneses de acordo com as suas próprias visões de mundo antiquadas e machistas. Um ex empregado da Nintendo contou para o Kotaku (infelizmente não consegui achar a fonte; quem conseguir, me manda) um relato bem detalhado falando sobre inovação é impossível na empresa que funciona mais como um feudo japonês da era Sengoku do que uma desenvolvedora de videogames.

E quando os primeiros trailers do, agora conhecido como Breath of The Wilds saíram, todomundo estava super animade pra ver uma link menina num jogo principal da série. E o lançamento da Linkle em Hyrule Warriors só deixou a gente ainda mais animade!

Mas aí a E3 aconteceu e toda possibilidade de um dia podermos ver Link como menina caiu por terra… Ou será que caiu mesmo? Continuar lendo